
Enquanto finalizava mais uma prancha Custom, percebi que aquela cliente indicava uma tendência esquecida até então. Mostrou que as mulheres estavam, finalmente, voltando a praticar o bodyboard.
No último dia 8 de março foi comemorado o Dia da Mulher e, ao observar aquela prancha, aproveitei para fazer um retrospecto desta categoria que tantos títulos trouxe para o Brasil.
Tom Morey não criou a prancha de bodyboard com o objetivo de colocar sua esposa no mar. E sim descobrir um veículo seguro para surfar, intimando as mulheres a pegar onda com sua invenção, o bodyboard.

Foi o que me contou Craig Libuse, entusiasmado ao ver a performance de Andréa Ferreira durante nossa participação nos eventos da Califórnia em 86.
Ele comprou uma prancha das mãos do próprio Tom para sua esposa, pois ela havia quebrado o dente com sua kneeboard e achou fantástica a novidade de surfar com uma prancha segura e ao mesmo tempo funcional.
Mais tarde, o próprio Libuse comprou a sua e, mais, como amigo e diretor de arte, desenhou o logo que ficou famoso no mundo todo, um bodyboarder unisex, que se misturava ao “power” da onda, de acordo com a solicitação do próprio Tom Morey.

Ao manifestar seu desejo, Tom Morey mais uma vez revolucionou o esporte que criou, unindo homens e mulheres no universal prazer de surfar uma onda.
O próprio Tom Morey iniciou a promoção de suas pranchas por intermédio de eventos, que reunia as categorias Masculina e Feminina.
Foi o caso do primeiro evento realizado na praia de Huntington, na Califórnia, onde a esposa de Libuse, Janis, sagrou-se campeã.
No Brasil não foi diferente, pois desde a criação da primeira Associação de Morey Boogie do Estado do Rio de Janeiro (AMBERJ) que existe a categoria Feminina.

Admiro a Gica, primeira bodyboarder do Brasil, desde quando a conheci na praia do Leme em 1980. Hoje, ela ainda passa aquele mesmo entusiasmo que a fez participar do primeiro evento em Piratininga em 83, com 15 homens e só ela de mulher, aos seus filhos.
Foi com esse espírito que Gica liderou no início dos anos 80 a formação de um grupo de atletas que mais tarde culminou na categoria feminina e em seu primeiro evento em setembro de 1984.
Este evento reuniu dez atletas, ganhou força e estimulou nomes de peso que já praticavam o esporte, mas não tinham o desejo

de competir como Ana Letícia (windsurfista) e Cláudia Ripper (triatleta).
Grandes nomes que marcaram presença, como Evelyn Levy, Márcia Marinho, Andréa, Daniela Figueiredo, entre outras, foram importantes para o desenvolvimento dos primeiros passos da categoria no Brasil.
Com a popularidade do esporte e a inusitada participação das mulheres em um território ainda restrito ao sexo “frágil”, pois o surfe tradicional era um esporte praticamente difundido entre os homens, o bodyboard ganhou notoriedade.

Depois do famoso Vansport/Morey Boogie, evento realizado em dezembro de 84, na praia do Quebra-Mar, no Rio, o bodyboard ganhou espaço na grande mídia impressa e televisiva.
Uma nova geração de meninas invadiu as ondas e estabeleceram um marco histórico no bodyboard e também, porque não dizer, no surfe.
Pois, até então, nunca se tinha ouvido falar de tamanha participação de mulheres ligadas às ondas e ao prazer de surfar como houve, por intermédio do bodyboard.
O ano seguinte, 85, não seria diferente. A

realização do ‘Campeogatas de Bodyboard’, idealizado pelo fotógrafo Rogério Erlinch, serviu para que as mulheres encarassem de vez a responsabilidade que tinham nas mãos, de serem vistas pelo público como atletas ou mais uma vez como objetos de exploração da mídia e publicidade.
O evento trouxe participantes de diversos Estados, principalmente de São Paulo, que junto com a chegada de uma novíssima geração de meninas compôs o cenário de belas participantes atraidas pelo esporte.
Naquele evento, uma grande jovem, não só no tamanho, mas também na atitude, seria destaque.

Conheci a punk bodyboarder France Hazar, quando realizei a primeira reunião da Amberj na Marina da Glória.
Ela havia se hospedado na casa de Kiko Pacheco e, era com certeza, apesar de sua aparência e de seu ratinho de estimação, uma mulher incrível.
Hazar revoltou-se contra o evento ao perceber que as lentes dos fotógrafos e a mídia estavam focadas nas bundas e contornos das atletas e não para suas performances dentro da água.
Sem dúvida, aquela atitude foi constrangedora e a própria France reconheceu isso, mas todos os

envolvidos, inclusive eu, enxergaram o verdadeiro caminho a ser seguido pelo bodyboard feminino.
Desde aquele evento, as ‘verdadeiras’ bodyboarders começaram a se diferenciar. Ao invés de usarem biquínis fio dental, começaram a usar roupas apropriadas para a prática do esporte.
Com isso, os fotógrafos puderam enxergar que além de lindas mulheres existiam também excepcionais atletas. O espaço na mídia aumentou e todos saíram ganhando com isso, aproveitando os dois lados da moeda, de forma inteligente e profissional.

A realização de grandes eventos em nível nacional e, posteriormente, a criação da ABRASB – Associação Brasileira de Bodyboard, em 88, fez surgir talentos de quase todas as regiões do país, durante quase toda a segunda década de 80.
Do Rio, a imbatível lista de campeãs com Glenda Kozlowski, Mariana e Isabela Nogueira, Stephanie Pettersen, Leila Alli, Christine Trovão, Eloísa Pitty, Laila, Cris de Lamare, Débora Sarmento, Roberta Millazo, Endyara Mendonça etc. Do Sul, as irmãs Tanira e Andréia Guimarães, além da primeira mulher a ser presidente de uma Associação, Cláudia Costa, Lúcia, entre outras.

Do Nordeste, Alagoas, as irmãs Bianca e Juliana Andrade. De São Paulo, Sandra Ferraz, Cláudia Ferrari, Cláudia Sabóia, France Hazar, Nina, Flávia Boturão etc.
A lista é imensa e repleta de atletas que, mesmo não tendo se destacado tanto nas competições, foram essenciais para demonstrar o alcance que o bodyboard representava como esporte na vida das mulheres.
Essas mulheres, juntamente com outras grandes atletas, se uniram e oficializaram em 1989 a categoria profissional feminina. Uma atitude inédita que oficializou também o bodyboard profissional feminino mundialmente, uma necessidade, já que as brasileiras demonstravam superioridade competitiva, desde sempre.
Falar destas atletas, sem falar das mulheres que mesmo não estando no foco das lentes ajudaram o bodyboard a ser considerado um esporte, é no mínimo omissão.
Dessas fantásticas mulheres, destacaria algumas que tive o prazer de conhecer e de trabalhar junto. Caso de Lívia Acioly; Adriana e Mônica da Redley, marca que foi lançada através do bodyboard em 85; Evelyn Levy que ajudou na criação e desenvolvimento do circuito brasileiro e da Abrasb; Célia Almudena, primeira jornalista a escrever uma matéria sobre o bodyboard brasileiro na revista norte-americana Bodyboarding e que comandou a revista Fluir Bodyboard; e Anita Bernstein, nossa incrível assessora de imprensa que colocou na mídia nacional a primeira viagem da equipe brasileira ao Hawaii em 85.
O bodyboard, sem dúvida, aqui no Brasil alcançou o objetivo de Tom Morey: unir ambos os sexos no prazer de surfar. E foi além, mostrou que a mulher é essencial na estruturação e organização de qualquer esporte.
Naquela época, a participação das mulheres se tornou tão marcante, que a mídia chegou a classificar o esporte como feminino – mesmo que o número de praticantes entre ambos os sexos não ultrapassasse a proporção de 60 a 70% de homens, contra 40 ou 30% para a categoria feminina.
O fato é que as mulheres foram peças fundamentais na implantação do bodyboard e muito mais viria na década de 90, até os dias de hoje. É só aguardar e conferir.
Vejo vocês n’água!
