Aníbal Nunes

Canais da África do Sul

Em agosto de 2012, me formei no curso de administração na Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC) e uma semana depois de colar grau estava embarcando para realizar meu sonho de conhecer a África do Sul.

 

O motivo da viagem, que contei para meus pais, foi melhorar meu inglês e me inscrevi num curso de quatro semanas na Cidade do Cabo. E teria mais dois meses pela frente para renovar o curso. 

 

Não procurei saber muito sobre o pico antes da viagem para não levantar muitas expectativas, mas foi inevitável. Uma conversa rápida com o amigo Diogo Guerreiro, que havia dado a volta ao mundo num catamarã, me motivou ainda mais.

 

Ele não disse muito coisa sobre o lugar, mas revelou que de todos os locais que conheceu e passou, Cape Town é onde ele escolheria para morar.

 

Cape Town realmente surpreendeu, com diversos pontos turísticos, Waterfront, Longstreet, Roben Island, Cabo da Boa Esperança, rota dos vinhos etc. 

 

Mas, o que mais me intrigou, foram as paisagens da cidade. A cidade é cortada por uma cadeia de montanhas, praias maravilhosas e regiões rochosas, além de ser bem organizada e ter uma excelente infra-estrutura de turismo. 

 

Depois de um mês na cidade, o que mais gostava de fazer era escalar as montanhas Lion’s Head e Table Mountain. 

 

É uma caminhada acessível e muito agradável, você encontra com muita gente no caminho desde crianças, jovens e pessoas mais velhas. 

 

Ao chegar no topo, você passa a entender melhor como funciona a cidade e percebe como Cape Town é grande e bonita. 

 

A montanha que mais subi foi a Lion’s Head, a 700 metros do nível do mar. Era o local ideal para um piquenique com uma vista maravilhosa. Escolhia um lugar em cima de uma pedra onde as pessoas não passavam para poder meditar sem ser incomodado. Outro passeio legal é a subida da lua cheia pela luz da lua e das estrelas.

 

Depois de um mês na cidade já não estava mais freqüentando as aulas de inglês como deveria, foi quando encontrei com um amigo que estava de passagem na África do Sul para uma viagem a Indonésia, ele me convenceu a desistir do curso para irmos a famosa Jeffreys Bay.

 

A estrada que liga Cape Town para JBay é a famosa Garden Route, são 700 km passando pelas cidades mais belas da costa sul africana e pela divisa dos oceanos Atlântico e Índico.

 

Varias fazendas e pequenos parques para a pratica de esportes radicais, uma vasta natureza com diferentes vegetações, plantações e lá no fundo as intrigantes montanhas. Passamos também pela Bloukrans Bridge, ponte que está instalado o maior Bungy Jump do mundo. Ela liga duas montanhas por onde passa à estrada, sua arquitetura impressiona. Na hora que você olha para baixo para se jogar no gigante vale formado entre as montanhas, sua adrenalina já esta a mil e não tem volta.

 

Com a adrenalina liberada seguimos caminho rumo a Jeffreys onde passaríamos o final de semana. 

Meu amigo Pitter se impressionou com a pacata cidade, mas teve que seguir para Bali. 

 

O que era para ser uma viagem de final de semana se tornou uma estadia de um mês. 

Tudo na cidade gira em torno do surf, você percebe em qualquer loja, restaurante que entra ou pessoa que conhece. 

 

A energia daquela praia é muito forte. Fiquei um mês em SuperTubes, onde acontece a etapa do WCT (tirada nos últimos anos do circuito mundial), a areia da praia é cheia de conchas que você chega a machucar seu pé andando descalço por ela. 

 

Durante esse mês consegui surfar praticamente todos os dias. Estava surfando a melhor direita do mundo e muitas vezes sozinho, inacreditável. 

 

Outubro não é a época dos grandes swell o que diminui a crowd, apenas os locais surfavam cedo antes do trabalho e a partir das 9 horas o crowd diminuía. Cheguei a surfar com dezenas de golfinhos que passavam muito próximos de mim. 

 

Os últimos 3 dias em JBay entrou um swell grande com o vento terral, o que trouxe muitos surfistas para pegar a famosa onda. 

 

Ela vinha de longe, perfeita, com muitas sessões tubulares e boa para manobrar. 

 

Foi neste dia que conheci uns surfistas e fiquei muito amigo de um cara de Durban. Ao baixar o swell, segui de carona com ele para sua cidade.

 

Em Durban, tudo foi acontecendo da melhor maneira possível. Cheguei numa noite chuvosa na cidade, de carona, sem ter onde ficar. 

 

Meu amigo africano Ross ligou para seus melhores amigos, dois irmãos locais do Bluff (bairro zulu com ótimas ondas e longe da crowd), para hospedar um brasileiro desconhecido em sua casa. Deu certo. Acabei ficando muito amigo dos dois e conhecendo muitos locais de Durban pela amizade. A estadia de um dia passou para longos dois meses.

 

Durban é gêmea de Curitiba, com 3,5 milhões de habitantes a cidade é composta por negros, asiáticos, brancos e mestiços. É a maior cidade indiana fora da Índia e possui o porto mais movimentado da África. A ensolarada e cosmopolita Durban é rica em cultura, tem um mix étnico de raças e estilos o que reflete claramente nas suas ruas do centro.

 

Além dessa diversidade, Durban tem muitas opções de ondas perfeitas e com a água mais quente por estar no oceano Índico. 

 

Tem diversos píers na praia central da cidade, dando destaque ao new píer (onda do que aparece no vídeo), uma direita muita cavada e longa, boa para manobrar. Nos dias que o swell chega a dois metros, o único jeito de entrar na água é pulando do píer que te joga em cima da rebentação, a remada às vezes é pesada, mas a onda é muito boa e vale à pena. Nos dias clássicos, o crowd nesse pico é grande.

 

Em Durban surfava quase todos os dias com os dois irmãos, surfávamos muito no bairro onde moravam, o bluff com muita onda boa e sem crowd. Alem de aproveitar a noite em festas na casa de amigos.

 

Depois de quase 2 meses em Durban meu visto de estadia já estava vencendo e tinha que sair do país. Um dos irmãos foi com seu carro a até Johannesburg para um show do Link Park e me convidou para acompanhá-lo assim na volta sairíamos do país, para a divisa com o Moçambique, renovaria meu visto e de quebra faríamos essa viagem de surf e pesca para a primeira cidade da costa do Moçambique, Ponto d’ouro.

 

O cenário ao cruzar de um país para o outro muda completamente, a infra-estrutura rodoviária sul africana é excelente, com estradas seguras e em boas condições, se torna acessível viajar longas distancias. 

 

Porém, ao cruzar a fronteira tivemos que estacionar nosso carro no lado da África do Sul e pegar uma 4×4 para chegar até Ponta d’Ouro, pois a estrada é sobre areia e dunas. 

 

A paisagem muda, as pessoas mudam e o idioma muda. Ali eles falam alguns dialetos, como a maioria dos países da África, mas a língua oficial é o português. 

 

A cidade é um paraíso, pouca gente, água cristalina, muito peixe e onda. Muita gente sai da capital para passar as férias pescando e mergulhando em Ponta d’Ouro. Apesar da estrutura escassa, as pessoas já estão bem acostumadas a receber turistas.

 

Depois de uma semana no paraíso, o dinheiro já estava acabando e tivemos que voltar para Durban. Fiquei alguns dias com os irmãos sul-africanos, mas a saúde do meu avô no Brasil não estava boa e o médico deu poucos dias de vida para ele. 

 

Ele sempre foi o meu maior exemplo na vida e nos falávamos uma vez por semana por celular. Quando soube da noticia marquei minha volta o mais rápido possível. Voltei até a Cidade do Cabo onde tinha meu vôo de volta para o Brasil, parando 1 ou 2 dias em algumas cidades no caminho. 

Lembro que, ainda em Jeffreys Bay, ele aparentou estar muito bem numa conversa por telefone. Porém, ele só estava esperando minha volta. Na manhã que cheguei em Florianópolis (SC), fiquei sabendo que poucas horas atrás meu maior mestre e tutor havia partido.

 

Muitas homenagens foram feitas para meu avô Valmir Martins, que lutou muito por causas sociais, chegando a ser preso e torturado na época da ditadura. Esse vídeo dedico a ele. O cara!

 

Foto de capa Reprodução

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