Surf abroad

Byron Bay é a parada

The Wreck, umadas dezenas de ondas em Byron Bay. Foto: Flavio Biehl.

O clima hippie ainda predomina na cidade. Foto: Flavio Biehl.

Há lugares que esquecemos e outros que ficam na memória. Surf, altas ondas, visuais de tirar o fôlego, atmosfera zen, gente feliz de cabeça aberta.

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Quem passa uma temporada em Byron Bay não reclama, não esquece. Os surfistas dos anos 60, os hippies da década de 70 e abertura da sociedade local para estrangeiros “mais alternativos” carimbaram a atmosfera psicodélica que predomina até hoje.

Um estilo de vida sossegado no qual a maioria da galera trafega com suas bicicletas e kombes vintage nas ruas sem semáforos, e não se vê ninguém vestindo terno e gravata no stress de trabalho.

Sentam na grama limpíssima ou na areia em suas cangas super coloridas e fazem piqueniques no final de tarde ao som dos berrantes “rainbow birds” e de violões das turmas vizinhas. Saboreiam suas comidinhas orgânicas ou o kebab comprado na esquina e tomam a cerveja ou o vinho escondidos em papel kraft – na Austrália é proibido beber na rua – enquanto a policia finge que não vê.

E assim curtem o surf old-school dos tiozões de longboard em The Pass ou em The Wreck com a nova geração mais atirada. Isso é só um pouquinho de Byron. Não foi a toa que a lenda Bob Mctavish escolheu a região pra viver e instalar sua fábrica de pranchas.

We are from Brasil Para o brasileiro que está ganhando um bocadinho a mais de dinheiro nessas épocas de crescimento econômico e tem vontade de surfar, de aprender inglês e trabalhar em terras desconhecidas, Byron  pode ser uma alternativa, bem alternativa… Morar ali, estudar e participar do cotidiano como cidadão temporário é uma experiência interessante.

Vários mundos em um lugar tão pequeno. Estudantes e jovens mochileiros de todas as partes trocam culturas e fazem a festa. Centenas de turistas compram artigos dos velhos hippies, o vai e vem “levitante” da trupe da yoga nos parques e nas calçadas.

Surfistas carregam suas pranchas nas bicicletas e skates retrô por todos os lados. Aliás, é muito fácil comprar uma bike usada decente por US$ 40 ou US$ 50.

E a mania de ir ao supermercado no final de tarde e ver um universo de coisas acontecerem até o pagamento nos caixas automáticos que falam com você, sem auxilio de atendente. Está aí uma coisa louca pra quem é brasileiro: você passa as suas compras sozinho, põe a mercadoria nas ecobags no geral – a consciência ambiental impera no lugar- paga e vai embora.

Não dá pra ser desonesto nem dar o jeitinho brasileiro de economizar com tanta confiança depositada. A próxima parada do dia é na liquor store pegar algumas cervejas, Stone Wood e Little Criatures são boa pedida, depois curtir o céu estrelado.

Um susto de vez em quando com a passagem dos morcegos gigantes – um batman na real –  e terminar a noite tranquilos para o surf do dia seguinte da aula.

Pra quem não quer “a zero horinha  e prefere curtir a balada,  às quintas-feiras do Cheeky Monkey’s -Restaurant & Party Bar é o lugar pra dançar, paquerar e ver a tal competição de peitinhos das gringas da Camiseta Molhada. Depois da votação comandada pela galera, a vencedora leva pra casa US$ 300. Tudo pela diversão.

Acima de tudo, para aproveitar o investimento de quem decidir ter essa experiência aonde até os tubarões são zen, e ganhar uma bagagem cultural de verdade, há que respeitar as severas regras australianas e das escolas, consequentemente. O visto de estudante é perdido rapidinho e volta deportado pro Brasil quem não atende o  número de presença exigido que no geral é 80%.

Aos surfistas “turma do fundão”, vale ressaltar a dedicação  aos estudos porque até é legal na busca de um  emprego melhor pra fazer um pé-de-meia, já que ali se paga muito bem mesmo. Aí sim: surfar todas as ondas e curtir sem peso na consciência.

O paulistano Paulo Guima que hoje trabalha em um grande agência de viagens especializada em Austrália e Nova Zelândia, diz que achou a  cidade perfeita para aprender inglês já que tudo acontece ao ar livre e o  contato com pessoas locais, turistas e estudantes é inevitável. Dentro da água, na areia, nos pubs da cidade. As escolas de inglês promovem partidas de beach vôlei, Rúgbi, aulas de surf e kitesurf, passeios de caiaque, mergulho, trilhas nos parques, fatos que  nos obriga a interagir e praticar o idioma  todo momento.

“De maio a novembro no geral é ondulação atrás de ondulação, picos diversos em toda região, praias desertas, crowd intenso, ondas tubulares, rampas manobráveis, mas se for para eleger um é Lennox Head que não tem crowd. The Pass, em seus dias clássicos tem  uma onda democrática, drop vertical no pico, seguido de um tubo seco, abrindo para uma seção mais cheia ótima para manobras onde você encontra profissionais, iniciantes e crianças. Nestes dias você sai nas ruas e encontra a população em êxtase com o sorriso largo”, diz Paulo.

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Escola de inglês é procurada por surfistas de várias nacionalidades. Foto: Flavio Biehl.

Visual da cidade australiana. Foto: Flavio Biehl.

I‘m an australian citzen Michael O’grady é músico, surfista e dono de uma das escolas de inglês mais legais de Byron qual recebe gente do mundo inteiro. Ele fala um pouco da vida que leva e dá dicas pra os brazucas interessados em trocar o corre-corre pelo sossego.

 

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Qual é o diferencial de estudar e morar em Byron Bay em comparação com outras cidades australianas?

O lugar e o estilo de vida que as pessoas levam aqui e como elas aprendem no geral. Essas duas coisas fazem total diferença no comportamento dos alunos, funcionários e professores. As pessoas em sua maioria são felizes e se sentem bem quando vivem rodeadas de tanta coisa deleitosa. Fica mais fácil aprender qualquer coisa assim.

Grandes cidades possuem semáforos, ônibus e trens lotados, poluição. Aqui é surf,  ar puro, povo alto-astral, bicicletas e caminhadas e alugueis mais baratos.

Qual é o seu ponto de vista sobre os estudantes brasileiros e quais dicas para aprender inglês?

Temos todos os tipos de brasileiros aqui. Alguns são muito esforçados e focados nos estudos. Entretanto há outros priorizam muito mais o surf do que as aulas e precisam melhorar as suas competências linguísticas. Entretanto os brasileiros mais espertos conseguem ter o melhor de ambas as coisas e se dão bem! Boas ondas e inglês na ponta da língua.

Sobre dicas para aprender inglês, definitivamente colocar-se em situações aonde se  obriga a usá-lo a maior parte do tempo. Faça amizade com pessoas de diferentes países, não apenas ficar próximo a conterrâneos. O surf, a  TV, o rádio e música também são meios bons para melhorar.

Por que você decidiu abrir uma escola de inglês? Qual a relação disso  com o surf e música?

Também estudei francês e latim no colégio. Eu também estudo música e descobri que tenho um bom ouvido. Música e idiomas são a mesma coisa – são sons!

Amo surfar, pois é uma das melhores coisas que a natureza pode te dar. O surf combina o exercício físico, o equilíbrio do ser-humano e a amizade. Eu já surfei em muitas partes ao redor do mundo e descobri excelentes lugares e pessoas grandiosas.

Porém agora eu não ando tão interessado em viajar já que tenho uma família linda e achei meu lugar: Byron Bay é o melhor. São eternas as lembranças das tardes com o pôr-do-sol em matizes rosa e lilás e o reflexo  da cor céu no oceano lisinho, sem vento. Surfar as ondas daqui e fazer parte desse cenário é surreal.

Minha escola nada mais é que uma combinação de minhas experiências de vida. Eu comecei a escola no “boom”  da internet e fui estudando e colhendo informações sobre o potencial dessa grande ferramenta e o que ela pode fazer por escolas, alunos e pelo aprendizado. Uso isso.

E minha paixão pela música trouxe um bônus bacana para os estudantes  que além de estudarem, compartilham seus talentos musicais. Nossas noites de “jam sessions” e festa na varanda da escola – onde os alunos também têm aula em dias bonitos – são sempre surpreendentes .

Quais são seu picos de surf preferidos? 

Broken Head e The Pass são minhas favoritas, mas por aqui qualquer lugar com boas ondas é bom! Ao lado de “Sucks Rocks”, The Pass tem uma direitona com fundo de areia e rochas que dá para percorrer centenas de metros até Clarkes Beach.

Surfar ali na caída da tarde com o sunset é o surf original. A esticada à Broken Head vale a pena. É outra onda com fundo de areia, mas com bastante pedras. Grandes tubos que funcionam muito bem no inverno e 80% do tempo os golfinhos te fazem companhia.

E sobre os temidos tubarões?

Até hoje só vi tubarão em aquário. Acho que há mais chance de ser atropelado por um ônibus do quer ser atacado por um! Eu não me preocupo com eles. Confira o formato da linha de costa no Google Earth. Você vai ver porque o surf é tão popular em Byron Bay. E depois de um bom surf, boa comida e música em um lugar maneiro, fazem o dia perfeito. Aloha!
 
Guia Rápido

Procedimentos de Intercâmbio Kangaroo Education
Passagem Qantas
Moradia, emprego e transporte Gumtree
Hospedagem curto-prazo e diversão The Arts Factory Lodge Byron Bay
Pranchas e artigos  Maddog e McTavish Surfboards
Yoga  Samudra
Curtir The Buddha Bar, Cheeky Monkey’s -Restaurant & Party Bar e Beach Hotel

Enquanto alguns fotógrafos documentam a história, Fedoca Lima fez diferente: viveu dentro dela enquanto fotografava. Carioca do Posto 5, começou a surfar com 11 anos e a fotografar quase ao mesmo tempo, com uma máquina fotográfica alemã do pai. Aos 14, registrou a Rainha Elizabeth passando de Rolls-Royce aberto pela orla de Copacabana, em frente à casa do Assis Chateaubriand. No mesmo período, fotografou o Mick Jagger dando o dedo do meio no Copacabana Palace. Não era fotógrafo profissional. Era um moleque com olho bom e câmera na mão, sem perceber ainda o tamanho do que estava construindo. O que veio depois é história do surfe brasileiro. O Píer de Ipanema nos anos 70, quando o Rio era o centro do surfe nacional, com Daniel Friedmann, Pepê Lopes, Rico de Souza e Ricardo Bocão dominando o circuito. A Brasil Surf, primeira revista especializada do país, na qual Fedoca jogou em todas as posições: fotógrafo, redator e capa. O Havaí entre 1978 e 1981, surfando e fotografando ao lado de Gerry Lopez, Shaun Tomson e Michael Ho em Pipeline e Waimea. Os shows históricos, de Bob Marley ao ar livre no Havaí até Rolling Stones e Paul McCartney no Maracanã. “A foto que eu não tirei, essa me persegue.” Fedoca Lima Mais de cinquenta anos depois, esse arquivo vira livro. “Surf, Clicks e Rock’n Roll” tem 220 páginas, cerca de 180 fotografias e percorre a transformação do surfe brasileiro desde a era analógica até o digital, passando por Arpoador, Saquarema, Havaí, Califórnia e Macumba. Com captação aprovada de R$ 203 mil via incentivo cultural e apio da Fu Wax, o lançamento está previsto para o segundo semestre de 2026. Conversamos com Fedoca sobre tudo isso. Antes de se consolidar como fotógrafo, você também virou personagem da própria história do surfe brasileiro ao sair na capa da Brasil Surf em 1975. Como foi viver aquele momento por dentro? Saí na capa da Brasil Surf. Na época eu trabalhei na revista de março de 75 até janeiro de 79, só não peguei o primeiro número. Jogava todas as posições: saí na capa, escrevia, tirava foto, ajudava na redação, dava palpite, fazia matéria. Por muito tempo achei que era o único fotógrafo de surfe que tinha saído numa capa. Depois o Bruno Alves me falou que o irmão dele, o Alberto, saiu na capa da Fluir número 1. A história dele bate um pouco com a minha: ele pegava onda, saiu na capa, era fotógrafo. Mas durante anos eu achei que era caso único. Até hoje tem um restaurante aqui que o cara pediu, eu tirei uma foto com a revista na mão, ele botou na parede, eu assinei. A influência continua. A Brasil Surf ajudou a mudar a imagem do surfista no Brasil. Como era ser surfista naquela época, antes dessa mudança de percepção acontecer? O surfe saía no caderno B do Jornal do Brasil, do Globo. Não saía no esporte. E o surfista era tido como vagabundo de praia. Maconheiro. Isso, aliás, até hoje tem um pouco, mas na época tinha muito mais. A Brasil Surf não vou dizer que limpou essa imagem completamente, mas ajudou a transformar o surfe em esporte e também a fomentar o mercado de surfwear. Os irmãos Wady e Fuad Mansur, da loja Mansur, em Ipanema, foram dos primeiros anunciantes. Acreditaram na revista, fizeram anúncios de contracapa e página inteira, e as camisetas personalizadas vendidas pelo correio viraram um sucesso. A Brasil Surf acabou impulsionando fabricantes de pranchas, calções, parafinas e diversos outros anunciantes ligados ao surfe. Os fabricantes de prancha tinham um veículo para anunciar. Os fotógrafos ganhavam uma graninha, viajavam. Fui para a América Central, Porto Rico, Barbados, El Salvador, Fernando de Noronha, Peru, várias viagens bancadas pela Brasil Surf de uma forma ou de outra. O Nilton Barbosa foi ao Havaí duas vezes bancado pela revista. No caso dele, eles bancavam os filmes, ele vendia as fotos e a viagem se pagava. Tinha uma diferença entre mim e o Nilton nessa época: ele chegava na praia e ficava na areia fotografando, fotografando, fotografando. Eu chegava e ia para dentro da água. Se não estava o Daniel, não estava o Pepê, não estava o Cauli, não estava o Bocão, não estavam os caras top, eu entrava e surfava. Então tem foto minha na Brasil Surf publicada pelo Nilton Barbosa, pelo Rogério Ehrlich. Eu estava mais dentro da água do que fora. Eu estudava. Primeiro vestibular, depois faculdade. Boa parte dos meus amigos só queria saber de surfar. Eu dividia meu tempo. Chegava na praia, já tinha estudado de manhã, aí ficava naquele dilema: vou pegar onda ou vou fotografar? Por isso tem poucas fotos do Píer. Em três anos não tirei nem metade do que tiro hoje num dia bom na Macumba com o digital. Você viveu o Píer, a Brasil Surf, o Havaí dos anos 70, o nascimento do surfe brasileiro moderno. Em que momento percebeu que estava no meio de uma transformação cultural que iria muito além do esporte? O Píer foi o que fomentou o surfe no Rio de Janeiro. Por dez anos, foi domínio completo do Rio no cenário brasileiro. O Daniel Friedmann, em 77, foi o último carioca a vencer uma etapa do circuito internacional, ganhou no Quebra-Mar, em cima do Pepê Lopes, que tinha ganho em 76. Os dois de Ipanema, meus vizinhos de rua. E esse pessoal do Píer que dominou, o Daniel, o Pepê Lopes, o Cauli Rodrigues, e também o Otávio Pacheco, o Rico de Souza, o Ricardo Bocão. E tinha o Betão, que era o melhor surfista do Brasil na época mas não era competitivo, não corria atrás de patrocinador, acabou saindo cedo. Em 75 ele ganhou o Campeonato de Saquarema e foi saindo, saindo. O Píer influenciou a revista, influenciou os fabricantes de prancha, influenciou o modo de viver. Começaram a ter fábricas em Guaratiba, Vargem Grande, no Recreio, depois em Saquarema. As pessoas foram morar lá. O Penho foi, o Otávio comprou

O que define uma boa onda? Tamanho, força, parede, qualidade da linha, formação e surfabilidade, dentre outros elementos. No oceano, todos esses fatores mudam a cada swell, a cada vento, a cada maré. Em Búzios, a proposta é diferente: construir essas variáveis de forma controlada, repetível e ajustável. A piscina do Brasil Surfe Clube Aretê Búzios opera com a tecnologia Endless Surf, do grupo canadense WhiteWater, com 48 câmaras de ar de alta precisão. O sistema permite criar configurações distintas dentro da mesma estrutura. Dentro de um universo de grandes possibilidades, as cinco primeiras ondas já foram nomeadas e reveladas, cada uma com perfil próprio, e muito mais ainda está por vir. Onda #01: Pointbreak + Junção Linha longa, seções conectadas, tempo de onda que pode ultrapassar 25 segundos. A junção encadeia diferentes partes da onda sem perder velocidade, criando uma das experiências mais difíceis de encontrar no oceano com consistência. Para quem quer mais de 10 manobras na mesma onda ou simplesmente mais tempo de linha para ler e decidir. Onda #02: Manobras + Bowl A parede fica mais íngreme. O bowl abre seções críticas para manobras verticais e aéreos. É o ambiente para quem quer empurrar os limites do que consegue fazer sobre a prancha, com repetição suficiente para transformar cada tentativa em aprendizado real. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Onda #03: Rampa + Tubo Uma onda que combina duas experiências na mesma seção. A rampa prepara o surfista para a manobra e o tubo roda na sequência. Para quem quer encaixar um aéreo e ainda sair do tubo na mesma onda, essa configuração entrega os dois elementos sem precisar escolher. Onda #04: Rampa Nível Intermediário Parede consistente, menor intensidade, mais previsível. A configuração certa para quem está desenvolvendo manobras progressivas e precisa de repetição para consolidar o que está aprendendo. A seção cria a rampa no ângulo certo, com velocidade suficiente para executar sem exigir o nível avançado. Onda #05: Rampa Nível Avançado Mais potência, mais velocidade, mais projeção. A rampa avançada é para quem já chegou em Búzios com manobras no repertório e quer testá-las com pressão real. Com capacidade para gerar até 700 ondas por hora, o intervalo entre uma tentativa e outra é curto o suficiente para transformar cada sessão em treino de alto rendimento. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Para todos os níveis As cinco configurações cobrem desde quem está aprendendo até quem treina em alto rendimento. A piscina ainda opera em dois modos: single peak, com ondas quebrando para um lado e maior extensão de linha, e split peak, com direitas e esquerdas simultâneas, permitindo que surfistas compartilhem a mesma série em direções opostas. Yago Dora, campeão mundial de surfe em 2025, Victor Bernardo, um dos maiores freesurfers da atualidade, e Michelle des Bouillons, referência mundial em ondas gigantes, integram o time do BSC e já testaram a tecnologia na piscina Adrena Red Sea, na Arábia Saudita. “Muito animal esse lance de ter essa variedade de onda também. Um leque de ondas absurdo. Mal posso esperar para Búzios”, disse Victor Bernardo após a sessão. A versão de Búzios será maior: 48 câmaras contra 36 da estrutura do Mar Vermelho, com 13 mil metros quadrados de lâmina d’água. Variedade de ondas para testar, arriscar, aprender e evoluir todos os dias. Com inauguração prevista para o segundo semestre de 2026, é o que o Brasil Surfe Clube Aretê Búzios chega para entregar.

Pedro Bettencourt Müller nasceu no Rio de Janeiro, no dia 21 de julho de 1966, num ambiente familiar que respirava praia. Seu pai, Guilherme Xavier de Brito Müller, economista e morador do Leblon, cresceu frequentando a Zona Sul. Sua mãe, Maria Isabel Bettencourt Müller, criada em Santa Teresa, compartilhava da mesma paixão pelas praias. Para o casal, fim de semana e férias tinham destino certo: areia, sol e mar. Foi assim que Pedro e o irmão, Guilherme, passaram a infância seguindo os pais para o meio da Barra ou para São Conrado, ainda de estradas de terra, sem prédios, calçadões ou qualquer urbanização. Nesse cenário quase intocado, Pedro foi se encantando pelas ondas. Lembra-se de observar alguns surfistas solitários no meio da Barra e sentir-se hipnotizado pela habilidade deles. O mar, desde cedo, era o lugar onde queria estar. Ele recorda também a rotina da infância: ia para as aulas de natação no Clube de Regatas Flamengo e, depois, caminhava até o judô, no Leblon, um trajeto longo para uma criança de 12 anos. Antes de entrar no tatame, sentava-se no calçadão para olhar o mar quebrando, entregue à mesma fascinação que o acompanharia por toda a vida. O mar lhe transmitia paz, calma e propósito. Ali, ainda menino, já entendia que queria se tornar surfista. A mudança para São Conrado, por volta dos 14 ou 15 anos, foi decisiva. Morando ao lado do Pepino, Müller muitas vezes cabulava a aula pra ir surfar. As ondas triangulares, rápidas e pesadas da região se transformaram no seu campo de treinamento permanente. Ali, guiado pela referência de Rony Lima e pela evolução proporcionada pelas pranchas dos shapers Rico e Pedro Battaglin, deu um salto técnico marcante. A “biquilha mágica” 5’4″ de Battaglin é lembrada até hoje como uma das grandes viradas em seu surfe, época em que adotou o apelido de “o Águia”, pela tatuagem no braço. Uma nova mudança, motivada pelo desemprego do pai, levou a família para a Barra. Para Müller, foi a oportunidade perfeita: entre o Postinho, o meio da Barra e o Quebra-Mar, encontrou três ondas consistentes e acessíveis a pé, permitindo treinos diários que aceleraram ainda mais sua evolução. Nessa fase, destacou-se nos campeonatos da ASBT – Associação de Surf da Barra da Tijuca – e entrou para a promissora equipe da Cristal Graffiti. Antes disso, havia vencido seu primeiro campeonato no Leblon, organizado por Marcelo Peninha, vitória que marcou sua confiança rumo ao profissionalismo. Os resultados na categoria Júnior renderam um prêmio decisivo: uma passagem para o Havaí. Aos 18 anos, Müller viveu sua primeira temporada no North Shore (1984/85), dividindo casa com surfistas brasileiros experientes. Pipeline, logo no primeiro dia, foi seu batismo de fogo: mar pesado, adrenalina no limite e a certeza de que o treino no Pepino o havia preparado para aquele cenário. De volta ao Brasil, enfrentou dificuldades para manter regularidade como profissional. A grande virada veio com o curso de meditação transcendental feito ao lado de Rodolfo Lima. O impacto competitivo foi imediato: venceu a etapa profissional do Quebra-Mar no circuito carioca, em 1986, e passou a frequentar pódios de forma consistente. A regularidade, marca registrada de sua carreira, nasceu ali. Em 1987, tornou-se vice-campeão do primeiro Circuito Brasileiro de Surf Profissional. Liderou boa parte da temporada, foi vice-campeão na etapa da Lightning Bolt e, depois, campeão no Fico Festival. Só perdeu o título na penúltima bateria do Circuito, por apenas 20 pontos, uma diferença mínima para quem tinha 850 pontos de vantagem sobre o terceiro colocado. Na época, era visto como o surfista mais consciente e estratégico do país. Nos anos seguintes, acumulou resultados expressivos: vitórias importantes na Abrasp e uma vitória significativa no QS de Florianópolis, superando Barton Lynch, Jojó e Julio Adler. Em 1995, viria um dos grandes destaques internacionais de sua carreira: o nono lugar em Pipeline, substituindo de última hora o australiano Damien Hardman. Ondas entre 10 e 15 pés confirmaram sua capacidade técnica em um dos palcos mais desafiadores do mundo. Pedro Müller seguiria competindo por mais de duas décadas. Em Ubatuba, já aos 38 anos, conquistou sua última vitória no Circuito Super Surf 2004, num dos triunfos mais marcantes de sua trajetória. Hoje, vive do surfe como treinador, comentarista da Sportv e um dos proprietários da @escola_pedromuller, na Barra da Tijuca, administrada pelo sócio Adelmo Noite. Acompanhe ns publicações nas redes sociais @museudosurfesantos. Coordenador de pesquisas históricas do surfe @diniziozzi, o Pardhal.

Como uma prancha largamente usada por surfistas fora do circuito mundial profissional pode ganhar atenção? Coloque a dita cuja nos pés de um bicampeão mundial. Quer um destaque ainda maior? Filipe Toledo vence o tricampeão Gabriel Medina. Pronto. Vamos por partes. Na etapa do Championship Tour, na Nova Zelândia (Maio 2023), Filipe acabou não vencendo a disputa da quarta de final contra Griffin Colapinto, mesmo obtendo a melhor nota da bateria. Faltou uma onda. Mas o assunto aqui é outro, ou quase. Em um universo dominado por triquilhas, desde 1981, a diversidade de pranchas, no século 21, começou a ganhar espaço fora das competições. No meio de antigas novidades, biquilhas com trailer fin (estabilizador central) se mostraram mais controláveis e amistosas, levando muita gente a adotá-las no quiver. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Filipe Toledo (@filipetoledo) O modelo de biquilha com estabilizador central já havia sido testado mas ganhou vida nova em 2003, com as Super Twins do shaper, tetracampeão mundial (79, 80, 81 e 82), Mark Richards. Ele trouxe de volta suas Twin Fins do início dos anos 80, adicionando uma “quilhinha” central. Daí, de repente, Filipe Toledo coloca no jogo do circuito mundial o modelo Modern 2, da Sharp Eye Surfboards. Vence Gabriel Medina nas esquerdas de Raglan e deixa muito mais gente antenada sobre as possibilidades de uma twin com trailer fin. Filipe não foi o primeiro a fazer algo que eu esperava há tempos. Kelly Slater inovou, diminuindo o tamanho das pranchas e competindo, em algumas situações, com o que eram mais bi do que triquilhas, na primeira década do século 21. Dane Reynolds também fez isso, mas vamos combinar que esses dois não são parâmetros de surf normal. Deivid Silva também ousou. Abiquilhou-se numa etapa. Mandou bem, mas não chamou tanta atenção. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Sharp Eye Surfboards (@sharpeyesurfboards_au) Quando se trata de altíssima performance pesa sempre o fato dos atletas da elite não terem muito tempo para experiências fora da casinha das triquilhas. Mas, pela primeira vez, Filipe, além de seu ano sabático, em 2024, teve, como todos os Tops, os mesmos raros sete meses de folga antes da temporada 2026. Isso parece ter criado espaço para lidar com pranchas diferentes, memória física e jogo mental para se arriscar com um equipamento não muito convencional na Nova Zelândia. Sim, pranchas realmente diferentes pedem ajustes na maneira de usá-las e isso requer tempo e, claro, talento. Duas coisas chamaram a minha atenção. Impressionante como podemos e devemos comparar os melhores do surf competitivo profissional com pilotos da Fórmula 1. É com eles que a indústria das pranchas evolui mais e melhor. Detalhes sutis, milimétricos, que essa turma sente no funcionamento de uma prancha podem ser incorporados aos modelos que a maioria dos surfistas não conseguiria detectar ou explicar. Eles dão o caminho do que será usado pelos consumidores “normais”. Shapers são mais teoria, estudo. Tops são prática. As mudanças surgem daí. Segunda, e mais curiosa. Um esporte que durante tanto tempo teve uma aura de vanguarda e ousadia leva muito tempo para propor ou acertar mudanças mais drásticas, seja na construção ou desenvolvimento de design. Não creio que seja culpa dos fabricantes, já que essa indústria nunca gerou dinheiro suficiente para que se desenvolvesse como deveria. Ainda por cima a competição tem um formato onde há pouco espaço para o diferente quanto à performance. Mas isso é conversa para outro texto. Por agora fica a dica. Mesmo ideias estranhas à normalidade podem resultar em bons resultados. Teste tudo que é prancha que você puder. Não tenha medo, você não depende de notas dos juízes para ser feliz.