Não posso começar esta coluna sem fazer uma pergunta que não quer calar, não ?Quando será que um brasileiro vai vencer uma etapa do WCT de novo??, porque esta foi muito bem respondida com uma performance fantástica e exemplar do niteroiense Bruno Santos.
Mas, sim, a questão que não se cala em minha cabeça: Será que depois desta última parada do tour, ainda resta dúvida quanto ao julgamento? Será que com tudo isso, as pessoas que fazem parte desse esporte, sejam admiradores ou empresários, continuarão questionando o fato de que surfista brasileiro não se dá bem por causa dos juízes?
Se ainda resta alguma dúvida quanto a isso, vamos aos fatos. Tenho absoluta certeza de que ao final desse texto, até o mais fanático torcedor, vai conseguir compreender com clareza o quão óbvia é a resposta para tal polêmica questão.
Para isso, vou fazer uma rápida retrospectiva sobre o que discutimos nas duas colunas anteriores, nas quais uma enxurrada de comentários, nem sempre fundamentados e bem-educados, mais uma vez crucificando profissionais do surf, treinados regularmente, para estarem aptos a julgar o melhor do surf mundial.
Não é por acaso que alguém vence uma competição, seja em que modalidade for, ganha sempre quem estiver melhor preparado naquele momento, e isso envolve muitos e pequenos detalhes, principalmente no que diz respeito à foco, concentração e comprometimento com o objetivo de ser um campeão.
Quando isso se perde, não interessa se você é o mais famoso ou o mais temido entre os competidores, suas chances de sucesso tornam-se mais do que remotas, tornam-se praticamente nulas.
Durante a última etapa do WCT foi definitivamente quebrado o mito de que nome determina notas ou influencia nos critérios de julgamento, e a trajetória percorrida pelos dois finalistas nesse evento, um convidado pelo principal patrocinador da etapa e por ser local do pico, o outro por ter terminado na segunda colocação das triagens fala por si só, no sentido de provar que o que vence bateria é surf no pé e nada além disso.
Ambos tiraram da competição os nomes mais cogitados para a conquista da etapa e líderes na corrida pelo título mundial, mas infelizmente não figuram entre o seleto grupo do WCT, não por merecimento, talvez por opção, mas de fato deixaram claro que têm os requisitos básicos para integrar a elite.
Drollet derrotou o norte-americano Kelly Slater duas vezes, e na seqüência ainda fez a mala de muita gente grande, até despachar Parko nas semifinal. Enquanto isso Bruninho, perdeu para Taj no round 1, mas depois que embalou na repescagem, quando venceu o atual campeão mundial, Mick Fanning, não parou mais, dando o troco em Taj no round 3, até mandar de volta pra casa C.J. Hobgood, antes do duelo final contra Manoa.
Triste mesmo foi ver que às vezes o sucesso cobra seu preço, quando nas quartas-de-final um dos dois melhores surfistas da etapa deixaria o evento, onde Bruno Santos e Adriano de Souza se cruzaram num confronto belíssimo, de pouquíssimas ondas, mas que enchia os olhos de orgulho tamanho profissionalismo e determinação de ambos, tanto nas performances dentro d?água, quanto nas entrevistas concedidas antes e depois das baterias.
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Como fiz nas colunas anteriores, me sinto mais do que feliz na obrigação de separar um parágrafo para ressaltar a performance de Adriano de Souza.
Mineirinho foi impecável, um verdadeiro surfista de elite, não só no surf mas em tudo, na postura dentro e fora d?água, na convicção do que falava durante as entrevistas pós-baterias, um exemplo de comprometimento com a vitória, com seus objetivos e com a sua condição de membro do WCT.
Outros brasileiros como Leo Neves e Heitor Alves, também me ajudaram na árdua missão de isentar os árbitros da culpa por uma derrota, quem questionava tanto a forma que os juízes julgavam os brasileiros, foi obrigado a render-se a verdade ao ver Leo, mesmo perdendo na repescagem, fazer o primeiro 10 do campeonato e ainda ter sua bateria eleita como a melhor do dia.
Além de ver Heitor numa atuação avassaladora no round 1, descolando dentro de uma nota 9.77, dois 10 de árbitros que com certeza usariam essa onda como parâmetro para o resto do campeonato.
Se fizermos um rápido trabalho de observação, vamos começar a entender que nada na vida funciona sem organização e planejamento.
A Austrália ficou no banco de espera por oito anos para ter um novo campeão mundial, e entre Occy e Mick, uma revolução foi feita no esporte por aqui, desde as escolinhas de surf até o programa de treinamento do HPC (High Performance Centre), onde são preparados os atletas da elite australiana.
Quando durante um campeonato que estava julgando aqui na Austrália uma semana antes do WCT começar no Tahiti, perguntei aos árbitros que julgavam comigo, um deles partindo para Teahupoo na semana seguinte, o que achavam do surf brasileiro, e o porquê de não vermos um brazuca ganhar uma etapa a tanto tempo?
A resposta foi unânime, ?Brasil tem um dos maiores celeiros de produção de novos talentos para o surf, é comum ver atletas que vêm à Austrália para treinar serem muito bem observados por aqui, só falta organização, às vezes nem parece que competem pelo mesmo país?.
Julgamento é somente uma parte do espetáculo. Importante, mas somente uma na coordenação de fatores que determinarão o resultado final, de vitória ou não. Está respondida a questão?
Gustavo Oliveira tem apoio do International Student Centre
