Luiz Cesar Mendonça, mais conhecido como “Buzzy”, trabalha como salva-vidas para a prefeitura de Honolulu, Hawaii.
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Brazuca casca-grossa, Buzzy deixou o Brasil em 1989 e não quis mais deixar o arquipélago havaiano.
“Aqui você pode surfar ondas de 20 pés sem tomar nenhuma cabeça”, diz o paulista.
Antes de se apaixonar pelo surf, Buzzy conheceu diversos esportes e chegou a praticar hipismo. As primeiras trips do surfista foram para Peru e Indonésia.
“Meus ídolos nessas viagens sempre eram os big riders, pois nunca fui de prestar atenção em aéreos ou batidas. Sempre reparava quem pegava a maior onda do dia e, no meu conceito, esse era o vencedor, pois surfar ondas grandes não é pra qualquer um”, afirma Buzzy.
Nesta entrevista, o salva-vidas e big rider conta tudo sobre o seu trabalho no North Shore do Hawaii e sua paixão pelas ondas grandes.
Fale um pouco sobre você.
Meu nome é Luiz Cesar Mendonça, mas todos me chamam de Buzzy. Atualmente trabalho como salva-vidas para a prefeitura de Honolulu. É um trabalho de grande responsabilidade. Nasci em São Paulo e já experimentei quase todo os esportes, até hipismo. Mas quando descobri o surf, os outros esportes ficaram em segundo plano. Graças a meus pais, fiz minha primeira viagem ao Peru. Foi muito show! Acabei gostando das ondas grandes pelo grande desafio. Depois viajei a Bali e conheci os tubos de G-land. Meus ídolos nessas viagens sempre eram os big riders, pois nunca fui de prestar atenção em aéreos ou batidas.
Sempre observava quem pegava a maior onda do dia e, no meu conceito, esse era o vencedor, pois surfar ondas grandes não é para qualquer um. Depois de Bali vim ao Hawaii e me apaixonei pelo lugar. Aqui você pode surfar ondas de 20 pés sem tomar nenhuma na cabeça. Meu amor por esta ilha foi tão grande que não voltei ao Brasil. Isso foi em 1989.
Como a pessoa consegue o trabalho de salva-vidas no Hawaii?
É um longo processo. Primeiro você tem que ter o colegial completo. Depois vêm os quatro eventos físicos: 1000 metros de corrida e 1000 metros de natação com o tempo abaixo de 25 minutos. Depois, 400 metros de remada abaixo de quatro minutos. O terceiro evento é correr 100 metros, nadar 100 metros e correr 100 metros em três minutos. A última prova é nadar 500 metros em 10 minutos. Ser salva-vidas no Hawaii é difícil, pois você tem que fazer esse teste uma vez por ano pelo resto de sua carreira! Caso você passe nesse teste físico, voce será selecionado para a entrevista.
Você tem que saber o básico: RCP, primeiros socorros, matemática, passar no exame de drogas e ter uma ficha limpa na polícia. Se for selecionado, há um intenso treino físico e mental de um mês. No fim do mês tem uma prova escrita de 100 questões. Caso você seja aprovado em todos os testes e na prova, é contratado.
Qual o treino que você fez e como foi seu desempenho na prova física?
Fui muito bem na prova. Cheguei em primeiro lugar em dois dos quatro testes físicos. Vou levar esse momento de vitória para o resto da minha vida, pois tenho 39 anos e ganhei da molecada de 21 anos na natação e na corrida!! Alguns até jogam pólo e são nadadores da Universidade do Hawaii.
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Quais os pros e contras de ser salva-vidas?
O bom é ser pago duas horas por dia para treinar. Eu geralmente corro na areia por uma hora e nado ou remo na segunda hora. A satisfação de salvar uma pessoa é também impressionante. O lado difícil é quando acontece de a pessoa morrer em suas mãos. Você tem que ter a mente forte, pois o sentimento de culpa pode estragar sua carreira, bem como as críticas no departamento. E você também pode ser processado, coisa normal por aqui.
Você sentiu algum preconceito entre os colegas de trabalho por ser brasileiro?
Tudo vai depender da sua atitude e respeito pelos veteranos que já trabalham mais tempo do que você. Tentar também não dar motivo para eles te criticarem.
E ser bom na água, pois seus colegas de trabalho vão reconhecer e vão te respeitar. Na hora em que o bicho pegar em situações difíceis, eles poderão contar contigo. Mas, se você for devagar no teste físico e não conseguir acompanhar os líderes, daí você será criticado.
Até o momento, quantos resgates você já fez e qual deles foi o mais difícil?
Já fiz vários resgastes e nem me lembro de quantos, mas me lembro de um dos mais difíceis da minha carreira. Foi um turista do Japão que estava mergulhando com tubo de oxigênio e tudo mais. Ele não tinha experiência e comecou a se afogar. Fui até ele com minha prancha de resgate. Foi difícil, pois ele era muito pesado, incluindo todo o equipamento de mergulho. Com muita sorte, conseguí socorrê-lo e ele voltou ao Japão vivo..
Qual a onda mais difícil e perigosa que você já encarou na vida?
Teahupoo, no Tahiti. Antes de contar como foi, gostaria de mencionar grandes amigos que me ajudaram a surfar essas ondas gigantes. Há três anos comecei a praticar tow-in graças ao meu parceiro Issam, mais conhecido como Tatu, que me convenceu a comprar um jet-ski com ele e fazer uma parceria. Tenho muito a agradecer a esse cara pelo resto de minha vida, pois ele foi o primeiro incentivo a praticar esse esporte.
Também não posso me esquecer de outro amigo meu que me puxou nas ondas perigosas de Jaws, o Romeu Bruno, primeiro brasileiro a fazer tow-in. Tenho também meu amigo Rodrigo Kocha, que me convidou para ficar no Tahiti com casa, carro, jet e barco. Esse é outro amigo que admiro muito, pois acreditou no meu potencial em ondas grandes e perigosas. Outro amigo meu foi o Danilo Couto, que contou muitas histórias sobre Teahupoo me dizendo que era uma das ondas mais perigosas do mundo.
Alguns dias antes de viajar ao Tahiti, meu amigo Daniel Skaf disse que havia um swell gigante indo pra lá e que o Garret McNamara estava indo ao Tahiti. Como conheço o Garret, liguei para ele e acabei indo com ele e seu parceiro havaiano Kealii Mamala. No avião, o Garret contou histórias de terror de Teahupoo, quando tentou salvar um surfista taitiano que havia sido massacrado no reef e morreu em suas mãos com ferimentos gravíssimos. O Garret disse que não me puxaria em Teahupoo caso estivesse grande. Disse que eu não tinha habilidade para surfar lá. Quando chegamos, o mar estava gigante, 12 a 15 pés.
O Kealii me perguntou se eu estava pronto. Disse que sim. Coloquei o capacete e dois coletes salva-vidas. Peguei quatro ondas médias. Daí, entrou uma série das grandes. Minhas pernas tremiam. Quando soltei a corda, não acreditei no tamanho da onda, a velocidade e o tubo. Essa onda saiu na revista Fluir, e gostaria também de agradecê-los pelo reconhecimento. Acabei fazendo uma tatuagem taitiana baseada nessa viagem. Essa foi a melhor onda da minha vida. Para concluir, gostaria de dizer que é muito importante ter amigos nessa vida. Aloha!
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