Enfim chegou a pouco esperada quarta e última semana em Negrito. Digo isso porque nunca se quer ir embora de um lugar como esse, apesar das saudades da família, da namorada, do trabalho e dos amigos. Bem, pelo menos esse último item seria amenizado, pois eu esperava a chegada de uns camaradas para a semana de carnaval – Maurício, Marcão, Alexandre, Rodrigão e Ricardinho.
Entretanto, o clima era de ansiedade, pois além dos brasileiros – cinco surfistas ávidos por ondas (lembra? verão flat….) – estaria chegando também um grupo com cerca de quinze americanos (além das pessoas que já estavam no camp), o que faria desta a maior lotação da história de Morro Negrito.
Inclusive, os brasileiros deram um “jeitinho” para poderem se instalar, pois todas as acomodações estavam lotadas e Steve permitiu que eles acampassem, outro fato inédito na história do local. Nesse momento, foi criada uma entidade que deixaria marcas eternas na história de Morro Negrito: o Tent’s R Us!
Assim começou a agitada semana de carnaval em Negrito, com a bandeira verde-e-amarela do Brasil estampada logo na entrada do camp, em cima das barracas. E pra quem acredita que Deus é brasileiro, um bom swell chegou junto com a galera e trouxe mais tranqüilidade aos suf guides, que estavam realmente preocupados com a possibilidade de falta de ondas naquela semana. Isso poderia causar um “stress” entre os grupos, pois os point breaks não comportam muita gente e não quebram com qualquer tamanho de swell.
O grupo de americanos era formado por cientistas e biólogos, uma galera incomum no nosso meio, e foi uma experiência muito enriquecedora conviver com eles durante a semana. No início houve um certo clima de disputa, pois ambos os grupos estavam com a fissura à flor da pele. Por conta disso, Daniel e eu – que, após tanto tempo no camp, já estava sendo confundido com guia – decidimos arriscar um surf em Sandbar, mesmo com a maré desfavorável (enchendo). Para nossa surpresa o pico estava funcionando, e isso aconteceu nos três dias seguintes, amenizando a situação e garantindo novas possibilidades.
Com isso, todos começaram a se conhecer melhor, e o surf aproximou culturas e povos diferentes em total harmonia. Enquanto a passarela bombava no Brasil, a galera ia curtindo a paz e as ondas no Panamá e, entre uma jam session e outra, rolava um mergulho, um peixe na brasa na folha de bananeira à brasileira (os gringos piraram) e muita onda.
Na terça-feira e última noite de carnaval, Marilyn, esposa de Steve, agitou uma barca para Tolé, uma pequena cidade próxima, a fim de conhecermos o carnaval panamenho. Resolvemos enfiar o pé na jaca e aceitamos o convite. Eu ouvira que o carnaval de lá é um dos mais animados do mundo, perdendo apenas para o brasileiro. Saímos do camp por volta das seis da tarde, com previsão de voltar até duas da manhã, pois não queríamos perder o surf no dia seguinte.
A noite foi engraçada, e o grupo de estrangeiros chamou a atenção nas duas festas que visitamos, que mais pareciam grandes quermesses latinas, cheias de características culturais próprias. O carnaval panamenho realmente não tem nada a ver com o nosso, mas o povo é animado e se diverte bastante. Nossa volta para o camp foi conturbada. Após andar no mangue sem enxergar nada, chegamos às seis da manhã, com dezoito pessoas num barco que comporta dez, navegando pela luz do luar. Mas o visual dos plânctons na água valeu o esforço.
No dia seguinte ao maior “Human Sacrifice” da viagem, as ondas estavam lá. Caímos em Sandbar e tinha altas, mas infelizmente aquele não era meu dia de sorte. Ao pular da prancha numa fechadeira, fui atingido pela quilha de minha prancha e ganhei um profundo corte na sola do pé, que anunciava o que parecia ser o fim da minha trip.
Fui levado imediatamente ao camp pelo barco, e chegando lá, todo ensangüentado, fui socorrido por Emílio. John Arthur, um dos biólogos, se prontificou a fazer o serviço (anestesiar, limpar e fechar), pois era o único que já havia costurado “alguém” antes – animais, para meu espanto. Mas tive um atendimento digno de uma clínica (dentro das possibilidades), em plena selva panamenha. O equipamento de primeiros socorros do camp também era de primeira, o que possibilitou um trabalho e um resultado muito bons. Após um dia de repouso e sob observação do “Dr.”, tive uma surpresa.
Com altas ondas rolando no Point e todos voltando de cabeça feita, John disse que existia uma chance de eu surfar no último dia (ele percebera minha agonia). A solução seria fechar o corte com “Crazy Glue” (uma espécie de Super Bonder gringa), enrolar o pé com fita adesiva (Silver Tape) e calçar a botinha. Não tive dúvidas. Confiei nele e fui pra água. A queda teve um gostinho especial, por ser a última e pelas circunstâncias, e os tubos foram os melhores anestésicos que já experimentei.
No dia seguinte, na última session em Nestles, poucas horas antes de deixar a ilha, optei por não surfar e fiquei filmando a galera brazuca, com a certeza de que voltaria para o Brasil renovado e pronto para uma nova jornada de trabalho.
Partimos em seguida, num grande grupo que certamente deixou e sentirá saudades de todos que compartilharam a magia e o alto astral panamenho, e o gostinho “caliente” das ondas de Morro Negrito.
Para saber mais sobre o Surf Camp Morro Negrito, confira a página do local na internet: www.surferparadise.com . Para conferir as fotos feitas pela galera que freqüentou o camp durante a minha estadia, visite o site www.ecoguild.com/morro_negrito.html.
A energia que vem do Sol
Uma das novidades implantadas recentemente em Negrito, foi a utilização de painéis solares para captação alternativa de energia, substituindo o uso do gerador, que gasta combustível e polui o ambiente. A tecnologia foi trazida por Emilio Alemani (foto), um americano – filho de cubanos -, que após negociar a instalação de toda a parafernália em troca de duas semanas de estadia no surf camp, foi convidado por Steve para trabalhar como surf guide.
O novo sistema pode ser usado durante todo o ano, mas na temporada de chuvas ele perde um pouco a capacidade de armazenar energia, pois o sol aparece menos. Mesmo assim, é uma ótima alternativa para lugares tropicais, inclusive como o Brasil, pois diminui em até 85% o consumo a um baixo custo.
Emilio é um típico surfista de alma, e já morou em muitos lugares e trabalhou em diversas áreas para ficar perto das ondas. Com isso adquiriu uma experiência muito grande. Ele é o tipo de cara que sabe fazer de tudo um pouco, já foi shaper, trabalhou em grandes hotéis, entende de enfermagem e, obviamente, de energia solar. Mas você pode conversar sobre qualquer assunto com ele que acaba tendo uma aula.
O mais curioso é que Emílio é um autodidata no assunto em questão. Quando decidiu comprar um terreno na Big Island, Hawaii, (onde viveu por dezesseis anos), no meio do mato e sem nenhum contato com a civilização, ele começou a estudar a melhor forma de levar energia elétrica para sua casa (que ele mesmo construiu). Acabou descobrindo a eficiência e o baixo custo dos painéis solares. A partir daí, começou a estudar sobre o assunto em livros técnicos e sites especializados, depois comprou o material necessário e montou uma pequena estrutura.
Com o tempo, Emílio se tornou um especialista, e hoje é representante de uma grande empresa americana que distribui equipamentos e suporte para captação alternativa de energia. Porém, ele é um cidadão do mundo, e nunca pára em um lugar. Aos 39 anos e totalmente desprendido de valores materiais, Emílio continua sua busca atrás das ondas e da paz e, com bom humor, até se considera meio “socialista”, pois diz que não consegue mais viver nos padrões de uma sociedade normal. Uma de suas frases favoritas é: “Se hay um Diablo, és capitalista!”
Quem tiver interesse em conhecer o sistema de energia solar, Emílio pode ser contatado em qualquer parte do mundo pelo e-mail [email protected], e garante que não vê a hora de conhecer o Brasil.