Expedição Canela

Capitães do destino

A passagem da expedição Destino Canela nas paradisíacas ilhas de Fiji foi marcante. Tudo começou quando ainda estávamos na Nova Zelândia, reformando nosso barco na cidade de Paihia, ilha Norte. A reforma demorou mais do que prevíamos, e a maioria dos barcos que partiriam para Fiji já tinham levantado âncora. Acabamos no meio do inverno gelado e partimos rumo a uma travessia de nove dias.

 

Chegamos a Fiji no final de junho. A temporada de ondas estava no auge, mas picos como Cloudbreak e Restaurants ainda eram fechados para quem não se hospedava na ilha de Tavarua. Começamos com altas ondas em Wilkes Pass, uma direita que acima de 2 metros já quebra tubular na primeira seção.

 

Dois amigos nossos do Brasil, Rafael Jahn e Felipe Koch, nos visitaram e tiveram sorte de pegar boas ondas em Wilkes, mas o azar de não aproveitarem os picos mais clássicos. Nós havíamos surfado uma vez em Cloudbreak antes do decreto da liberação das ondas ser assinado, pois todos os sábados de manhã, com agendamento prévio, e pagando uma boa quantia em dinheiro, era permitido surfar por 4 horas no pico.

 

Poucos dias depois de eles irem embora, nós estávamos em Port Denarau, cidade de Nadi, arrumando algumas coisas no barco que ficaram pendentes desde a nossa chegada ao país. Em uma rádio local ouvimos o anúncio de que o presidente do país acabara de liberar o surf em todos os picos.

 

A partir desse dia, o Cloudbreak ficou incluso em todas as viagens que a fazíamos pelas ilhas de Fiji. Além de Cloudbreak e Restaurants, outro pico que foi liberado é uma esquerda divertida, longa e fácil, localizada na frente da ilha de Namotu.

 

A Namotus Left se portou clássica muitas vezes para nós, e mais um amigo nosso, o australiano Jarred (mais conhecido como Geraldo), teve a sorte de passar uma semana de gala. Essa é uma daquelas ilhas de filme, com muita areia branca em volta, vários coqueiros, umas cabaninhas no meio do mato, e uns quiosques de madeira com vista para o pico. Altas ondas, surfando muitas vezes sozinhos. Nós ficávamos no barco vendo quando o pico esvaziava.

 

O bom de Fiji é que um monte de gente saindo do mar ao mesmo tempo, não significa que o mar piorou, mas sim porque o tempo de espera do motorista do barquinho que trouxe a galera para surfar, acabou. Geralmente todo mundo ia pelas 6:30 horas e, quando chegava 10:30, eles tinham que voltar. A gente só esperava esse momento.

 

Ninguém do barco é profissional, ou mesmo perto disso, mas cada um faz seu surf, curte sua onda, faz a cabeça e se amarra no que está fazendo. Esse é o sentimento. Uma vez quando conversava com um amigo de Torres, Stefano Dornelles, surfista gaúcho profissional, chegamos na mesma conclusão sobre esse sentimento. O que realmente importa no surf é estar dentro da água, curtindo o momento com seus amigos, e a evolução vai de pessoa pra pessoa. O importante é ir surfar.

 

Estar numa trip dessas com seus melhores amigos surfando uma das ondas mais clássicas desse mundo era um sentimento forte. É aquela sensação de que tudo pode ser possível, basta só baixar a cabeça, focar e lutar pra isso. Cloudbreak é um pico em que Kelly Slater lista em sua ficha da ASP como sendo um dos seus três preferidos no mundo. Surfar ali é um prazer imensurável.

Conhecemos diversas ilhas incríveis, inclusive as que produziram o filme Náufrago, com Tom Hanks, e o filme Lagoa azul, clássico da sessão da tarde, com Brooke Shields. O povo local é pura simpatia. Sempre felizes, cantando e tocando violão, eles estão o tempo todo sorrindo e de bem a vida. Levam uma vida voltada para o trabalho durante a temporada de barcos e as férias da Austrália, Nova Zelândia e Estados Unidos.

O plano de viagem até o segundo mês em Fiji estava mantido. Passar três meses ali, um em Vanuatu e mais um na Nova Caledônia, antes de chegar na Austrália. Mas, em uma mesa de bar, reencontramos um amigo que fizemos no Tahiti, o Rick, com mais de 50 anos, ele é capitão de um barco. Ele estava precisando de três tripulantes para levar o barco dele de Fiji até o México. O pagamento era muito bom e a gente não podia perder essa chance, além de fazer uma escala no Hawaii.

 

Augusto, Cláudio e Gustavo, com mais experiência e conhecimento no assunto foram, e eu fiquei no Canela na ilha de Malolo Lailai, em Musket Cove, por quase dois meses. Essa ilha fica cerca de dez quilômetros das ondas de Namoto e Wilkes Pass, e mais uns dois quilômetros até Cloudbreak. Quando parecia que não podia melhorar, mais uma visita de um brother lá da nossa cidade de Canela. Bruno Corino se juntou a tripulação do Destino Canela e ficamos lá pegando essas ondas e jogando um futebol com o pessoal local da ilha, até a galera voltar do México.

 

Eu e Bruno vimos um Cloudbreak mudar em questão de duas horas, de um mar estranho e desajeitado até o mais clássico de toda a temporada que a gente pegou. Foi em setembro, em um mar de 2 a 3 metros, com um vento terral e séries cada vez maiores. Estava perfeito e os locais de Tavarua, que moram na ilha há mais de 12 anos, pegaram tubos longos e profundos na bancada rasa do pico. Dia histórico.

 

O guris chegaram do México no começo de novembro, ajeitamos as coisas e partimos. Não passamos em Vanuatu, e na Nova Caledônia ficamos uma semana apenas para descansar e tirar o visto para a Austrália. Não surfamos, e partimos direto para terra dos cangurus.

 

Fiji está fresca na nossa memória. Esse tempo em que estamos na Austrália é de muito trabalho para conseguirmos seguir em frente até chegar ao Brasil, provavelmente no final de 2012. Na tripulação do Canela tem gente nova. Nosso brother Leandro Brant, o rastaman. Cláudio partiu depois de quase três anos no projeto, para seguir novos objetivos. Estamos indo pra Indonésia, parando antes em Papua Nova Guiné e Timor Leste.

 

O plano é ficar na Indo por quatro meses. Queremos desbravar aquelas ilhas, principalmente na parte das Mentawai. Vamos ficar em contato com o Waves e mandar notícias, fotos e informações sobre aquelas ondas que prometem muito.

 

João Pedro Travi é integrante do Projeto Destino Canela. A bordo de um veleiro, eles têm o objetivo de dar a volta ao mundo parando em portos do mundo inteiro. A conclusão se dará quando os tripulantes, depois de quatro anos de viagem, tiverem chegado à cidade gaúcha de Canela.

 

Para saber mais sobre o projeto, acesse o site Destino Canela.

 

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