Quem assistiu na manhã de sexta-feira à seqüência do Local Motion Guarujá Surf Pro 2008, etapa de nível 5 estrelas do WQS, ouviu do locutor que Antonio Bortoletto, da África do Sul, venceu a terceira bateria, disputada com Bernardo Pigmeu (Pernambuco), Igor Moraes (Rio de Janeiro) e Tony Adams (Estados Unidos).
O que este locutor não deve saber é que Antonio Bortoletto nasceu em São Paulo. O surfista de 28 anos carrega um nome comum para um brasileiro. Sua história, porém, é um pouco diferente da dos demais
conterrâneos.
Com pai brasileiro e mãe sul-africana, Antonio foi morar no continente africano aos 3 anos. “Fomos morar na praia, então surfar era o que tinha para fazer”. De onda em onda, campeonato em campeonato, ele tornou-se campeão sul-africano em 2002.
No WQS, é a quarta participação de Antonio. Ele veio da etapa baiana, onde ficou na 27ª colocação e percebeu algumas semelhanças entre os países onde nasceu e vive. “A Bahia é bonita, mas tem muita pobreza, como a África do Sul. São Paulo é mais realista e Florianópolis parece um paraíso”, define.
Para Antonio, Guarujá e, especialmente, a Praia de Pitangueiras, não são novidade. A sede do Local Motion tem um significado a mais para ele. “Surfei aqui com meu pai (surfista já falecido) e foi aqui também a minha primeira vez em competições no Brasil”.
Brasileiro com olhar de estrangeiro, o atleta consegue ver particularidades no surf nacional e diferenças em relação ao praticado no país que representa. “O surfista do Brasil não pára, pega todas as ondas. O sul-africano tem mais calma, espera a sua vez. Acho que carrega um jeito mais britânico”.
Torcida calorosa Porém, para Antonio, não há nenhuma como a torcida verde e a amarela. “O público aplaude a performance, não o atleta. E dá força mesmo que o atleta não esteja indo bem. Na África do Sul, se você não está bem, as pessoas reparam e não apóiam”.
Ele destaca ainda a imparcialidade dos juízes brazucas e admira a capacidade do povo brasileiro de expressar seus sentimentos.
Quando viaja para cá, o surfista diz que sente necessidade de andar pelas ruas, conversar com as pessoas e provar açaí. “Acho que isso deve acontecer porque nasci aqui. Acabo fazendo também uma viagem cultural. Não fico só focado na competição”.
Não é difícil perceber também a diferença entre as ondas brasileiras e sul-africanas. Segundo Antonio, as do continente africano são mais “limpas”, enquanto as daqui são mais “mexidas”.
Sobre as chances no WQS, o atleta, que conta com o patrocínio de Lizzard e Clayton Surfboards, acredita que são boas, desde que faça o melhor na água.
“Minha fraqueza é que alterno performances muito boas e ruins. Se eu conseguir equilibrar, vou bem. Na bateria da manhã contei muito com a sorte”.
A próxima etapa do WQS será em Durban (África do Sul), de onde Antonio é local. “Sair do país onde nasci para ir ao que moro diz muito para mim espiritualmente”. Viver no Brasil está nos planos de Antonio para os
próximos anos. Se isto acontecer de fato, talvez, nas próximas competições de surf, o locutor saiba que ele também é o Antonio Bortoletto, do Brasil.