O niteroiense Rodrigo Mendes, 44, é fissurado por tubos e não perde uma oportunidade de viajar atrás de ondas perfeitas ao redor do planeta.
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Filho do músico Sérgio Mendes, Rodrigo morou durante muitos anos no Estados Unidos e chegou a participar de algumas competições em meados da década de 80.
Durante trip pela Indonésia, o niteroiense foi entrevistado por Bruno Lemos, correspondente do Waves.
Fale um pouco sobre você.
Tenho orgulho de falar que sou filho do músico Sérgio Mendes. Morei metade da minha vida no Brasil e a outra metade nos Estados Unidos, mas cresci no Rio de Janeiro.
Morei no bairro da Lagoa Rodrigo de Freitas, estudei da 1a série até o 3o ano colegial no São Vicente de Paulo, em Laranjeiras, depois estudei dois anos no Pierce College, em Los Angeles, durante dois anos. Competi na equipe de surf do Pierce College e fui o número 1 da equipe nos trials para o time da faculdade. Depois disso, abandonei os estudos e voltei ao Brasil para tentar ser surfista e estudar à noite de 1984 a 1985.
Não arrumei muita coisa no surf de competição. O máximo que consegui foi um sexto lugar no Brasileiro Amador. De lá pra cá, um campeonato no Arpoador. Depois, em Floripa, no OP Pro / Am, em 86, fiquei em nono lugar no Amador e passei três baterias no Profissional.
Em abril de 1986, meu pai me convidou para trabalhar pela Austrália e Ásia. Depois tirei três meses de férias e fiquei um mês na Austrália e dois meses em Bali e G-Land surfando. Foi aí que começou a minha tara para viajar e surfar. Voltei para Los Angeles, entrei na faculdade por três meses e me transferi para UC Berkeley, onde fiz três anos em Business Administration.
Essa foi a melhor oportunidade para mim. Aprendi a fazer grana e surfei muito pelo Norte da Califórnia. Depois passei quatro anos em New York trabalhando para o Safra, fui transferido depois para Beverly Hills, onde estou hoje há 14 anos. Sou um consultor financeiro. Trabalho para o UBS e tenho clientes pela América Latina (México, Brasil, Argentina, Chile, Uruguai e Peru) e nos EUA.
Você herdou algum dom musical do seu pai? Você toca algum instrumento ou tem uma voz boa para cantar?
A única coisa musical que sei é dançar hip hop. O resto, cantar, tocar ou escrever música não manjo nada, zero.
E o surf? De onde surgiu?
Cresci nas praias de Ipanema, Garcia D?Avila, perto do Country clube. Aos 14 anos, pedi uma prancha de surf para o meu pai que morava nos EUA. Na época, ele me trouxe uma prancha de Natal, uma Hollow Wave alucinante. Era uma stinger, monoquilha. Quem usava estas pranchas na época era o Mike Purpus. Depois disso me interessei mais pelo skate e só voltei a levar a sério o surf quando completei 16 anos. Aí, fiz uma Miçairi stinger de canaletas, um foguete para aquela época. Aí, o vício ficou mais sério…
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É verdade que você tem um barco no Timor? Você poderia falar por que resolveu se envolver nisso e também um pouco das ondas e do que rola nesse lugar?
Eu sempre fui viciado no surf. Fiz a minha primeira viagem para a Austrália, em 1985 – Bells Beach, Sydney Beaches, Gold Coast, e depois passei 15 dias em Bali. Foi aí que decidi estudar para poder trabalhar e ganhar bem. Assim, teria condições de conhecer mais picos com ondas; queria surfar e conhecer cada passo deste globo trabalhando e surfando.
Apaixonei-me pela Indonésia e o meu sonho é morar lá um dia. No fim dos anos 90, ganhei um dinheiro no mercado. Queria largar o trabalho e viver do que eu amo, o surf. Com a grana comprei uma casa em Los Angeles, um terreno em Bali e investi em dois barcos na Mentawaii com Paul King e um barco no Timor com Waterways.
O que deu certo até agora foi a minha casa em Los Angeles e o meu terreno em Bali, mas perdi dinheiro nos dois barcos do Mentawaii. Porém, consegui surfar altas ondas nas quatro vezes em que fui lá. No Timor, não perdi nem ganhei. Mas o surf lá também é incrível, altas ondas, direitas, esquerdas, inúmeras ilhas. Fica num lugar mais ao extremo Sul da Indonésia, na Ilha de Roti.
Você também está fazendo novos investimentos em Bali, certo?
Acabei de comprar mais um terreno com três sócios no cliff de Uluwatu. Pretendo fazer umas vilas para vender ou alugar. Acho que Bali já virou opção de vida para muito ex-patriota. A vida é barata, tem altas ondas o ano inteiro e o ponto de partida para inúmeras outras viagens – Austrália, Ásia, outras ilhas da Indonésia. Hoje em dia, encontra-se de tudo em Bali. Escola internacional de primeira qualidade com ligações para futuras faculdades na Austrália, Singapura etc.
Tem gente do mundo inteiro morando em Bali. O crowd é como qualquer em outro ponto de surf com altas ondas. Assim como no Hawaii, França, Califórnia, Austrália, hoje em dia o crowd é algo mais do que normal nesses lugares. Em minha opinião, o bukit é a área que vai mais crescer em Bali. Quem investir bem lá vai ganhar dinheiro nos próximos anos.
A península de bukit está crescendo muito rápido; muitos resorts, hotel, turismo, o crowd de surfista absurdo na água. Como você analisa essa situação? Em sua opinião, o que podemos esperar que aconteça no futuro nessa região?
Bali hoje é uma opção de vida. Não tem violência. Acho que por ter pena de morte para quem for pego com armas ou com drogas ajuda, pois quase não tem roubos. Fora isso, o nosso dinheiro vai longe. Sem dúvidas, o bukit é a área que mais vai crescer em Bali; várias construções de móveis, restaurantes, boutiques etc.
De Dream Land até Uluwatu não tem mais propriedades no cliff de frente ao mar. O Bulgari construiu o seu resort no Bukit. Temos várias casas de milhões de dólares sendo feitas em Uluwatu. Claro que tudo isso contribui para o crowd, mas tem onda para todo mundo. Hoje ainda estão descobrindo novos picos em Bali, ondas como Keramas não eram conhecidas antigamente e ainda existem muitos outros picos desconhecidos e a serem descobertos por lá. O problema com Uluwatu é quando o mar está pequeno. Uluwatu é o maior lugar. Por isto todos vão para lá. Quando o mar sobe em Bali, o crowd se espalha.
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Mesmo assim, você acha que ainda dá pra pegar boas ondas em Bali ou tem que sair da ilha para surfar ondas de qualidade?
Em Bali você tem de ter sempre uma estratégia. O meu plano é sempre o seguinte: quando tenho tempo, tento passar uma semana em G-land, se não, o que eu mais gosto é Padang Padang, 2 a 2,5 metros, Uluwatu no ?Middle Peak”, quando está entre 1 e 2,5 metros e no Outside Corner de 2 a 4 metros.
Quando está menor, o “Race Track”, na maré certa, é show, com 1 a 1,5 metros em Bali. Tudo depende da maré e do vento. Eu considero a bancada de coral de Uluwatu uma das melhores do mundo, pois mal ou bem segura qualquer tamanho.
Por exemplo, quando G-Land fica acima de 3 metros, fica cabuloso. Padang acima de 2,5 metros fecha e em Desert (a melhor esquerda do mundo) acima de 2 metros começa a fechar um pouco também.
Por isto adoro ficar rodeando Uluwatu. Em Bali dá pra ficar monitorando outras áreas e dar os tiros certos, pois Bali está perto de Mentawaii, One Palm Point, Sumbawa, Roti e inúmeras outras ilhas. Surf não falta na Indonésia.
Quais os outros picos em que já surfou?
Já consegui surfar em muitos lugares, quase todo o litoral brasileiro, de Serrambi a Floripa; Peru, Chile de Norte e Sul, Califórnia (Humboldt Coounty até San Diego) – na época em que morei em Berkeley. Surfei muito Santa Cruz e ao Norte de San Francisco (secret breaks). Altas ondas, roupa de borracha e tubarão branco. Já estive no México, Barra, Cabo de San Lucas até Puerto Escondido. Gosto muito do México, consegui ir a Samoa (fui três vezes, altas ondas), Tavarua (três vezes e quero voltar; um dos lugares preferidos).
Fora isso, na Europa – França, Portugal, Ilha da Madeira. Até em New York, New Jersey, Cape Hatteras… Já surfei na Austrália, Flórida, Caribe, Porto Rico (três vezes), Hawaii e várias vezes aqui na Califórnia. Adoro o inverno. Quando Mavericks quebra, toda a costa californiana se acende.
Aí, eu vou para o Norte. Dependendo do tamanho o meu pico predileto é o beach break em Ventura que se chama Silver Strand (pico dos irmãos Curren e Malloy); é um dos melhores beach breaks do mundo, sempre grande. De meio a 3 metros, é um tremendo tubo para a direita e esquerda, um mini Puerto Escondido. Gosto também do Norte de Santa Bárbara, onde tem uma região chamada ?The Ranch”. É um corredor com cerca de 20 quilômetros de propriedade particular. Tem mais de 20 ondas para todas as direções. Fui três vezes de barco, incrível! Mas a Indonésia é o meu lugar. Vou morar lá um dia!
Agora, pra finalizar, aquela velha e manjada, mas que funciona bem. O que você poderia falar às pessoas que estão lendo esta entrevista?
O que eu tenho a dizer aos leitores é que o surf é uma das maravilhas do mundo. Surfar é “priceless” (sem preço). Reconheci isso quando era jovem, mas sabia que o surf não ia me propor nada financeiramente. Em troca, a solução foi persistir nos estudos e deixar o surf em segundo plano (mas sempre uma obsessão). Os estudos proporcionaram oportunidades de viagem e dinheiro. Formei-me em Berkeley, aprendi a surfar onda grande, e depois fui morar em New York durante quatro anos. Isto não parou meu surf. Aprendi a surfar na neve. Viajei sempre quando podia no inverno para Porto Rico e fui até a Ilha da Madeira duas vezes atrás de swell.
Continuando com a minha carreira financeira, voltei para a Califórnia. Acordo todo dia para trabalhar às 5 da manhã e volto às 6 da noite. Quando dá um bom swell na Califa, aí chego atrasado ao trabalho. Foi através do trabalho que juntei grana e comprei o terreno de sonho em Bali e em breve estarei passando 15 anos da minha vida fazendo a coisa que mais gosto, surfar!!
Viajar foi a melhor educação que eu tive. Você aprende sobre as pessoas e seus costumes. Estudar e viajar levam as pessoas aonde elas querem que o destino as leve. Você é quem escolhe o seu destino. Gosto muito dessa frase do Gerry Lopez: “Não é a quantidade de ondas, mas a qualidade das ondas?.
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