Muitas águas

Big rider por um dia

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Perfeição das bancadas de coral de Porto Rico. Foto: Motaury Porto.
Antes de começar essa narrativa, vou dividi-la em duas cenas, para melhor compreensão do internauta.

 

Cena 1 – Eu devia ter mais ou menos 13 anos (1978) de idade e já surfava desde os 5, com as pranchas de isopor “Planonda”. E, desde os 12, com prancha de fibra. Meu surf se resumia aos feriados e férias escolares.

 

Aprendi a surfar no Guarujá, litoral de São Paulo. E a cada mar surfado eu queria aprender mais e aumentar meus limites. Isso não demorou a acontecer.

 

O jovem Brad Gerlach já arrepiava nas ondas em meados dos anos 80. Foto: Motaury Porto.
Sempre via o tamanho das ondas e analisava se eu tinha condições de entrar. Num destes feriados, o mar estava realmente grande – digamos uns 2 metros, até então meu maior desafio. Minha prancha era uma 6’6 Lightning Bolt, do shaper Mark Jackola, laminada pelo Thyola.

 

Eu tinha decidido não entrar no mar. Ainda por cima estava o maior frio e, na época, quase não havia roupas de borracha. Eu usava uma roupa de mergulho, totalmente imprópria para o surf, lógico. Mas era melhor do que passar frio!

 

Bom, a decisão acabou mudando quando o Thomaz, irmão do Magnus Dias – ele morava no Guarujá e arrepiava as ondas – resolveu varar a arrebentação em frente ao edifício Sobre As Ondas, na praia de Pitangueiras.

 

Ele foi pro outside e eu fui atrás. O Thomaz era mais velho e muito mais forte. Eu precisava de duas ou três remadas pra acompanhar apenas uma dele! Conclusão: a série entrou, eu passei a primeira e fiquei na segunda.

 

Tomei um caldo que nunca mais me esqueci. Minha roupa de borracha ainda encheu de água e eu, mais pesado, não conseguia subir pra respirar. Acabei varando a arrebentação, mas fiquei com tanto medo que fui remando até o final da praia das Astúrias (onde o mar é bem menor) pra sair do mar. Foi quase uma hora de remada…

 

Cena 2 –  O ano agora é 1987. Havia surfado muitos mares como aquele e o trauma já tinha passado. Tinha dez anos de surf em pranchas de fibra e, na bagagem, muitas viagens pelo Brasil e uma para Peru, Equador e Galápagos.

 

Estava bem mais forte fisicamente e agora viajava como fotógrafo profissional para a extinta revista gaúcha Costa Sul para levar matérias para a revista em uma jornada de 90 dias por cinco países.

 

Meu companheiro de viagem era Mike, das pranchas Summer Birds, que patrocinou grandes nomes do surf nacional como Jojó de Olivença, os irmãos Argolo, entre outros.

Nossa última parada era a ilha caribenha de Porto Rico, em março, quando rolam as maiores ondas no local. O pico de Três Palmas, por exemplo, pode ultrapassar 15 pés!


Já estávamos havia um bom tempo na estrada, após passar por Califórnia, México, Cuba, Panamá e Costa Rica. Chegamos a Porto Rico e fomos para Rincón, um vilarejo onde a comunidade do surf se hospedava, tipo um North Shore havaiano.

 

Os primeiros dias foram de surf light, com ondas de 1 metro em várias praias com muitos corais e lotadas de ouriços. Aliás, os maiores que eu já tinha visto! Encontramos surfistas de várias partes do mundo, inclusive um pequeno grupo do Brasil.

 

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Abertura da matéria que foi capa na Fluir. Foto: Motaury Porto.
Naquela época pré-internet, a entrada do swell era a conversa na praia e nos barzinhos à noite. E tudo era mais misterioso. De repente, o vento mudou, o tempo nublou e densas nuvens escureceram o céu tropical.

 

Após alguns dias de maral e muita expectativa, o tempo amanheceu ainda chuvoso, porém com vento terral e ondas extremamente grandes, pelo menos para mim na época – até então as maiores ondas que havia visto (em torno de 10-12 pés!).

 

Maria’s, continuação de Indicators, estava indigesto, com direitas tubulares e muito

David Eggers era um dos grandes nomes da época. Foto: Motaury Porto.

velozes. Na praia, a galera olhava, olhava, mas apenas uns poucos se arriscavam na água.

 

As ondas estavam lindas, porém bem perigosas, arrastando tudo pra cima dos corais. Na areia, dois surfistas chamavam a atenção: David Eggers e um tal Brad Gerlach, ambos da Califórnia.

 

Olhei pro céu nublado, pro mar, pro Mike e falei: “Brother, vamos lá que hoje vamos surfar as ondas da vida!”. Minha gunzeira na época era uma 6’8 e foi com ela que resolvi ir pro outside.

 

Mike arrumou também sua prancha, nos alinhamos junto com aqueles americanos e após um tempo olhando o mar, esperando o momento certo, nos atiramos na água, remando sem parar.

 

Remamos, remamos e as ondas começaram a entrar. Uma após a outra, uma maior que a outra. Eu cheguei ainda a pensar: “O que estou fazendo aqui dentro?!”. Mas não havia tempo para dúvidas e remei mais forte ainda. Fui passando, passando por cada onda no limite.

 

O tempo tinha dado uma congelada e aquela cena de anos atrás havia voltado à minha mente.

 

Um certo medo quis me travar, mas, quando me dei conta, estava no outside, vendo as maiores ondas da minha vida. Ao meu lado, não estava nem Mike, nem o tal de Brad Gerlach. Apenas o ruivo David Eggers. O mar estava animal!

 

Fiquei impressionado ae ver o guri se atirar nas ondas. Peguei três. Três inesquecíveis ondas. Depois de uma hora naquele caldeirão, saí me sentindo como um herói que doma uma fera!

 

Mike comentou minha coragem com os brasileiros, mas o maior comentário era sobre o californiano Brad Gerlach. Por não conseguir varar a arrebentação, detonou, de raiva, a prancha na praia.

 

O mar foi abaixando lentamente e surfamos muitas ondas de um swell clássico no Caribe. Fiz muitas fotos e depois a matéria acabou sendo publicada na Fluir. Infelizmente a Costa Sul acabou fechando quando cheguei ao Brasil.

 

Mas o que hoje me chama a atenção ao rever essa aventura, é que para um garoto magrinho e sem muito preparo, e quase nenhuma coragem, que havia tomado um susto e tanto no Guarujá, surfar aquele mar enorme em Porto Rico foi uma conquista e tanto.

 

A minha vida tem sido assim, Deus tem ampliado meus horizontes e me dado coragem para com Ele enfrentar as ondas contrárias da vida. Tenho experimentado o poder e o cuidado do Senhor nesta jornada da vida, e sei que ele esteve ali comigo naquele mar bem grande e perigoso. E ainda pude ser um big rider, mesmo que apenas por um dia.

 

Vale lembrar que Brad Gerlach é hoje um dos maiores big riders do planeta e pega mares insanos em Cortes Banks, Jaws, Todos Santos, entre outros picos mundo afora.

 

Depois daquele mar, já surfei ondas maiores, como um Sunset 15 pés plus fechando o canal com Kamieland. Mas, isso fica pra outra matéria. As maiores ondas mesmo, eu tenho “surfado” na vida e nos meus desafios.

 

Agora mesmo, enquanto escrevo esse texto, meu pai está com câncer em estado terminal, a alguns passos de outra grande “onda”, a morte! Mas até nesta, que talvez seja a maior “onda” de nossas vidas a ser enfrentada, Deus tem vitória para nós em seu filho Jesus.

 

No mais, vamos remando para o outside com força e coragem.

 

Veja mais imagens na galeria de fotos.

 

Nota da Redação Caro amigo Motaury, transmita um abraço solidário a todos de sua família, em especial ao sr. Porto, a quem tivemos o privilégio de conhecer e que aprendemos a admirar.