
Sempre acompanhei as matérias que saíam no Waves sobre os fundos de pedra no Espírito Santo. Fiquei chocado na primeira vez que vi essas imagens. Como podem quebrar ondas perfeitas como essas e com todo esse power tão perto de casa? A vontade de conhecê-las era enorme.
Na manhã da última quinta-feira, dia 10, recebi um e-mail do amigo Maurício Leonardo, me convidando pra fotografar as bancadas no final de semana do feriado. Acabei comprando antes dele a passagem, e 6 horas da manhã de sexta-feira já estava hospedado na casa do bodyboarder Magno Oliveira, que nem conhecia pessoalmente.

Assim que cheguei, a galera já estava na espera. Tive alguns minutos pra comer alguma coisa e reunir o equipamento todo. Em pouco tempo conheceria o Underground, uma das bancadas mais “casca-grossa” do Espírito Santo. Na maré seca as pedras ficam quase expostas na parte mais rasa.
O primeiro dia de Underground foi meio assustador. Estava grande e nublado, nunca tinha fotografado em fundo de pedra, e logo na primeira da série fui arremessado na bancada, numa vaca que não vou esquecer tão cedo. Por sorte só arranhei um pouco da caixa estanque.

Depois disso recebi um apoio legal da galera e ficou mais fácil o posicionamento dentro d’água. Destaque do dia para Jackson Siqueira, que pegou os maiores e mais fundos tubos nessa manhã. Além da disposição que tem, esse cara é o principal responsável pela alegria da galera. Foi ele quem descobriu a bancada do Underground.
O segundo dia nas pedras foi de Tiago Freire. Fiquei mais pra dentro da bancada, assistindo de camarote seu show de tubos. Segurando a máquina com uma das mãos, levantei a outra dentro do tubo do dia, e antes dele ser cuspido pela baforada, me cumprimentou com uma tapa na mão levantada, num momento de êxtase da galera, quando as ondas alcançavam a perfeição completa.
Pra completar, foi descoberta mais uma bancada no caminho de volta desse segundo dia de surf. Magno Oliveira e Davi Borges surfaram sozinhos a nova bancada por mais ou menos uma hora. Pegaram os mais profundos e perigosos tubos, mostrando muita coragem e disposição.
A onda era assustadora, parecia um mini Teahupoo, com um lip absurdamente grosso. Davi saiu da água todo cortado, e Magno ainda teve a mão quebrada pelas pedras, o que não o impediu de surfar nos dois dias seguintes. A bancada ainda não teve nome oficializado, mas estava sendo chamada de “El rasgadón”.
O sol apareceu no domingo, e os tubos do Underground ficaram de cor verde, dando um visual alucinante junto com o céu azul. As ondas ainda tinham tamanho, e pra ficar ainda melhor, a galera do surf apareceu pra tentar uns tubos.
Diogo Leão, Dell Gama, Marco Leite e o californiano Mariah, que estava conhecendo, segundo ele, as melhores ondas do Brasil, fizeram a cabeça nas direitas esverdeadas. Diogo teve um rasgo de 6 pontos no tornozelo depois de vacar na saída de mais um tubo. “Isso não é nada, poderia ter sido pior. Sou abençoado de estar surfando essas ondas só com os meus amigos”, afirmou.
Infelizmente o swell não dura eternamente, e na segunda-feira, último dia de ondas, o Underground não quebrou. Resolvemos então tentar o Bin Laden, a 800 metros de distância da costa, que só quebra em condições especiais.
Depois de alguns minutos nadando, conheci finalmente a bancada do Bin, que não estava no tamanho ideal. Mas mesmo assim, Maurício, Tiago e Maguinho encontraram alguns tubos.
Depois de 4 dias de noitadas capixabas, muitas ondas, moqueca de cação da tia Rosângela, tubos e mais de 500 fotos, estou exausto e impressionado com o que encontrei no ES. Conheci as melhores ondas de Guarapari, e os bodyboarders e surfistas mais unidos e insanos que já vi. Entre eles: Magno Oliveira, Maurício Leonardo, Davi Borges, Tiago Freire, Jackson Siqueira e os surfistas Dell Gama e Diogo Leão.
Voltei pra casa recordando cada momento da viagem. Pensei que fosse apenas fazer algumas fotos legais de bodyboard durante esses dias, mas além disso fiz grandes amizades e agora tenho uma grande família no Espírito Santo.
Nunca tinha presenciado tanta união e amizade entre o surf e o bodyboard. Tenho certeza de que isso ajuda cada um a superar seus limites dentro d’água. E é o que todos eles fazem a cada dia que passa.
“Obrigado, muito obrigado!”
(Todos gritavam “obrigado, muito obrigado!” na saída dos tubos, numa forma de agradecer o momento único de poder estar surfando ondas perfeitas apenas com os melhores amigos.)
Clique aqui e confira a galeria de fotos