SuperSurf

Bino é campeão

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O primeiro título de um baiano em etapas do SuperSurf foi conseguido na final contra o experiente bicampeão brasileiro Leonardo Neves na praia da Joaquina (SC).
 Foto: Pedro Monteiro / Divulgação Super Surf

O baiano Bino Lopes, 27 anos, conquistou um título inédito para o seu estado neste domingo com a vitória sobre o experiente carioca Leonardo Neves, 35 anos, na decisão do Oi SuperSurf de Florianópolis na ensolarada Praia da Joaquina, em Santa Catarina. Ele foi o primeiro surfista da Bahia a vencer etapas da principal competição do circuito da Associação Brasileira de Surf Profissional (ABRASP). Bino surfou a melhor onda da bateria para faturar o prêmio máximo de 15 mil Reais e subir da 22.a para a segunda posição no ranking, que continua com o paulista Flavio Nakagima na frente. No entanto, a disputa do título agora está embolada, com a diferença entre o líder e o nono colocado não chegando a 2.000 pontos. São vários surfistas com chances de ser campeão brasileiro na última etapa do Oi SuperSurf 2015, nos dias 7 a 11 de outubro na Praia de Itaúna, em Saquarema (RJ). 

“Estou até sem palavras, é muita emoção. Este último mês tem sido incrível para mim porque eu consegui uma vitória no Circuito Mundial lá na França (QS 1500 em Anglet) duas semanas atrás, agora aqui também e só tenho que agradecer a Deus, meus amigos, família, patrocinadores e todas as pessoas que estão sempre comigo nas horas ruins e nas horas boas”, disse Bino Lopes. “Hoje (domingo) Deus me abençoou para conseguir pegar boas ondas nas baterias. Eu sabia que a final ia ser incrível, porque o Leo Neves é um grande ídolo nacional, já foi do WCT e é um cara muito experiente que eu assisto desde criança. Eu fiz uma estratégia de pegar as esquerdas e deu certo, finalizei com um 8,5 que me garantiu a vitória”.

Com os 6.000 pontos recebidos no Oi SuperSurf de Florianópolis, Bino Lopes entrou na disputa direta pelo título brasileiro, que não é conquistado por um surfista da Bahia desde os tempos de Jojó de Olivença, campeão em 1988 e 1992. Bino também foi o primeiro baiano a vencer etapas do SuperSurf em toda a história da competição que promoveu o circuito nacional mais rico do mundo entre 2000 e 2009 e retornou agora com o patrocínio da Oi e da marca de surfwear Smolder, com participação de Furnas. A decisão do título só não foi mais emocionante porque faltaram ondas na Praia da Joaquina para os dois competidores mostrarem o surfe que os levaram até ali.

“Infelizmente aconteceu isso de não entrarem muitas ondas boas na bateria, o que acontece porque nosso esporte depende da Natureza. Mas, já estava sendo agonizante desde as baterias anteriores”, destacou Bino Lopes. “Estava realmente bem difícil, o intervalo entre as séries muito alto, mas deu tudo certo para mim. Hoje era o meu dia e agora é ir com muita confiança para a próxima etapa em Saquarema. Eu costumo surfar bem lá nas esquerdas da Praia de Itaúna e espero manter o ritmo para conquistar outro bom resultado, mas sem botar pressão por estar em segundo no ranking agora”.

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Bino Lopes, Praia da Joaquina (SC). Foto: Pedro Monteiro / Divulgação Super Surf


Decisão do título
A grande final começou depois de uma homenagem à Vilma, a “Mãe dos Surfistas” que morava na Praia da Joaquina e faleceu esse ano. A decisão do título foi inaugurada pelo carioca Leonardo Neves numa esquerda que abriu a parede para ele fazer três manobras e largar na frente com nota 6,17. Bino Lopes logo faz sua primeira apresentação também nas esquerdas da Joaca e recebe 5,17. Não demorou e o baiano pegou a segunda onda antes do carioca para tirar 5,60 e assumir a liderança. 

Enquanto Leo Neves preferiu aguardar pela entrada de ondas melhores, Bino optou em ficar mais ativo, arriscando em todas até achar uma esquerda que armou a parede para ele desferir uma série de três manobras potentes de backside e arrancar 8,5 dos juízes, abrindo uma larga vantagem de 7,94 pontos sobre o carioca. O tempo foi passando e a situação era a mesma quando soou o sinal dos 5 minutos finais da bateria. Só que não entrou mais nada de onda e a primeira vitória de um baiano na história do SuperSurf foi confirmada por 14,10 a 8,90 pontos.

“Pena que o vento ficou muito forte durante a bateria e o pico que eu tava surfando não deu mais onda. O Bino (Lopes) deu sorte porque a gente estava fugindo mais pro meio da praia e entrou uma onda muito boa para ele que foi decisiva na bateria”, contou Leonardo Neves. “Depois eu boiei bastante com a prioridade, achando que ia vir uma onda boa e acabou que não veio, mas estou feliz pelo resultado. Foi um campeonato longo, cheguei aqui domingo passado e estou amarradão por ter chegado na final com a galera da nova geração arrebentando, mostrando que o Brasil tem um alto nível de surfe. Só falta a galera apoiar os atletas para eles conseguirem chegar no WCT e realizarem o sonho que eu já vivi anos atrás”.

A busca do Tri
O carioca bicampeão brasileiro em 2002 e 2003 durante a década de ouro do SuperSurf no Circuito Brasileiro entre 2000 e 2009, relembrou a última vez que fez uma final na carreira. Leo Neves agora passa a ter chances de tentar igualar um feito histórico do paranaense Peterson Rosa, único que conseguiu o título brasileiro três vezes, em 1994, 1999 e em 2000, no primeiro do SuperSurf. Além de Léo Neves, o cearense Messias Felix, número 1 do Brasil em 2009 e 2012, também está na mesma batalha e os dois se enfrentaram na disputa pela segunda vaga na final do Oi SuperSurf de Florianópolis.

“A última vez que eu tinha feito uma final foi no ano retrasado numa etapa do Circuito Carioca. No ano passado a gente não teve o circuito e eu acabei não competindo nos outros estaduais que valiam pontos para o Brasileiro. Com a volta do SuperSurf eu me animei de novo para voltar a competir, então esse ano eu comecei o circuito entrando na primeira fase e aqui nesta etapa eu já consegui mais pontos para entrar só no terceiro rounde, o que já me deixou bem feliz. Em Saquarema eu devo entrar mais na frente ainda e esse era o meu objetivo, crescer no ranking para estar neste grupo no ano que vem e continuar participando dessa nova história do SuperSurf com o patrocínio da Oi”.

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Leonardo Neves, Praia da Joaquina (SC). Foto: Pedro Monteiro / Divulgação Super Surf


O caminho da final
Para chegar na grande final do Oi SuperSurf de Florianópolis, os dois tiveram que enfrentar as difíceis condições do mar do domingo na Praia da Joaquina três vezes. Bino Lopes entrou na segunda bateria do dia e derrotou o capixaba Krystian Kymerson, um dos quatro surfistas que tinham chances matemáticas de tirar a primeira posição no ranking do paulista Flavio Nakagima. Os dois barraram um dos concorrentes, o baiano Marco Fernandez, além do pernambucano Gabriel Farias. Depois, Bino despachou uma das surpresas desta etapa, o paraibano José Francisco, nas quartas de final e acabou com a possibilidade de Kymerson assumir a ponta derrotando-o nas semifinais.

Já o carioca Leonardo Neves ganhou a disputa pelas duas últimas vagas para as quartas de final superando três talentos de gerações mais novas do que a dele, o paulista Jessé Mendes, o pernambucano Alan Donato e o paulista que estava na briga pela liderança do ranking, Thiago Guimarães. Na disputa seguinte, acabou com as chances de outro concorrente no confronto de bicampeões brasileiros com o cearense Messias Felix. E ainda surpreendeu ao superar o recordista absoluto de nota e pontos do Oi SuperSurf de Florianópolis, o paulista Caio Ibelli, que na fase anterior tinha conseguido a primeira nota 10 do ano num tubaço nas direitas da Joaquina.

Primeiro 10 do ano
Nas duas primeiras etapas do Oi SuperSurf no litoral norte de São Paulo, a maior nota foi o 9,93 recebido pelo catarinense Willian Cardoso na Praia Grande de Ubatuba. Já o primeiro 10 do ano saiu na manhã do domingo em Florianópolis, com Caio Ibelli garantindo a vitória no duelo mais espetacular da semana na Ilha da Magia com um tubaço incrível nas direitas da Praia da Joaquina. Com a nota máxima no último minuto, Caio virou o placar para 18,40 a 16,77 pontos sobre o também paulista Jessé Mendes, mas não conseguiu superar a maior pontuação do Oi SuperSurf 2015, recorde que permanece com o jovem ubatubense Weslley Dantas, que registrou 18,53 pontos na segunda etapa em Ubatuba.

“Estou feliz da vida e agradeço a Deus por ter mandado aquela onda incrível faltando 30 segundos para terminar a bateria”, disse Caio Ibelli. “Hoje (domingo) só tinham esquerdas e consegui achar uma direita que rodou um tubão mesmo, para fazer a maior nota do evento. Estou muito feliz por ter tirado o primeiro 10 do ano no Oi SuperSurf. O mar está um pouco difícil hoje, mas tem altas ondas, só precisa estar no lugar certo na hora certa para pegar as melhores das séries e eu fui premiado com aquela direita ali que me garantiu a vitória”.

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Caio Ibelli, Praia da Joaquina (SC). Foto: Pedro Monteiro / Divulgação Super Surf


Liderança do ranking
Quatro surfistas tinham chances matemáticas de tirar a liderança do ranking brasileiro do paulista Flavio Nakagima no último dia do Oi SuperSurf de Florianópolis, mas ninguém conseguiu a colocação que precisava para isso. O primeiro a cair foi o baiano Marco Fernandez, barrado por outro concorrente, o capixaba Krystian Kymerson, no confronto vencido pelo campeão Bino Lopes na rodada que abriu o domingo decisivo na Ilha de Santa Catarina. Duas baterias depois, ainda pela sexta fase da competição, o paulista Thiago Guimarães também saiu da briga na disputa pelas duas últimas vagas para as quartas de final, que ficaram com o carioca Leonardo Neves e o paulista Jessé Mendes.

Os outros dois passaram pelo primeiro desafio e Krystian Kymerson seguiu com chances derrotando o campeão da última edição do SuperSurf na Praia da Joaquina em 2008, o catarinense Willian Cardoso, na abertura das quartas de final. Já o cearense Messias Felix perdeu o duelo de bicampeões brasileiros com Leonardo Neves e acabou barrado pelo carioca. Com isso, só restou Krystian Kymerson, que precisava vencer a etapa de Santa Catarina para ultrapassar Flavio Nakagima, mas foi eliminado pelo baiano Bino Lopes numa bateria fraca de ondas que decidiu o primeiro finalista.

“Estou feliz pelo terceiro lugar também. O mar ficou difícil, piorou muito, quase não veio onda, mas consegui um bom resultado e parabéns ao Bino (Lopes) que achou uma onda ali que foi a melhor da bateria”, disse Krystian Kymerson, que assumiu o terceiro lugar no ranking e entrou na briga direta pelo título brasileiro. “Agora é focar para a próxima etapa em Saquarema (RJ) e tomara que dê boas ondas para que tenha um show de surfe lá na Praia de Itaúna. Me aproximei da liderança, mas ainda tem muita coisa para acontecer, então é treinar, se concentrar e esperar para ver no que vai dar”.

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Krystian Kymerson, Praia da Joaquina (SC). Foto: Pedro Monteiro / Divulgação Super Surf


Resultados do domingo
Campeão: Bino Lopes (BA) por 14,10 pontos (notas 8,50+5,60) – R$ 15.000,00 e 6.000 pontos
Vice-campeão: Leonardo Neves (RJ) com 8,90 (notas 6,17+2,73) – R$ 9.000 e 5.160 pontos

Semifinais – 3.o lugar com 4.380 pontos e R$ 4.500,00 de prêmio:
1.a: Bino Lopes (BA) 8.10 x 7.63 Krystian Kymerson (ES)
2.a: Leonardo Neves (RJ) 14.70 x 6.20 Caio Ibelli (SP)

Quartas de final – 5.o lugar com 3.660 pontos e R$ 2.250,00 de prêmio:
1.a: Krystian Kymerson (ES) 11.44 x 6.33 Willian Cardoso (SC)
2.a: Bino Lopes (BA) 11.93 x 7.34 José Francisco (PB)
3.a: Caio Ibelli (SP) 18.40 x 16.77 Jessé Mendes (SP)
4.a: Leonardo Neves (RJ) 15.50 x 9.63 Messias Felix (CE)

Sexta fase – 3.o=9.o lugar (R$ 1.500 e 3.000 pontos) / 4.o=13.o lugar (R$ 1.200 e 2.700 pts):
1.a: 1-Willian Cardoso (SC), 2-José Francisco (PB), 3-David do Carmo (SP), 4-Luel Felipe (PE)
2.a: 1-Bino Lopes (BA), 2-Krystian Kymerson (ES), 3-Marco Fernandez (BA), 4-Gabriel Farias (PE)
3.a: 1-Caio Ibelli (SP), 2-Messias Felix (CE), 3-Renato Galvão (SP), 4-Franklin Serpa (BA)
4.a: 1-Leonardo Neves (RJ), 2-Jessé Mendes (SP), 3-Alan Donato (PE), 4-Thiago Guimarães (SP)

Top-20 do ranking Brasileiro da ABRASP – 8 etapas:
1.o: Flavio Nakagima (SP) – 11.995 pontos
2.o: Bino Lopes (BA) – 11.550
3.o: Krystian Kymerson (ES) – 11.040
4.o: Jihad Kohdr (PR) – 10.710
5.o: Charlie Brown (CE) – 10.580
6.o: Tomas Hermes (SC) – 10.270
7.o: Thiago Guimarães (SP) – 10.200
8.o: Hizunomê Bettero (SP) – 10.052
9.o: Marco Fernandez (BA) – 10.010
10: Messias Felix (CE) – 9.720
11: Willian Cardoso (SC) – 9.615
12: Thiago Camarão (SP) – 9.330
13: Leonardo Neves (RJ) – 9.240
14: Ian Gouveia (PE) – 8.470
15: Alex Ribeiro (SP) – 8.390
16: Deivid Silva (SP) – 8.335
17: David do Carmo (SP) – 8.290
18: Saulo Junior (SP) – 7.915
19: Alan Jhones (RN) – 7.700
20: Alandreson Martins (BA) – 7.660
——mais 174 surfistas já pontuaram no ranking 2015 

Enquanto alguns fotógrafos documentam a história, Fedoca Lima fez diferente: viveu dentro dela enquanto fotografava. Carioca do Posto 5, começou a surfar com 11 anos e a fotografar quase ao mesmo tempo, com uma máquina fotográfica alemã do pai. Aos 14, registrou a Rainha Elizabeth passando de Rolls-Royce aberto pela orla de Copacabana, em frente à casa do Assis Chateaubriand. No mesmo período, fotografou o Mick Jagger dando o dedo do meio no Copacabana Palace. Não era fotógrafo profissional. Era um moleque com olho bom e câmera na mão, sem perceber ainda o tamanho do que estava construindo. O que veio depois é história do surfe brasileiro. O Píer de Ipanema nos anos 70, quando o Rio era o centro do surfe nacional, com Daniel Friedmann, Pepê Lopes, Rico de Souza e Ricardo Bocão dominando o circuito. A Brasil Surf, primeira revista especializada do país, na qual Fedoca jogou em todas as posições: fotógrafo, redator e capa. O Havaí entre 1978 e 1981, surfando e fotografando ao lado de Gerry Lopez, Shaun Tomson e Michael Ho em Pipeline e Waimea. Os shows históricos, de Bob Marley ao ar livre no Havaí até Rolling Stones e Paul McCartney no Maracanã. “A foto que eu não tirei, essa me persegue.” Fedoca Lima Mais de cinquenta anos depois, esse arquivo vira livro. “Surf, Clicks e Rock’n Roll” tem 220 páginas, cerca de 180 fotografias e percorre a transformação do surfe brasileiro desde a era analógica até o digital, passando por Arpoador, Saquarema, Havaí, Califórnia e Macumba. Com captação aprovada de R$ 203 mil via incentivo cultural e apio da Fu Wax, o lançamento está previsto para o segundo semestre de 2026. Conversamos com Fedoca sobre tudo isso. Antes de se consolidar como fotógrafo, você também virou personagem da própria história do surfe brasileiro ao sair na capa da Brasil Surf em 1975. Como foi viver aquele momento por dentro? Saí na capa da Brasil Surf. Na época eu trabalhei na revista de março de 75 até janeiro de 79, só não peguei o primeiro número. Jogava todas as posições: saí na capa, escrevia, tirava foto, ajudava na redação, dava palpite, fazia matéria. Por muito tempo achei que era o único fotógrafo de surfe que tinha saído numa capa. Depois o Bruno Alves me falou que o irmão dele, o Alberto, saiu na capa da Fluir número 1. A história dele bate um pouco com a minha: ele pegava onda, saiu na capa, era fotógrafo. Mas durante anos eu achei que era caso único. Até hoje tem um restaurante aqui que o cara pediu, eu tirei uma foto com a revista na mão, ele botou na parede, eu assinei. A influência continua. A Brasil Surf ajudou a mudar a imagem do surfista no Brasil. Como era ser surfista naquela época, antes dessa mudança de percepção acontecer? O surfe saía no caderno B do Jornal do Brasil, do Globo. Não saía no esporte. E o surfista era tido como vagabundo de praia. Maconheiro. Isso, aliás, até hoje tem um pouco, mas na época tinha muito mais. A Brasil Surf não vou dizer que limpou essa imagem completamente, mas ajudou a transformar o surfe em esporte e também a fomentar o mercado de surfwear. Os irmãos Wady e Fuad Mansur, da loja Mansur, em Ipanema, foram dos primeiros anunciantes. Acreditaram na revista, fizeram anúncios de contracapa e página inteira, e as camisetas personalizadas vendidas pelo correio viraram um sucesso. A Brasil Surf acabou impulsionando fabricantes de pranchas, calções, parafinas e diversos outros anunciantes ligados ao surfe. Os fabricantes de prancha tinham um veículo para anunciar. Os fotógrafos ganhavam uma graninha, viajavam. Fui para a América Central, Porto Rico, Barbados, El Salvador, Fernando de Noronha, Peru, várias viagens bancadas pela Brasil Surf de uma forma ou de outra. O Nilton Barbosa foi ao Havaí duas vezes bancado pela revista. No caso dele, eles bancavam os filmes, ele vendia as fotos e a viagem se pagava. Tinha uma diferença entre mim e o Nilton nessa época: ele chegava na praia e ficava na areia fotografando, fotografando, fotografando. Eu chegava e ia para dentro da água. Se não estava o Daniel, não estava o Pepê, não estava o Cauli, não estava o Bocão, não estavam os caras top, eu entrava e surfava. Então tem foto minha na Brasil Surf publicada pelo Nilton Barbosa, pelo Rogério Ehrlich. Eu estava mais dentro da água do que fora. Eu estudava. Primeiro vestibular, depois faculdade. Boa parte dos meus amigos só queria saber de surfar. Eu dividia meu tempo. Chegava na praia, já tinha estudado de manhã, aí ficava naquele dilema: vou pegar onda ou vou fotografar? Por isso tem poucas fotos do Píer. Em três anos não tirei nem metade do que tiro hoje num dia bom na Macumba com o digital. Você viveu o Píer, a Brasil Surf, o Havaí dos anos 70, o nascimento do surfe brasileiro moderno. Em que momento percebeu que estava no meio de uma transformação cultural que iria muito além do esporte? O Píer foi o que fomentou o surfe no Rio de Janeiro. Por dez anos, foi domínio completo do Rio no cenário brasileiro. O Daniel Friedmann, em 77, foi o último carioca a vencer uma etapa do circuito internacional, ganhou no Quebra-Mar, em cima do Pepê Lopes, que tinha ganho em 76. Os dois de Ipanema, meus vizinhos de rua. E esse pessoal do Píer que dominou, o Daniel, o Pepê Lopes, o Cauli Rodrigues, e também o Otávio Pacheco, o Rico de Souza, o Ricardo Bocão. E tinha o Betão, que era o melhor surfista do Brasil na época mas não era competitivo, não corria atrás de patrocinador, acabou saindo cedo. Em 75 ele ganhou o Campeonato de Saquarema e foi saindo, saindo. O Píer influenciou a revista, influenciou os fabricantes de prancha, influenciou o modo de viver. Começaram a ter fábricas em Guaratiba, Vargem Grande, no Recreio, depois em Saquarema. As pessoas foram morar lá. O Penho foi, o Otávio comprou

O que define uma boa onda? Tamanho, força, parede, qualidade da linha, formação e surfabilidade, dentre outros elementos. No oceano, todos esses fatores mudam a cada swell, a cada vento, a cada maré. Em Búzios, a proposta é diferente: construir essas variáveis de forma controlada, repetível e ajustável. A piscina do Brasil Surfe Clube Aretê Búzios opera com a tecnologia Endless Surf, do grupo canadense WhiteWater, com 48 câmaras de ar de alta precisão. O sistema permite criar configurações distintas dentro da mesma estrutura. Dentro de um universo de grandes possibilidades, as cinco primeiras ondas já foram nomeadas e reveladas, cada uma com perfil próprio, e muito mais ainda está por vir. Onda #01: Pointbreak + Junção Linha longa, seções conectadas, tempo de onda que pode ultrapassar 25 segundos. A junção encadeia diferentes partes da onda sem perder velocidade, criando uma das experiências mais difíceis de encontrar no oceano com consistência. Para quem quer mais de 10 manobras na mesma onda ou simplesmente mais tempo de linha para ler e decidir. Onda #02: Manobras + Bowl A parede fica mais íngreme. O bowl abre seções críticas para manobras verticais e aéreos. É o ambiente para quem quer empurrar os limites do que consegue fazer sobre a prancha, com repetição suficiente para transformar cada tentativa em aprendizado real. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Onda #03: Rampa + Tubo Uma onda que combina duas experiências na mesma seção. A rampa prepara o surfista para a manobra e o tubo roda na sequência. Para quem quer encaixar um aéreo e ainda sair do tubo na mesma onda, essa configuração entrega os dois elementos sem precisar escolher. Onda #04: Rampa Nível Intermediário Parede consistente, menor intensidade, mais previsível. A configuração certa para quem está desenvolvendo manobras progressivas e precisa de repetição para consolidar o que está aprendendo. A seção cria a rampa no ângulo certo, com velocidade suficiente para executar sem exigir o nível avançado. Onda #05: Rampa Nível Avançado Mais potência, mais velocidade, mais projeção. A rampa avançada é para quem já chegou em Búzios com manobras no repertório e quer testá-las com pressão real. Com capacidade para gerar até 700 ondas por hora, o intervalo entre uma tentativa e outra é curto o suficiente para transformar cada sessão em treino de alto rendimento. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Para todos os níveis As cinco configurações cobrem desde quem está aprendendo até quem treina em alto rendimento. A piscina ainda opera em dois modos: single peak, com ondas quebrando para um lado e maior extensão de linha, e split peak, com direitas e esquerdas simultâneas, permitindo que surfistas compartilhem a mesma série em direções opostas. Yago Dora, campeão mundial de surfe em 2025, Victor Bernardo, um dos maiores freesurfers da atualidade, e Michelle des Bouillons, referência mundial em ondas gigantes, integram o time do BSC e já testaram a tecnologia na piscina Adrena Red Sea, na Arábia Saudita. “Muito animal esse lance de ter essa variedade de onda também. Um leque de ondas absurdo. Mal posso esperar para Búzios”, disse Victor Bernardo após a sessão. A versão de Búzios será maior: 48 câmaras contra 36 da estrutura do Mar Vermelho, com 13 mil metros quadrados de lâmina d’água. Variedade de ondas para testar, arriscar, aprender e evoluir todos os dias. Com inauguração prevista para o segundo semestre de 2026, é o que o Brasil Surfe Clube Aretê Búzios chega para entregar.

Pedro Bettencourt Müller nasceu no Rio de Janeiro, no dia 21 de julho de 1966, num ambiente familiar que respirava praia. Seu pai, Guilherme Xavier de Brito Müller, economista e morador do Leblon, cresceu frequentando a Zona Sul. Sua mãe, Maria Isabel Bettencourt Müller, criada em Santa Teresa, compartilhava da mesma paixão pelas praias. Para o casal, fim de semana e férias tinham destino certo: areia, sol e mar. Foi assim que Pedro e o irmão, Guilherme, passaram a infância seguindo os pais para o meio da Barra ou para São Conrado, ainda de estradas de terra, sem prédios, calçadões ou qualquer urbanização. Nesse cenário quase intocado, Pedro foi se encantando pelas ondas. Lembra-se de observar alguns surfistas solitários no meio da Barra e sentir-se hipnotizado pela habilidade deles. O mar, desde cedo, era o lugar onde queria estar. Ele recorda também a rotina da infância: ia para as aulas de natação no Clube de Regatas Flamengo e, depois, caminhava até o judô, no Leblon, um trajeto longo para uma criança de 12 anos. Antes de entrar no tatame, sentava-se no calçadão para olhar o mar quebrando, entregue à mesma fascinação que o acompanharia por toda a vida. O mar lhe transmitia paz, calma e propósito. Ali, ainda menino, já entendia que queria se tornar surfista. A mudança para São Conrado, por volta dos 14 ou 15 anos, foi decisiva. Morando ao lado do Pepino, Müller muitas vezes cabulava a aula pra ir surfar. As ondas triangulares, rápidas e pesadas da região se transformaram no seu campo de treinamento permanente. Ali, guiado pela referência de Rony Lima e pela evolução proporcionada pelas pranchas dos shapers Rico e Pedro Battaglin, deu um salto técnico marcante. A “biquilha mágica” 5’4″ de Battaglin é lembrada até hoje como uma das grandes viradas em seu surfe, época em que adotou o apelido de “o Águia”, pela tatuagem no braço. Uma nova mudança, motivada pelo desemprego do pai, levou a família para a Barra. Para Müller, foi a oportunidade perfeita: entre o Postinho, o meio da Barra e o Quebra-Mar, encontrou três ondas consistentes e acessíveis a pé, permitindo treinos diários que aceleraram ainda mais sua evolução. Nessa fase, destacou-se nos campeonatos da ASBT – Associação de Surf da Barra da Tijuca – e entrou para a promissora equipe da Cristal Graffiti. Antes disso, havia vencido seu primeiro campeonato no Leblon, organizado por Marcelo Peninha, vitória que marcou sua confiança rumo ao profissionalismo. Os resultados na categoria Júnior renderam um prêmio decisivo: uma passagem para o Havaí. Aos 18 anos, Müller viveu sua primeira temporada no North Shore (1984/85), dividindo casa com surfistas brasileiros experientes. Pipeline, logo no primeiro dia, foi seu batismo de fogo: mar pesado, adrenalina no limite e a certeza de que o treino no Pepino o havia preparado para aquele cenário. De volta ao Brasil, enfrentou dificuldades para manter regularidade como profissional. A grande virada veio com o curso de meditação transcendental feito ao lado de Rodolfo Lima. O impacto competitivo foi imediato: venceu a etapa profissional do Quebra-Mar no circuito carioca, em 1986, e passou a frequentar pódios de forma consistente. A regularidade, marca registrada de sua carreira, nasceu ali. Em 1987, tornou-se vice-campeão do primeiro Circuito Brasileiro de Surf Profissional. Liderou boa parte da temporada, foi vice-campeão na etapa da Lightning Bolt e, depois, campeão no Fico Festival. Só perdeu o título na penúltima bateria do Circuito, por apenas 20 pontos, uma diferença mínima para quem tinha 850 pontos de vantagem sobre o terceiro colocado. Na época, era visto como o surfista mais consciente e estratégico do país. Nos anos seguintes, acumulou resultados expressivos: vitórias importantes na Abrasp e uma vitória significativa no QS de Florianópolis, superando Barton Lynch, Jojó e Julio Adler. Em 1995, viria um dos grandes destaques internacionais de sua carreira: o nono lugar em Pipeline, substituindo de última hora o australiano Damien Hardman. Ondas entre 10 e 15 pés confirmaram sua capacidade técnica em um dos palcos mais desafiadores do mundo. Pedro Müller seguiria competindo por mais de duas décadas. Em Ubatuba, já aos 38 anos, conquistou sua última vitória no Circuito Super Surf 2004, num dos triunfos mais marcantes de sua trajetória. Hoje, vive do surfe como treinador, comentarista da Sportv e um dos proprietários da @escola_pedromuller, na Barra da Tijuca, administrada pelo sócio Adelmo Noite. Acompanhe ns publicações nas redes sociais @museudosurfesantos. Coordenador de pesquisas históricas do surfe @diniziozzi, o Pardhal.

Como uma prancha largamente usada por surfistas fora do circuito mundial profissional pode ganhar atenção? Coloque a dita cuja nos pés de um bicampeão mundial. Quer um destaque ainda maior? Filipe Toledo vence o tricampeão Gabriel Medina. Pronto. Vamos por partes. Na etapa do Championship Tour, na Nova Zelândia (Maio 2023), Filipe acabou não vencendo a disputa da quarta de final contra Griffin Colapinto, mesmo obtendo a melhor nota da bateria. Faltou uma onda. Mas o assunto aqui é outro, ou quase. Em um universo dominado por triquilhas, desde 1981, a diversidade de pranchas, no século 21, começou a ganhar espaço fora das competições. No meio de antigas novidades, biquilhas com trailer fin (estabilizador central) se mostraram mais controláveis e amistosas, levando muita gente a adotá-las no quiver. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Filipe Toledo (@filipetoledo) O modelo de biquilha com estabilizador central já havia sido testado mas ganhou vida nova em 2003, com as Super Twins do shaper, tetracampeão mundial (79, 80, 81 e 82), Mark Richards. Ele trouxe de volta suas Twin Fins do início dos anos 80, adicionando uma “quilhinha” central. Daí, de repente, Filipe Toledo coloca no jogo do circuito mundial o modelo Modern 2, da Sharp Eye Surfboards. Vence Gabriel Medina nas esquerdas de Raglan e deixa muito mais gente antenada sobre as possibilidades de uma twin com trailer fin. Filipe não foi o primeiro a fazer algo que eu esperava há tempos. Kelly Slater inovou, diminuindo o tamanho das pranchas e competindo, em algumas situações, com o que eram mais bi do que triquilhas, na primeira década do século 21. Dane Reynolds também fez isso, mas vamos combinar que esses dois não são parâmetros de surf normal. Deivid Silva também ousou. Abiquilhou-se numa etapa. Mandou bem, mas não chamou tanta atenção. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Sharp Eye Surfboards (@sharpeyesurfboards_au) Quando se trata de altíssima performance pesa sempre o fato dos atletas da elite não terem muito tempo para experiências fora da casinha das triquilhas. Mas, pela primeira vez, Filipe, além de seu ano sabático, em 2024, teve, como todos os Tops, os mesmos raros sete meses de folga antes da temporada 2026. Isso parece ter criado espaço para lidar com pranchas diferentes, memória física e jogo mental para se arriscar com um equipamento não muito convencional na Nova Zelândia. Sim, pranchas realmente diferentes pedem ajustes na maneira de usá-las e isso requer tempo e, claro, talento. Duas coisas chamaram a minha atenção. Impressionante como podemos e devemos comparar os melhores do surf competitivo profissional com pilotos da Fórmula 1. É com eles que a indústria das pranchas evolui mais e melhor. Detalhes sutis, milimétricos, que essa turma sente no funcionamento de uma prancha podem ser incorporados aos modelos que a maioria dos surfistas não conseguiria detectar ou explicar. Eles dão o caminho do que será usado pelos consumidores “normais”. Shapers são mais teoria, estudo. Tops são prática. As mudanças surgem daí. Segunda, e mais curiosa. Um esporte que durante tanto tempo teve uma aura de vanguarda e ousadia leva muito tempo para propor ou acertar mudanças mais drásticas, seja na construção ou desenvolvimento de design. Não creio que seja culpa dos fabricantes, já que essa indústria nunca gerou dinheiro suficiente para que se desenvolvesse como deveria. Ainda por cima a competição tem um formato onde há pouco espaço para o diferente quanto à performance. Mas isso é conversa para outro texto. Por agora fica a dica. Mesmo ideias estranhas à normalidade podem resultar em bons resultados. Teste tudo que é prancha que você puder. Não tenha medo, você não depende de notas dos juízes para ser feliz.