Pena Little Monster

Campeões coroados no Rio

Os surfistas da Região dos Lagos do Rio de Janeiro festejaram mais vitórias na terceira e última etapa do Pena Little Monster 2017, encerrado neste domingo (17/9) na Praia do Forte, em Cabo Frio.

 

Dois títulos foram para Búzios, com Airton Dilan ganhando a final Pro Junior Sub-20 e Sunny Pires a Sub-14. Outros três foram para Saquarema, com Kayane Reis vencendo o título do circuito com vitória na Pro Junior, Daniel Templar na Sub-16 e Rickson Falcão na Sub-10.

No entanto, os nordestinos conquistaram mais títulos de campeões do circuito promovido pela marca Pena desde 2014, cinco nas oito categorias, com Israel Junior ganhando o da principal, Pro Junior, e o também potiguar Victor Santos na Sub-8. Os cearenses levaram mais três nas categorias dos monstrinhos, com Cauã Costa na Sub-14, Pedro Rian na Sub-12 e Guilherme Lemos na Sub-10. Os outros campeões das três etapas foram Kayane Reis na Pro Junior, o também saquaremense Daniel Templar na Sub-16 e a catarinense Rafaela Coelho na Sub-14.

As finais começaram as 13 horas do domingo, com o natalense Victor Santos mantendo a invencibilidade na categoria Sub-8 com mais um título em Cabo Frio, pois já tinha sido o melhor também em Paracuru (CE) e em Itacaré (BA). Os campeões foram sendo definidos a cada bateria, até chegar as decisões das categorias mais importantes, Pro Junior Sub-20, que fecharam o domingo do Pena Little Monster com a Praia do Forte cheia em Cabo Frio.

O título masculino já havia sido decidido nas quartas de final, quando o potiguar Israel Junior avançou e o cearense Mathias Ramos, que dividia a liderança do ranking com ele, foi eliminado no início do dia. O surfista de Baía Formosa ainda ganhou mais uma e só na grande final não conseguiu achar boas ondas para mostrar o seu surfe e terminou em terceiro lugar. A disputa pela vitória foi onda a onda entre o carioca Yuri Fernandes e o surfista de Búzios, Airton Dilan, que garantiu o título por 13,25 a 11,80 pontos. O atual campeão sul-americano Pro Junior da WSL South America, Weslley Dantas, de Ubatuba (SP), ficou em quarto lugar.

“Estou muito feliz porque a bateria foi muito difícil, com grandes atletas, mar difícil, mas consegui pegar umas ondas boas para vencer”, disse Airton Dilan, que nunca tinha participado do Circuito Pena Little Monster. “Foi um vira-vira ali no final com o Yuri (Fernandes), mas ainda surfei minha 11.a onda que me salvou para ganhar o campeonato. Estou feliz que deu tudo certo e agora é comemorar”.

Apesar do terceiro lugar na final, o potiguar Israel Junior comemorou o título de campeão do Pena Little Monster 2017 e agora é o líder isolado do ranking Pro Junior da Associação Brasileira de Surf Profissional (ABRASP), que ainda fazer mais uma etapa para decidir o campeão brasileiro da temporada. Israel é de Baía Formosa, mesma cidade do top da elite mundial da World Surf League, Italo Ferreira.

“Estou muito feliz pelo título do Circuito Pena Little Monster”, disse Israel Junior. “Eu treinei bastante para esta etapa, me dediquei muito e na verdade eu queria vencer a final aqui, mas o mar não ajudou muito. Mesmo assim, não tenho do que reclamar, pois fui passando bem as baterias para ser campeão do circuito e saio daqui consciente de que o trabalho foi bem feito. Também continuo liderando o ranking brasileiro, então vou continuar treinando forte para conquistar este título também esse ano”.

Decisões de títulos nas finais Além da Pro Junior, em mais cinco categorias os campeões do Circuito Pena Little Monster 2017 já estavam definidos antes das finais. Em apenas duas, os títulos foram decididos na última bateria da temporada. Uma delas foi da Pro Junior feminina. A vice-líder Yanca Costa perdeu nas semifinais e a briga ficou entre a também cearense Larissa dos Santos e a líder do ranking, Kayane Reis, do Rio de Janeiro.

A surfista de Saquarema liderou o confronto desde o início e abriu uma boa vantagem de 7,5 pontos quando conseguiu notas 6,25 e 6,15 em duas ondas seguidas. A cearense campeã brasileira Pro Junior de 2015, conseguiu 6,75 numa batida vertical para diminuir a diferença para 5,65 nos cinco minutos finais. No entanto, Larissa não conseguiu outra para virar o placar e Kayane Reis ficou com o título Pro Junior do Pena Little Monster 2017, além de seguir liderando o ranking brasileiro, que será finalizado em outubro na Barra da Tijuca (RJ).

“Estou muito feliz pela vitória e pelo título do Circuito Pena Little Monster”, vibrou Kayane Reis. “Na primeira etapa em Paracuru (CE), eu não fui muito bem e perdi nas semifinais. Mas, em Itacaré (BA) eu ganhei, agora ganhei aqui de novo e não tenho nem como explicar o que estou sentindo, é muita felicidade. Agora é focar nos próximos campeonatos para manter esse ritmo. Foi muito irado, porque minha família veio toda de Saquarema para cá, meus amigos do Rio também vieram torcer por mim e estou muito feliz por tudo isso”.

O outro título do Circuito Pena Little Monster 2017 decidido na grande final foi o da categoria Sub-12. A briga era entre o cearense Pedro Rian e o potiguar Alisson Matheus, mas o surfista de Buzios, Sunny Pires, estava ganhando dos dois, até cometer uma interferência de remada e a penalidade cortar uma das duas notas computadas. Com isso, ele terminou em terceiro lugar e Pedro Rian venceu a etapa para comemorar o título do circuito. Alisson Matheus ficou em segundo lugar, Sunny Pires em terceiro e o quarto colocado foi o carioca Pedro Henrique.

“Estou muito amarradão e só tenho que agradecer a Deus e toda a galera que vem me ajudando a correr os eventos e para esta viagem para cá também”, disse um emocionado Pedro Rian. “Ser campeão da etapa e do circuito foi muito bom para mim e obrigado a toda a galera que torce por mim, estamos juntos sempre, valeu, uuuhhhhuuuu”.

Final Sub-16 Na final Sub-16, o surfista de Saquarema, Daniel Templar, coroou a conquista desta categoria no Circuito Pena Little Monster 2017 com vitória na etapa final em Cabo Frio. Ele já tinha vencido a disputada antes dessa, em Itacaré (BA), repetindo o feito neste domingo na Praia do Forte. E o filho do bicampeão brasileiro, Leonardo Neves, Valentin Neves, confirmou uma dobradinha de Saquarema no alto do pódio, com outro surfista do Rio de Janeiro, Bernardo Bordowsky, ficando em terceiro lugar e o baiano Davi Mendes em quarto.

“Estou amarradão com essa vitória, pois foi muito importante para mim ser campeão do Circuito Pena Little Monster”, disse Daniel Templar. “O mar está bem difícil, mas consegui achar as ondas boas e estou muito feliz por ganhar a última etapa aqui. Valeu galera e obrigado pela torcida”.

Final Sub-14 Na final Sub-14, o campeão do Circuito Pena Little Monster 2017, o cearense Cauã Costa, ficou nas semifinais e o monstrinho de Buzios, Sunny Pires, não deu qualquer chance para seus adversários. No sábado, ele fez os recordes da etapa do Pena Little Monster nas ondas da Praia do Forte e no domingo participou de duas decisões. Na Sub-12, liderava a bateria, mas cometeu uma interferência e terminou em terceiro lugar.

Ele nem saiu do mar e já começou forte a final Sub-14, massacrando uma onda que valeu nota 8,50. Na segunda, recebeu 6,00 e na terceira ganhou 7,50 para vencer por 16,00 pontos. Em segundo ficou o capixaba Luis Fernando com 11,75, com o paranaense Kainan Meira em terceiro com 9,15 e o baiano Braian Ramos em quarto com 7,90 nas duas notas computadas.

“Estou muito feliz por conseguir o título numa categoria acima da minha, que eu nem esperava vencer”, disse o monstrinho de Buzios, Sunny Pires. “Eu fiquei muito decepcionado comigo mesmo por ter feito uma interferência na final Sub-12, que é a minha categoria, mas isso não me abalou e acabei ganhando a Sub-14”.

Sub-14 Feminina Na categoria Sub-14 feminina, que estreou esse ano na segunda etapa do Pena Little Monster em Itacaré (BA), as quatro únicas participantes disputaram a segunda final do domingo em Cabo Frio. A vencedora foi a cearense Lais Costa, derrotando três surfistas do Sul do país. A catarinense Rafaela Coelho ficou em segundo lugar, mas festejou o título do Circuito Pena Little Monster 2017, pois foi a única que também competiu na Bahia. A carioca Luana Paes terminou em terceiro e em quarto ficou Lanai Thompson, que tinha acabado de disputar a final masculina da Sub-08.

“Estou muito feliz por ter conseguido minha primeira vitória no Pena Little Monster”, disse Lais Costa, irmã mais jovem de dois surfistas de destaques do Ceará, Yanca Costa e Cauã Costa. “O mar estava um pouquinho ruim, mas deu para achar umas ondinhas pra surfar e estou muito feliz por ter vencido, nem sei o que falar direito”.

Final Sub-10 A final Sub-10 foi a terceira a rolar no domingo e o campeão do Pena Little Monster 2017, Guilherme Lemos, tentava sua segunda vitória na categoria. Ele até começou bem com nota 6,00, mas foi sua única onda surfada na bateria e ele ficou em último. O saquaremense Rickson Falcão foi o melhor, fez duas ondas boas que valeram 7,50 e 6,70 para deixar o baiano Matheus Neves em segundo lugar e o carioca Gabriel Mendes em terceiro.

“Estou amarradão por ser campeão do Pena Little Monster mais uma vez e no ano que vem vou tentar buscar mais títulos com muita fé, pois quero ganhar tudo”, disse Guilherme Lemos.

Final Sub-8 A final Sub-08 foi a primeira a entrar no mar, as 13h00 na Praia do Forte. O campeão do Pena Little Monster 2017, Victor Santos, de Natal (RN), já largou na frente com nota 6,0, que depois trocou por 7,50 e somou o 6,60 da última onda para manter sua invencibilidade na categoria esse ano. Ele já tinha sido o melhor nas etapas de Paracaru (CE) e Itacaré (BA) e agora derrotou três surfistas do Rio de Janeiro na casa deles. Pablo Gabriel ficou em segundo lugar, com a única menina entre os monstrinhos, Lanai Thompson, em terceiro e Raoni Sampaio em quarto.

“A bateria foi muito boa. Eu consegui pegar ondas para tirar boas notas e estou muito feliz”, disse Victor Santos, mais um talento surgido nas ondas da Praia de Ponta Negra, em Natal, que já revelou grandes nomes para o surfe brasileiro como Joca Junior, Aldemir Calunga, Danilo Costa, Marcelo Nunes, entre tantos outros. O pai dele, Marcelo Soares, estava na praia e também comentou sobre o título invicto do seu filho: “É uma alegria muito grande, ele tem muito talento e só temos que agradecer a Deus, então agora é só comemorar”.

A etapa final do Pena Little Monster 2017 foi realizada com apresentação da CT Wax, patrocínio da Pena Surf Wear e Prefeitura Municipal de Cabo Frio, apoio da Federação de Surf do Estado do Rio de Janeiro (FESERJ) e Cabo Frio Surf Clube. O evento foi promovido pela Top 16 Promoções e a categoria Pro Junior organizada pela Associação Brasileira de Surf Profissional (ABRASP).

 

Resultados

Pro Junior Sub-20

 

1 Airton Dilan (RJ)
2 Yuri Fernandes (RJ)
3 Israel Junior (RN)
4 Weslley Dantas (SP)

 

Campeão do Circuito Israel Junior (RN)

Por Junior Sub-20 Feminina

 

1 Kayane Reis (RJ)
2 Larissa dos Santos (CE)
3 Luara Thompson (RJ)
4 Karol Ribeiro (RJ)

Campeã do Circuito Kayane Reis (RJ)

 

Sub-16

 

1 Daniel Templar (RJ)
2 Valentin Neves (RJ)
3 Bernardo Bordowsky (RJ)
4 Davi Mendes (BA)

Campeão do Circuito Daniel Templar (RJ)

Sub-14

 

1 Sunny Pires (RJ)
2 Luis Fernando (ES)
3 Kainan Meira (PR)
4 Braian Ramos (BA)

 

Campeão do Circuito Cauã Costa (CE)

Sub-14 Feminina

 

1 Lais Costa (CE)
2 Rafaela Coelho (SC)
3 Luana Paes (RJ)
4 Lanai Thompson (RJ)

Campeã do Circuito Rafaela Coelho (SC)

Sub-12

 

1 Pedro Rian (CE)
2 Alisson Matheus (RN)
3 Sunny Pires (RJ)
4 Pedro Henrique (RJ)

 

Campeão do Circuito Pedro Rian (CE)

Sub-10

 

1 Rickson Falcão (RJ)
2 Matheus Neves (BA)
3 Gabriel Dantas (RJ)
4 Guilherme Lemos (CE)

 

Campeão do Circuito Guilherme Lemos (CE)

Final Sub-8

 

1 Victor Santos (RN)
2 Pablo Gabriel (RJ)
3 Lanai Thompson (RJ)
4 Raoni Sampaio (RJ)

 

Campeão do Circuito Victor Santos (RN)

Enquanto alguns fotógrafos documentam a história, Fedoca Lima fez diferente: viveu dentro dela enquanto fotografava. Carioca do Posto 5, começou a surfar com 11 anos e a fotografar quase ao mesmo tempo, com uma máquina fotográfica alemã do pai. Aos 14, registrou a Rainha Elizabeth passando de Rolls-Royce aberto pela orla de Copacabana, em frente à casa do Assis Chateaubriand. No mesmo período, fotografou o Mick Jagger dando o dedo do meio no Copacabana Palace. Não era fotógrafo profissional. Era um moleque com olho bom e câmera na mão, sem perceber ainda o tamanho do que estava construindo. O que veio depois é história do surfe brasileiro. O Píer de Ipanema nos anos 70, quando o Rio era o centro do surfe nacional, com Daniel Friedmann, Pepê Lopes, Rico de Souza e Ricardo Bocão dominando o circuito. A Brasil Surf, primeira revista especializada do país, na qual Fedoca jogou em todas as posições: fotógrafo, redator e capa. O Havaí entre 1978 e 1981, surfando e fotografando ao lado de Gerry Lopez, Shaun Tomson e Michael Ho em Pipeline e Waimea. Os shows históricos, de Bob Marley ao ar livre no Havaí até Rolling Stones e Paul McCartney no Maracanã. “A foto que eu não tirei, essa me persegue.” Fedoca Lima Mais de cinquenta anos depois, esse arquivo vira livro. “Surf, Clicks e Rock’n Roll” tem 220 páginas, cerca de 180 fotografias e percorre a transformação do surfe brasileiro desde a era analógica até o digital, passando por Arpoador, Saquarema, Havaí, Califórnia e Macumba. Com captação aprovada de R$ 203 mil via incentivo cultural e apio da Fu Wax, o lançamento está previsto para o segundo semestre de 2026. Conversamos com Fedoca sobre tudo isso. Antes de se consolidar como fotógrafo, você também virou personagem da própria história do surfe brasileiro ao sair na capa da Brasil Surf em 1975. Como foi viver aquele momento por dentro? Saí na capa da Brasil Surf. Na época eu trabalhei na revista de março de 75 até janeiro de 79, só não peguei o primeiro número. Jogava todas as posições: saí na capa, escrevia, tirava foto, ajudava na redação, dava palpite, fazia matéria. Por muito tempo achei que era o único fotógrafo de surfe que tinha saído numa capa. Depois o Bruno Alves me falou que o irmão dele, o Alberto, saiu na capa da Fluir número 1. A história dele bate um pouco com a minha: ele pegava onda, saiu na capa, era fotógrafo. Mas durante anos eu achei que era caso único. Até hoje tem um restaurante aqui que o cara pediu, eu tirei uma foto com a revista na mão, ele botou na parede, eu assinei. A influência continua. A Brasil Surf ajudou a mudar a imagem do surfista no Brasil. Como era ser surfista naquela época, antes dessa mudança de percepção acontecer? O surfe saía no caderno B do Jornal do Brasil, do Globo. Não saía no esporte. E o surfista era tido como vagabundo de praia. Maconheiro. Isso, aliás, até hoje tem um pouco, mas na época tinha muito mais. A Brasil Surf não vou dizer que limpou essa imagem completamente, mas ajudou a transformar o surfe em esporte e também a fomentar o mercado de surfwear. Os irmãos Wady e Fuad Mansur, da loja Mansur, em Ipanema, foram dos primeiros anunciantes. Acreditaram na revista, fizeram anúncios de contracapa e página inteira, e as camisetas personalizadas vendidas pelo correio viraram um sucesso. A Brasil Surf acabou impulsionando fabricantes de pranchas, calções, parafinas e diversos outros anunciantes ligados ao surfe. Os fabricantes de prancha tinham um veículo para anunciar. Os fotógrafos ganhavam uma graninha, viajavam. Fui para a América Central, Porto Rico, Barbados, El Salvador, Fernando de Noronha, Peru, várias viagens bancadas pela Brasil Surf de uma forma ou de outra. O Nilton Barbosa foi ao Havaí duas vezes bancado pela revista. No caso dele, eles bancavam os filmes, ele vendia as fotos e a viagem se pagava. Tinha uma diferença entre mim e o Nilton nessa época: ele chegava na praia e ficava na areia fotografando, fotografando, fotografando. Eu chegava e ia para dentro da água. Se não estava o Daniel, não estava o Pepê, não estava o Cauli, não estava o Bocão, não estavam os caras top, eu entrava e surfava. Então tem foto minha na Brasil Surf publicada pelo Nilton Barbosa, pelo Rogério Ehrlich. Eu estava mais dentro da água do que fora. Eu estudava. Primeiro vestibular, depois faculdade. Boa parte dos meus amigos só queria saber de surfar. Eu dividia meu tempo. Chegava na praia, já tinha estudado de manhã, aí ficava naquele dilema: vou pegar onda ou vou fotografar? Por isso tem poucas fotos do Píer. Em três anos não tirei nem metade do que tiro hoje num dia bom na Macumba com o digital. Você viveu o Píer, a Brasil Surf, o Havaí dos anos 70, o nascimento do surfe brasileiro moderno. Em que momento percebeu que estava no meio de uma transformação cultural que iria muito além do esporte? O Píer foi o que fomentou o surfe no Rio de Janeiro. Por dez anos, foi domínio completo do Rio no cenário brasileiro. O Daniel Friedmann, em 77, foi o último carioca a vencer uma etapa do circuito internacional, ganhou no Quebra-Mar, em cima do Pepê Lopes, que tinha ganho em 76. Os dois de Ipanema, meus vizinhos de rua. E esse pessoal do Píer que dominou, o Daniel, o Pepê Lopes, o Cauli Rodrigues, e também o Otávio Pacheco, o Rico de Souza, o Ricardo Bocão. E tinha o Betão, que era o melhor surfista do Brasil na época mas não era competitivo, não corria atrás de patrocinador, acabou saindo cedo. Em 75 ele ganhou o Campeonato de Saquarema e foi saindo, saindo. O Píer influenciou a revista, influenciou os fabricantes de prancha, influenciou o modo de viver. Começaram a ter fábricas em Guaratiba, Vargem Grande, no Recreio, depois em Saquarema. As pessoas foram morar lá. O Penho foi, o Otávio comprou

O que define uma boa onda? Tamanho, força, parede, qualidade da linha, formação e surfabilidade, dentre outros elementos. No oceano, todos esses fatores mudam a cada swell, a cada vento, a cada maré. Em Búzios, a proposta é diferente: construir essas variáveis de forma controlada, repetível e ajustável. A piscina do Brasil Surfe Clube Aretê Búzios opera com a tecnologia Endless Surf, do grupo canadense WhiteWater, com 48 câmaras de ar de alta precisão. O sistema permite criar configurações distintas dentro da mesma estrutura. Dentro de um universo de grandes possibilidades, as cinco primeiras ondas já foram nomeadas e reveladas, cada uma com perfil próprio, e muito mais ainda está por vir. Onda #01: Pointbreak + Junção Linha longa, seções conectadas, tempo de onda que pode ultrapassar 25 segundos. A junção encadeia diferentes partes da onda sem perder velocidade, criando uma das experiências mais difíceis de encontrar no oceano com consistência. Para quem quer mais de 10 manobras na mesma onda ou simplesmente mais tempo de linha para ler e decidir. Onda #02: Manobras + Bowl A parede fica mais íngreme. O bowl abre seções críticas para manobras verticais e aéreos. É o ambiente para quem quer empurrar os limites do que consegue fazer sobre a prancha, com repetição suficiente para transformar cada tentativa em aprendizado real. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Onda #03: Rampa + Tubo Uma onda que combina duas experiências na mesma seção. A rampa prepara o surfista para a manobra e o tubo roda na sequência. Para quem quer encaixar um aéreo e ainda sair do tubo na mesma onda, essa configuração entrega os dois elementos sem precisar escolher. Onda #04: Rampa Nível Intermediário Parede consistente, menor intensidade, mais previsível. A configuração certa para quem está desenvolvendo manobras progressivas e precisa de repetição para consolidar o que está aprendendo. A seção cria a rampa no ângulo certo, com velocidade suficiente para executar sem exigir o nível avançado. Onda #05: Rampa Nível Avançado Mais potência, mais velocidade, mais projeção. A rampa avançada é para quem já chegou em Búzios com manobras no repertório e quer testá-las com pressão real. Com capacidade para gerar até 700 ondas por hora, o intervalo entre uma tentativa e outra é curto o suficiente para transformar cada sessão em treino de alto rendimento. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Para todos os níveis As cinco configurações cobrem desde quem está aprendendo até quem treina em alto rendimento. A piscina ainda opera em dois modos: single peak, com ondas quebrando para um lado e maior extensão de linha, e split peak, com direitas e esquerdas simultâneas, permitindo que surfistas compartilhem a mesma série em direções opostas. Yago Dora, campeão mundial de surfe em 2025, Victor Bernardo, um dos maiores freesurfers da atualidade, e Michelle des Bouillons, referência mundial em ondas gigantes, integram o time do BSC e já testaram a tecnologia na piscina Adrena Red Sea, na Arábia Saudita. “Muito animal esse lance de ter essa variedade de onda também. Um leque de ondas absurdo. Mal posso esperar para Búzios”, disse Victor Bernardo após a sessão. A versão de Búzios será maior: 48 câmaras contra 36 da estrutura do Mar Vermelho, com 13 mil metros quadrados de lâmina d’água. Variedade de ondas para testar, arriscar, aprender e evoluir todos os dias. Com inauguração prevista para o segundo semestre de 2026, é o que o Brasil Surfe Clube Aretê Búzios chega para entregar.

Pedro Bettencourt Müller nasceu no Rio de Janeiro, no dia 21 de julho de 1966, num ambiente familiar que respirava praia. Seu pai, Guilherme Xavier de Brito Müller, economista e morador do Leblon, cresceu frequentando a Zona Sul. Sua mãe, Maria Isabel Bettencourt Müller, criada em Santa Teresa, compartilhava da mesma paixão pelas praias. Para o casal, fim de semana e férias tinham destino certo: areia, sol e mar. Foi assim que Pedro e o irmão, Guilherme, passaram a infância seguindo os pais para o meio da Barra ou para São Conrado, ainda de estradas de terra, sem prédios, calçadões ou qualquer urbanização. Nesse cenário quase intocado, Pedro foi se encantando pelas ondas. Lembra-se de observar alguns surfistas solitários no meio da Barra e sentir-se hipnotizado pela habilidade deles. O mar, desde cedo, era o lugar onde queria estar. Ele recorda também a rotina da infância: ia para as aulas de natação no Clube de Regatas Flamengo e, depois, caminhava até o judô, no Leblon, um trajeto longo para uma criança de 12 anos. Antes de entrar no tatame, sentava-se no calçadão para olhar o mar quebrando, entregue à mesma fascinação que o acompanharia por toda a vida. O mar lhe transmitia paz, calma e propósito. Ali, ainda menino, já entendia que queria se tornar surfista. A mudança para São Conrado, por volta dos 14 ou 15 anos, foi decisiva. Morando ao lado do Pepino, Müller muitas vezes cabulava a aula pra ir surfar. As ondas triangulares, rápidas e pesadas da região se transformaram no seu campo de treinamento permanente. Ali, guiado pela referência de Rony Lima e pela evolução proporcionada pelas pranchas dos shapers Rico e Pedro Battaglin, deu um salto técnico marcante. A “biquilha mágica” 5’4″ de Battaglin é lembrada até hoje como uma das grandes viradas em seu surfe, época em que adotou o apelido de “o Águia”, pela tatuagem no braço. Uma nova mudança, motivada pelo desemprego do pai, levou a família para a Barra. Para Müller, foi a oportunidade perfeita: entre o Postinho, o meio da Barra e o Quebra-Mar, encontrou três ondas consistentes e acessíveis a pé, permitindo treinos diários que aceleraram ainda mais sua evolução. Nessa fase, destacou-se nos campeonatos da ASBT – Associação de Surf da Barra da Tijuca – e entrou para a promissora equipe da Cristal Graffiti. Antes disso, havia vencido seu primeiro campeonato no Leblon, organizado por Marcelo Peninha, vitória que marcou sua confiança rumo ao profissionalismo. Os resultados na categoria Júnior renderam um prêmio decisivo: uma passagem para o Havaí. Aos 18 anos, Müller viveu sua primeira temporada no North Shore (1984/85), dividindo casa com surfistas brasileiros experientes. Pipeline, logo no primeiro dia, foi seu batismo de fogo: mar pesado, adrenalina no limite e a certeza de que o treino no Pepino o havia preparado para aquele cenário. De volta ao Brasil, enfrentou dificuldades para manter regularidade como profissional. A grande virada veio com o curso de meditação transcendental feito ao lado de Rodolfo Lima. O impacto competitivo foi imediato: venceu a etapa profissional do Quebra-Mar no circuito carioca, em 1986, e passou a frequentar pódios de forma consistente. A regularidade, marca registrada de sua carreira, nasceu ali. Em 1987, tornou-se vice-campeão do primeiro Circuito Brasileiro de Surf Profissional. Liderou boa parte da temporada, foi vice-campeão na etapa da Lightning Bolt e, depois, campeão no Fico Festival. Só perdeu o título na penúltima bateria do Circuito, por apenas 20 pontos, uma diferença mínima para quem tinha 850 pontos de vantagem sobre o terceiro colocado. Na época, era visto como o surfista mais consciente e estratégico do país. Nos anos seguintes, acumulou resultados expressivos: vitórias importantes na Abrasp e uma vitória significativa no QS de Florianópolis, superando Barton Lynch, Jojó e Julio Adler. Em 1995, viria um dos grandes destaques internacionais de sua carreira: o nono lugar em Pipeline, substituindo de última hora o australiano Damien Hardman. Ondas entre 10 e 15 pés confirmaram sua capacidade técnica em um dos palcos mais desafiadores do mundo. Pedro Müller seguiria competindo por mais de duas décadas. Em Ubatuba, já aos 38 anos, conquistou sua última vitória no Circuito Super Surf 2004, num dos triunfos mais marcantes de sua trajetória. Hoje, vive do surfe como treinador, comentarista da Sportv e um dos proprietários da @escola_pedromuller, na Barra da Tijuca, administrada pelo sócio Adelmo Noite. Acompanhe ns publicações nas redes sociais @museudosurfesantos. Coordenador de pesquisas históricas do surfe @diniziozzi, o Pardhal.

Como uma prancha largamente usada por surfistas fora do circuito mundial profissional pode ganhar atenção? Coloque a dita cuja nos pés de um bicampeão mundial. Quer um destaque ainda maior? Filipe Toledo vence o tricampeão Gabriel Medina. Pronto. Vamos por partes. Na etapa do Championship Tour, na Nova Zelândia (Maio 2023), Filipe acabou não vencendo a disputa da quarta de final contra Griffin Colapinto, mesmo obtendo a melhor nota da bateria. Faltou uma onda. Mas o assunto aqui é outro, ou quase. Em um universo dominado por triquilhas, desde 1981, a diversidade de pranchas, no século 21, começou a ganhar espaço fora das competições. No meio de antigas novidades, biquilhas com trailer fin (estabilizador central) se mostraram mais controláveis e amistosas, levando muita gente a adotá-las no quiver. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Filipe Toledo (@filipetoledo) O modelo de biquilha com estabilizador central já havia sido testado mas ganhou vida nova em 2003, com as Super Twins do shaper, tetracampeão mundial (79, 80, 81 e 82), Mark Richards. Ele trouxe de volta suas Twin Fins do início dos anos 80, adicionando uma “quilhinha” central. Daí, de repente, Filipe Toledo coloca no jogo do circuito mundial o modelo Modern 2, da Sharp Eye Surfboards. Vence Gabriel Medina nas esquerdas de Raglan e deixa muito mais gente antenada sobre as possibilidades de uma twin com trailer fin. Filipe não foi o primeiro a fazer algo que eu esperava há tempos. Kelly Slater inovou, diminuindo o tamanho das pranchas e competindo, em algumas situações, com o que eram mais bi do que triquilhas, na primeira década do século 21. Dane Reynolds também fez isso, mas vamos combinar que esses dois não são parâmetros de surf normal. Deivid Silva também ousou. Abiquilhou-se numa etapa. Mandou bem, mas não chamou tanta atenção. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Sharp Eye Surfboards (@sharpeyesurfboards_au) Quando se trata de altíssima performance pesa sempre o fato dos atletas da elite não terem muito tempo para experiências fora da casinha das triquilhas. Mas, pela primeira vez, Filipe, além de seu ano sabático, em 2024, teve, como todos os Tops, os mesmos raros sete meses de folga antes da temporada 2026. Isso parece ter criado espaço para lidar com pranchas diferentes, memória física e jogo mental para se arriscar com um equipamento não muito convencional na Nova Zelândia. Sim, pranchas realmente diferentes pedem ajustes na maneira de usá-las e isso requer tempo e, claro, talento. Duas coisas chamaram a minha atenção. Impressionante como podemos e devemos comparar os melhores do surf competitivo profissional com pilotos da Fórmula 1. É com eles que a indústria das pranchas evolui mais e melhor. Detalhes sutis, milimétricos, que essa turma sente no funcionamento de uma prancha podem ser incorporados aos modelos que a maioria dos surfistas não conseguiria detectar ou explicar. Eles dão o caminho do que será usado pelos consumidores “normais”. Shapers são mais teoria, estudo. Tops são prática. As mudanças surgem daí. Segunda, e mais curiosa. Um esporte que durante tanto tempo teve uma aura de vanguarda e ousadia leva muito tempo para propor ou acertar mudanças mais drásticas, seja na construção ou desenvolvimento de design. Não creio que seja culpa dos fabricantes, já que essa indústria nunca gerou dinheiro suficiente para que se desenvolvesse como deveria. Ainda por cima a competição tem um formato onde há pouco espaço para o diferente quanto à performance. Mas isso é conversa para outro texto. Por agora fica a dica. Mesmo ideias estranhas à normalidade podem resultar em bons resultados. Teste tudo que é prancha que você puder. Não tenha medo, você não depende de notas dos juízes para ser feliz.