Brasil: vencedores do presente

Na última edição da Fluir, comemorando o 19o aniversário da revista, a matéria de capa abordava a seguinte questão: O Brasil é o país do surfe?

 

Entre as diversas personalidades escolhidas para dar um depoimento, Claudio Martins de Andrade, surfista, criador da Fluir, da Surfe & Beach Show, da Beach & Bikini Fashion Show, da Street Wear & Skate Show e do site Waves.Terra.

 

Leia na íntegra a resposta de Claudjones, como é conhecido Martins, um dos profissionais que melhor conhece a realidade do esporte no Brasil.

 

 

Fiquei pensando muito na pergunta que a Fluir me fez. Num primeiro instante pensei que sabia tudo, que era uma resposta fácil, mas ao refletir sobre o assunto achei que talvez não fosse tão fácil assim.

 

Primeiro, o conceito da pergunta meio que me incomodou: porquê temos que ser “o país do Futebol”, “o país do Surfe”, porquê essa nossa preocupação em ser o maior? Bom, talvez porque, como diz o Fabinho Gouveia (em entrevista à Nancy Geringer no site Waves.Terra), “nossa nação é guerreira e os guerreiros vencem…”.

 

Respondida esta primeira questão vem a pergunta principal: o que falta? Bem, vamos por partes: primeiro, a base. Temos que cuidar de incentivar as escolas de surfe e prestigiar todos os eventos destinados a elas.

 

As escolas surgiram quase que espontaneamente e vêm se mantendo e crescendo em geral por causa da dedicação de esportistas realmente abnegados, escolas onde falta muita coisa, desde os equipamentos até uma formação técnica e cultural maior mas aonde sobra amor e seriedade no trato do esporte.

 

Ampliá-las, ampará-las, prestigiar seus eventos é nosso dever, caso realmente queiramos elevar nosso nível. Daí, o pensamento seguinte é mais ou menos óbvio: precisamos investir nos atletas. Mas não é simplesmente investir nos atletas. É mais que isso.

 

É investir para que estes possam surfar regularmente ondas de qualidade. Não aceito a cantilena de que não temos boas ondas em nossa costa de quase 8 mil km. Isto não seria impedimento nenhum. Ótimos surfistas se formaram em ondas assim, como o próprio Fabinho e o Kelly Slater – que aprendeu a surfar nas ondas medíocres do sul da Flórida.

 

Mas o fato é que treinar em ondas de qualidade de competição é fundamental para quem quer se preparar para vencer o WCT – que hoje ocorre principalmente em point-brakes como os do Hawaii, do Tahiti, da Indonésia, da África do Sul, de Fiji.

 

Isso custa caro e requer dos empresários e executivos da indústria, do comércio e dos serviços, a conscientização desta realidade e o planejamento necessário para que ela se efetive. Não é fácil.

 

Pensei também em falar aos dirigentes do esporte. Como só trabalhei em atividades ligadas ao esporte durante toda minha vida, conheço todos, muitos são meus amigos e sei muito bem como é difícil segurar a onda por anos a fio, tentando melhorar as coisas. Ainda assim, caros amigos, precisamos de mais.

 

Temos que nos esforçar mais ainda para estender os limites do surfe mais para dentro do ‘establishment’ oficial. Em outras palavras, temos que aproveitar nossa condição de dirigentes para manter um diálogo com todos os setores oficiais, dos governos municipais, estaduais e federais às suas secretarias de esporte e educação, ao ministério de relações exteriores, ao de turismo, às instituições e fundações ligadas ao estado e às empresas, para que se interessem pelo setor e venham dar sua contribuição.

 

Sabemos que existem verbas em vários setores. Temos que ter parte delas para promover intercâmbios nacionais e internacionais e incluir o surfe nos currículos escolares, nas universidades.

 

Temos que oferecer o que o esporte tem de sobra – juventude, saúde, capacidade de formação individual, conhecimento do mar e amor pela proteção do meio ambiente, enfim, nossa cultura – à nação, através de seus organismos de governo.

 

Afinal, vivemos em uma democracia e não fossem as razões acima citadas, bastaria uma só, a qualidade de nossos votos. Portanto, temos que ser ouvidos: queremos participar do projeto da nação. O conceito da pergunta tem a ver com isso.

 

Depois da pedreira que é falar aos dirigentes, neste processo de nos levar ao pódio do surfe mundial, tenho que falar com meus clientes, os empresários do setor. Bem, nos falamos sempre, diariamente, minha vida tem sido falar e falar mais uma vez com cada um. Sei das dificuldades, das frustrações, da luta de cada um destes empresários, que, por força do meu próprio trabalho, também são as minhas.

 

Ainda assim comunico: temos que fazer mais. Temos que patrocinar o maior número de atletas possível, temos que tirar leite de pedra e oferecer cada vez mais premiações que permitam aos atletas ter uma vida dedicada ao esporte, tranqüila, com possibilidade de viajar constantemente para os locais aonde quebram as ondas de qualidade de competição.

 

Já estou ouvindo, aqui e ali, empresários perguntando: “com que dinheiro? Você viu o que vendemos desta coleção? Não rolou inverno este ano, como é que você quer que eu possa planejar qualquer coisa se ninguém sabe o que vai acontecer amanhã com o dólar, com a inflação e tudo mais?”.

 

O que eu respondo é que apesar dos pesares, temos que continuar investindo e investir cada vez mais. O país é sempre maior que qualquer crise e quando você pára e pensa, vê que o setor vem mantendo uma boa média de crescimento, se não em quantidade em alguns anos, certamente em qualidade. É só entrar em uma surf-shop hoje. Estão todas cada vez mais completas. É só ver como a nossa moda invade a cada dia novos nichos de mercado.

 

Tendo falado com todos em particular, quero terminar falando com todos em geral. Temos que criar ídolos. Atletas que tenham carisma e imagem para varar a resistência de inúmeros setores ao surfe e que arrebatem nosso público pela simpatia, pela personalidade, pelo carisma. Sem eles sou obrigado a realizar que ficará difícil.

 

Precisamos de ídolos, bons ídolos.

 

Vejam o exemplo do bodyboard, onde somos campeões mundiais. No surfe feminino a mesma coisa. Qual é a repercussão? Pequena, muito menor do que deveria. Por quê? Porque ainda não somos o país do surfe, porque ainda estamos fazendo nossa lição de casa e porque ainda não criamos nossos ídolos.

 

Bem, acho que falei tudo. Mas ainda assim fico me cobrando. Pô, Claudião, você só falou o óbvio, quem não vê tudo isto? Esperávamos de você alguma coisa a mais, algo que só um soul surfer, um carinha que conseguiu realizar a proeza de viver do e no esporte que ama, no meio das ondas e dos amigos.

 

É verdade. Pensando bem, faltou sim. E aí vai. É o seguinte. Precisamos incutir em cada um de nós a responsabilidade imediata de “vender” o surfe para os outros, para quem não surfa, não liga e não dá importância. Para a grande maioria dos brasileiros. Precisamos cada um nos preocupar com a imagem do esporte.

 

Explico melhor. Quem surfa fica tão realizado, estabelece uma tal comunhão com a natureza, consegue uma forma física e espiritual tão boa que não se importa com mais nada e tende a esquecer os outros, os não-surfistas. Fica difícil para um surfista entender como tem gente que não surfa.

 

Pois tem, rapaziada. E esta gente toda tem opinião e nos vê muito diferentes do que somos. A toda mão aparece alguém na imprensa, na televisão, conversando por aí, falando de nossa suposta ignorância, de nossa maneira irreverente, do uso de drogas e da vida de prazeres que levamos – enquanto os outros estão se dando mal, lutando a cada dia.

 

Temos que mudar isto. E esta tarefa é de cada um, de acordo com sua própria cabeça, com os que encontrarem em sua jornada. Temos que levar muito a sério essa missão. Um surfista tem que ser bom atleta, bom nadador, portanto, tem que ter uma vida e uma preparação bem focadas.

 

Tem que ter conhecimento do mar, dos ventos, das correntes, das cores do céu e da água. Não é para qualquer um. Entrar e brincar na parte mais furiosa do oceano, as ondas de arrebentaçãom, foi inicialmente reservado apenas aos nobres, o esporte dos reis.

 

Mas não se trata de nobreza externa. Trata-se de uma força interna que nos faz ver a grandeza da onda e, com humildade e sabedoria, deslizar sobre ela. Não é para pessoas menores, é uma escola de formação de caráter e personalidade.

 

É o melhor esporte que existe. Temos que fazer todos entenderem isto. Assim seremos não só o país do surfe, mas o país dos vencedores do presente.

 

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