
Comecei a surfar há pouco mais de três anos. Sou de Buenos Aires, Argentina, sempre morei na cidade e nunca imaginei que minha vida iria mudar tão radicalmente aos 21 anos.
Estava de férias com uma amiga e seu filho em Búzios (RJ) e conheci um surfista. Um dia ele me emprestou a prancha. Lembro que não consegui nem remar, caía só de tentar sentar. Fiquei muito cansada, com todos os músculos doloridos.
Tentava pegar alguma onda, mas achava muito difícil. Não sei o que aconteceu naquele dia, mas minha vida havia mudado 110 por cento. Me apaixonei de cara pelo mar.

A partir de então não conseguia mais pensar em outra coisa, só queria surfar o dia inteiro, minha vida inteira! Me sentia feliz no mar, ainda que não pegasse nenhuma onda!
Pretendia ficar uma semana no Brasil naquelas férias, e acabei ficando três meses. Comprei uma prancha usada e comecei a viajar rumo ao Norte, até chegar em Fernando de Noronha.
Logo que voltei para a Argentina, para concluir a faculdade de cinema, a saudade do mar já era grande. Sofria de verdade! No desespero eu assisti todos os vídeos de surf que encontrei, além de ler as poucas revistas disponíveis em meu país.
Cada vez que tinha a chance de ir a Mar del Plata, além de enfrentar quatro horas de viagem, encarava as ondas geladas de inverno. Quase sempre ruins. Mas eu não me importava pela qualidade das ondas, só queria remar, sentir o cheiro e curtir o mar.
O inverno lá é tão frio, que mesmo com uma roupa de neoprene de quatro milímetros, luvas, botinhas e capuz, ninguém aguenta ficar na água mais de meia hora ou quarenta minutos. Conheci uma galera de Mar del Plata que me ajudou muito. Aprendi a olhar as ondas, como entrar e sair da água, que pranchas usar, enfim, tudo que eu precisava saber sobre o assunto.
Minha fome crescia a medida que começava a surfar as ondas. Já não gostava quase de nada na cidade, não queria nem terminar a faculdade. Só queria fazer o que me fazia mais feliz nesta vida: surfar.
Comecei a viajar pra o Sul do Brasil freqüentemente, conheci muitos brasileiros, e até hoje tenho uma espécie de segunda família no Rio. O surf passou a ser cada vez mais divertido, já pegava minhas ondas e queria cada vez mais, mares melhores, maiores e mais perfeitos.
Terminei a faculdade e fui para a Costa Rica, onde fiquei cinco meses surfando e trabalhando. Minha família não entendia meu desejo de surfar, eles não entendiam que eu preferia dormir em um quarto de um metro quadrado e ter trabalhos ruins, em vez de viver confortavelmente em Buenos Aires e trabalhar em alguma boa produtora de publicidade.
Eles não entediam porque não sabiam? Diziam que eu fugia de tudo, não sabiam o que é ter fome de ondas. Acho que com o tempo entenderam, e se acostumaram com a idéia de vivermos distantes, pois minha felicidade está no mar.
Agora minha mãe vem me visitar quando quer passar um tempo comigo. Ela já é uma surfista de alma, porque terminou adorando tudo o que envolve o surf. Voltei da Costa Rica com muita saudades de casa e com hepatite. Fiquei fraca e meu astral baixava mais e mais.
Depois de quatro meses me cansei de tudo e peguei um avião pra Austrália. Queria tentar uma vida de surf e trabalho com uma qualidade de vida melhor. Não sei bem por quê, mas não me dei muito bem lá. Foi difícil trabalhar em construção, muito pesado, e morava em um lugar horrível.
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De lá fui pra Bali, na Indonésia, e descobri um paraíso de ondas perfeitas com água quente, sem falar das pessoas alucinantes que conheci. Fiquei uns dois meses, e me dei conta que eu queria isso da minha vida? Só onda perfeita e água quente!
Lá conheci também uns uruguaios que insistiram que eu fosse ao Hawaii. Eu pensava que eles estavam loucos, já que eu estava aprendendo a pegar onda (ainda estou) e achava que ia me matar no primeiro dia.
Imaginava que sempre teria ondas gigantes e eu nunca ia conseguir nem entrar. Não tinha nenhum contato para começar a me acomodar, não tinha grana nem visto, parecia uma parada impossível.

Quanto mais eles me contavam sobre o Hawaii, mais eu começava a me imaginar naquele lugar. Voltei para a Austrália para juntar dinheiro e tentar tirar o visto. Depois de dois meses consegui o que achava impossível.
Cheguei no North Shore com apenas US$ 284 e sem conhecer ninguém. Fiquei no Backapakers lotado, pois era época do Eddie Aikau, com ondas gigantes mesmo.
Acho que fiquei alucinada ao ver aquele espetáculo da natureza. Tinha vontade de chorar apenas ao olhar para trás e lembrar quando ia a Mar del Plata sem ao menos saber surfar, e a volta que dei pra terminar na meca mundial do surf.
Nunca imaginei que ia terminar morando em um paraíso no meio de Oceano Pacífico! Eu só queria surfar! E Deus me foi abrindo o caminho, por meio de sinais, pessoas, histórias e desejos. Considero minha vida um presente, e o surf só faz com que tudo seja mais brilhante.
Graças a Deus consegui surfar no Hawaii. Quando cheguei, o mar estava grande, mas assim que foi diminuindo comecei a aproveitar o North Shore. Peguei as ondas da minha vida, um dia após o outro. Encontrei minha Disneylândia! São tantos picos diferentes que parece mentira.
Hoje para mim o surf é tudo. Não é só ficar em pé na prancha e tentar uma manobra? Isso é só a “cobertura do bolo”. Surf para mim é acordar cedo! É ir de bicicleta pelo caminho de Ke Waena vendo as folhas das árvores, é ver o pôr-do-sol que me deixa sem palavras. Surfe é trabalhar duro para me sustentar no paraíso, é agradecer a Deus cada vez que saio com vida do mar.
Surf é nadar perto dos golfinhos e tartarugas, é passar parafina pela primeira vez em uma prancha nova e sonhar com o que ela vai trazer. O surf é conhecer pessoas do mundo inteiro e compartilhar uma paixão em comum. É me sentir parte de todos os lugares onde passei e deixar alguma impressão positiva nas pessoas, assim como levar o que aprendi com todos que cruzaram meu caminho.
Hoje o surf é minha filosofia de vida, é o caminho que me leva a Deus e me joga para dentro de mim. É minha meditação. Para mim surfar é aprender a ver o mundo com um olhar deferente. É ser criança todos os dias no mar, é aprender a ser paciente quando a série demora, é respeitar o tempo da natureza e me misturar à ela.
Desde Buenos Aires ao Brasil, de Mar del Plata à Costa Rica, da Austrália para a Indonésia, e finalmente ao Hawaii, todos os caminhos me levaram ao mar. Foi um instinto que puxava dentro de mim e uma fome de vida que não conseguia negar, tive que sair da cidade cinza para me jogar no azul do mar.
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