Muitas pessoas olham para o circuito mundial da ASP e enxergam uma tribo de robozinhos pseudo-rebeldes, competindo entre si para levar pra casa boladas em dinheiro, fama e mais os adjetivos que todo esse glamour pode trazer.
Vez ou outra aparecem ovelhas-negras nesse rebanho que nos surpreendem com declarações bombásticas de contra-cultura, insatisfação ou mesmo depressivos com pouca ou nenhuma noção do que dizem.
Muitos saíram do Tour, foram ser free surfers, outros falaram, falaram e acabaram retornando ao circo, mesmo que a contragosto. Afinal o dinheiro grosso mesmo ainda está nas premiações da ASP. Viver como asteróide desse sistema ainda é para poucos.
Eis que me deparo com uma entrevista de Bobby Martinez no site da Channel Islands Surfboards que foge um pouco dos padrões e que o transforma de um pseudo-rebelde para uma metralhadora giratória.
Para começo de conversa, o ianque não deu as caras em J-Bay e nem no Tahiti e ainda deixa claro que não está nada contente com o Tour, com a atmosfera dos campeonatos e, sobretudo, não está de acordo com o novo formato de corte no meio do ano.
Acertadamente, Bobby analisa que “os surfistas que vêm da divisão de acesso não têm chance de ganhar o título mundial, mal começam a sentir o gostinho do Tour e muitos provavelmente cairão fora no final do ano”.
Bobby diz que acha injusto que os surfistas que atualmente estão perdendo as baterias no WT ainda possam se requalificar, ou mesmo se manter no WT por meio do QS. Ele usa a si mesmo como exemplo: “Este ano perdi para Taj e Jordy Smith, uns dos melhores caras, tudo bem se eu não me requalificar, posso conviver com isso. O One World Ranking é errado e é por isso que eu o odeio”.
Além disso, o americano critica algumas justificativas dadas pela ASP para diminuir o número de atletas para somente 32 por etapa: “Disseram que com 32 surfistas levariam apenas três dias para executar o evento, mas eu ainda acho que estão levando quatro dias de qualquer maneira”.
A metralhadora de Bobby não pára por aí. Pelo contrário, quando questionado se os representantes dos surfistas junto à ASP também votam sobre as mudanças e são sempre consultados, ele dispara: “Os representantes dos surfistas vão para as reuniões da ASP dizendo que fazem alguma coisa, mas não fazem! Eles não falam por mim, falam por si mesmos! Nunca recebi um e-mail de alguém e tenho ido às reuniões expressar minha opinião, mas ao final do dia é uma maioria de votos, portanto, nada vai acontecer se não tivermos uma maioria de votos de quem quer mudar! É somente muita politicagem! Pelo menos é o que vejo de dentro!”.
Indagado se tem alguma coisa contra quem organiza o Tour da ASP, ele enfatiza: “Nada tenho contra ninguém, não falo com ninguém lá, somente com o Renato Hickel, eu adoro ele! Ele é muito legal e sempre me tratou muito bem. Eu só não gosto da ASP como um todo, não gosto da direção em que estão indo”.
De patrocínio novo, a marca FTW, Bobby diz que vai disputar a etapa em New York somente para ajudar a divulgar a empresa.
Com base em NY, a marca usa a sigla FTW para apoiar diversas frentes, não só do surf ou MMA (Fight To Win), mas humanitárias como “Fight Terrorism Worldwide” (combate mundial ao terrorismo), que apoia famílias de soldados americanos.
Só que Martinez deixa bem claro que esta será sua última aparição no Tour deste ano. A menos que algo mude. Isso reflete totalmente o descontentamento do atleta e é mais uma bomba disparada na entrevista.
O entrevistador Travis Lee também questiona se Bobby anda infeliz e negativo nesses últimos dois anos, e ainda sugere que esse motivo tenha a ver com um aumento de percepção e de consciência. Bob revela que sim, que no começo do ano, na Gold Coast Australiana, ele conheceu um cara chamado Gavin Topp, que abriu sua mente para vários pontos que até então ele não tinha notado e o fez sacar que não estava feliz.
O americano também tem revelado uma negatividade muito forte e desabafado pesado em seus tweets, inclusive usando palavrões. Mas ele mesmo explica que esta é uma forma de se expressar e que usaria esta linguagem na cara de quem fosse.
E acrescenta que outros surfistas também estão descontentes e dizem isso para ele. Diante disso, ele não se importa em ser o porta-voz desse descontentamento.
Contraditoriamente, Bobby se diz feliz e afirma que espera somente por uma mudança no formato do Tour para que ele possa mostrar seu surf.
Para finalizar, ele ainda ironiza: “Se quisesse agradar a todos eu pintaria meu cabelo de loiro, vestiria um jeans agarradinho, colocaria lentes azuis e só diria ‘sim’. Apenas tento ganhar a vida para alcançar meus objetivos. Esse é o mundo real, as pessoas não são perfeitas onde quer que você vá!”. (Colaborou Hakim Al-Qureshi).
Clique aqui para ler a entrevista completa no site da Channel Island