
Vou falar sobre o Hawaii depois da virada do ano. A última e mais esperada etapa do circuito mundial se aproximava e quase todos os atletas já estavam na ilha.
No primeiro dia da janela do campeonato, Pipeline amanheceu com cerca de 8 pés, um pouco irregular e muito pesado. Paulo Barcellos surfou uma bomba logo cedo no freesurf e saiu de jacaré – body surf, para depois ser engolido novamente pela massa de água.
Essa foi uma das primeiras visões que tive ao chegar na praia. O aussie Ryan Hardy explodiu na junção, em um 360 invertido aéreo gigante e em seguida mandou em um 360 aéreo mais que perfeito, no Backdoor.

Para felicidade dos freesurfers, o campeonato foi cancelado esse dia pelo mar estar um pouco irregular.
O crowd de bodyboarders era absurdo e ondas insanas foram surfadas nesta manhã. Ao meio dia entrou um vento maral e no fim de tarde, com o vento um pouco mais fraco, Guilherme Tâmega pegou excelentes ondas e fez um tubo absurdo.
No dia seguinte foi dado inicio às triagens, ondas de 6 pés, algumas séries de 8-10. As três primeiras baterias rolaram com mar muito bom, mas em seguida chegou o vento maral e o campeonato foi cancelado.A previsão indicava um grande swell de oeste – melhor condição para Pipe, nos próximos dois dias.

Mas um dia antes, o vento era maral e as ondas tinham três pés no final de tarde. Minha casa era de frente parao mar e dormimos com o mar flat, desacreditados do swell.
Acordando, me deparei com ondas exlodindo contra o muro da casa. A bóia indicava que a ondulação havia alcançado seu auge à meia noite. Isso indicava que elas chegariam ao North Shore por volta das nove horas da manhã.
Eram ainda sete horas e a adrenalina estava a mil na casa. Eu, Evaristo Kiko, Rômulo Fonseca e Thiago Nuernberg entramos na BMW enferrujada do Rominho e fomos checar Waimea Bay. Ao descer o morro, a primeira visão: duas ondas fechando a baia animal.

O estacionamento estava fechado pela defesa civil e fomos estacionar na igrejinha logo acima. Olhando o mar de frente, Rominho comentava que dificilmente seria possível surfar neste dia. A baia já estava fechando e a previsão dizia que as ondas ficariam ainda maiores durante a manhã.
No guard rail que separa a avenida da praia, a visão era linda. Ondas gigantes quebravam nos dois cantos da Baia, as esquerdas vinham varrendo tudo e dois surfistas se preparavam para cair. Um deles foi dragado pelo inside, só pela corrente.

Nem tomou onda na cabeça. Logo depois, foi cuspido para fora do mar pelo Waimea Shorebreak. Evaristo estava com sua prancha e foi logo entrando também. Resolvi esperar a melhor hora de cair, sem o risco de tomar uma varredeira de 30 pés na cabeça.
Voltei para tomar um café em casa. Hardy Botinho chegou por lá e me deu carona de volta a Waimea. Caí alguns minutos antes do mar alcançar seu auge. Tomei algumas atitudes erradas, era meu terceiro Waimea. Escolhi uma prancha muito larga e peguei um pé de pato que não era o meu, tinha a mesma cor mas era mais mole.

Só percebi quando remava no canal. Aí já era tarde. Após me concentrar na areia, dei sorte e cheguei ao outside sem tomar nenhuma. Neste dia, conseguir isso já era uma proeza. Muitas ondas fechavam o canal.
Na primeira série que vi, um maluco chamado Couli, virou em uma de 25 pés e foi. Voou lá de cima em uma das piores vacas do dia. Em seguida, os surfistas olhavam onde a onda tinha quebrado, na expectativa que ele voltasse a tona.
Ele quase ficou embaixo da água duas ondas seguidas. Ao levantar, a galera no outside começou a bater palmas. O mar não parava de subir, dropei uma menor, junto com um surfista e fui engolido pela espuma. Voltando pelo canal vi uma aberração.

Uma onda de 25 pés rodando seca e perfeita, com direito a baforada. Vieram a minha cabeça as cenas animais que já tinha visto do pico, em vídeos e revistas.
Waimea bombava no seu limite, as ondas alcançavam o limite da bancada e as maiores ultrapassavam este limite. Neste momento, um vento lateral entrou fraco mas tornou as condições ainda mais difíceis e perigosas.
Ondas gigantes entravam sem parar. Foram cerca de 30 minutos sem ninguém conseguir descer ondas. Só fugindo das séries. Os salva vidas entraram com jet ski e resgataram seis surfistas. A única coisa que se ouvia, era o som de sirenes e o salva vidas berrando em seu megafone:

Paddle for life – remem pela sua vida, todas as vezes que uma grande aparecia no horizonte. E foi isso, surfei mais duas ondas e saí do mar. Me preocupei com os detalhes do que aconteceu, por ter sido muito marcante este momento na minha vida.
A sensação de entrar em um mar destes é indescritível. Este mar foi considerado por muitos, o maior Waimea surfado nos últimos dez anos.
Nomes como Brock Little, experiente surfista de Waimea e Tony Moniz discutiam dentro da água, a possibilidade de surfar as maiores. Evaristo Kiko Ferreira, surfista brasileiro pegou umas destas e fez história, além de ganhar o respeito dos locais havaianos.
Quem esteve no outside de Waimea neste dia, nunca mais esquecerá. Neste mesmo dia, rolavam ondas de até 80 pés de face em Jaws, Maui. Em Waimea as ondas são medidas por trás e algumas chegaram aos 30 pés neste dia.
Na próxima matéria, a última parte da temporada havaiana.