Espêice Fia

Barca do Fia

Há alguns anos escutando histórias sobre Miramar e sem ter tido a oportunidade de visitar o pico e as instalações do Miramar Surf Camp, eis que surge a oportunidade de fazer a Barca do Fia para esse lugar pacato e com altas ondas ao norte da Nicarágua.

Em parceria com a agência TGK Surf Operator e mais cinco clientes, embarcamos rumo a Managua no último dia 27 de maio.

A ansiedade da galera já era demostrada no grupo de WhatsApp criado pelo agente de viagem José Eduardo. Tinha nego que já estava de malas prontas com 3 dias de antecedência! E não posso negar que também arrumei minhas pranchas dois dias antes. É sempre aquela coisa: véspera de viagem, às vezes é melhor salvar o equipamento de uma possível “quebrada”.

O empresário gaúcho Alessandro Olliva embarcou de Porto Alegre e saiu na frente, já que os embarcados em São Paulo – Ian Guedes (também empresário), Bruno Novaes (dentista), Renan Jensen (administrador de empresas), Tom Buser (engenheiro) e eu fomos pegos de surpresa com um cancelamento de voo da empresa Avianca.

Acomodados em outro voo, já perderíamos nosso primeiro fim de tarde, pois em trips pela América Central, o que sempre se espera é pegar onda já no dia da chegada.

Já em nossa primeira conexão em Bogotá e acomodados em sala vip pela companhia – devido ao atraso -, eis que recebo uma chamada de nosso agente de viagem relatando que minha mala havia ficado em São Paulo e estava de posse de outro passageiro.

No momento achei estranho, pois eu havia feito meu seguro de viagem em Guarulhos e colocado etiqueta com todos meus dados, tendo também embarcado a mala junto com a prancha.

Bom, o resumo foi que as malas da Mormaii, que eram idênticas, haviam sido pegas por engano ainda na esteira do voo doméstico. De fato a coincidência foi enorme, pois quando peguei minhas malas para o “transfer”, ambas saíram juntas – prancha e mala.

Uma mala Mormaii é bastante estampada, ou seja, nem cogitei checar. Claro que muitas vezes checo a etiqueta de bagagem antes, mas acaba não sendo uma constante por ter malas mais específicas e ela estava nova ,pois normalmente as velhas já têm danos que ficam familiares.

Contato feito, e faltando 2:30h para o embarque, fui direto na atendente da Avianca para explicar o fato e solicitar uma revisão da mala. No entanto, fui informado que só poderia checar no meu destino final, em Managua, para assim fazer um reporte.

Mesmo um pouco desolado, estava embarcando tranquilo rumo ao meu destino, quando já no portão de embarque a atendente relatou que eu teria de checar minhas malas em outro terminal. Bom, fiquei incrédulo diante daquilo e me recusei a fazer isso, pois certamente iria perder o voo.

Diante disso, um policial foi chamado e fui obrigado a ir até o local para checar as malas, com direito à revista de um simpático cão labrador, me senti nos documentários do Discovery Channel ou NatGeo, “Aeroporto da Colômbia”!

Ao relatar o ocorrido, fui compreendido e liberado. No entanto, mesmo com os esforços da Aduana colombiana correndo comigo de volta pra que eu embarcasse, perdi o voo. Grande sacanagem da empresa, mas não havia mais o que eu fazer.

Fui acomodado em outro voo e tome chá de aeroporto, quando fui embarcado para o Panamá, onde iria pegar uma conexão com a Copa Airlines. Na chegada, e ao checar minhas bagagens na esteira, constatei que só a prancha havia chegado, e quando fui fazer a reclamação da mala Mormaii, fui informado que ela havia ficado em Bogotá. Quanta desorganização!

Quando indaguei se teria que pagar novamente a taxa de pranchas com a Copa, diante da confirmação, pedi que trocassem mais uma vez meu voo para uma aeronave Avianca, pois não poderia pagar duas vezes pelo equipamento. Desta vez, fui prontamente atendido por uma solícita funcionária e pernoitei na cidade do Panamá.

Sem dormir direito, tive que despertar às 3 da manhã para só então voar para Managua. Mas nem tudo foi azar. Durante esse período, e também por coincidência, um grande amigo estava embarcando em São Paulo. Consegui com que a pessoa que havia pegado minha mala por engano a entregasse e ele estaria chegando praticamente no mesmo horário que eu na Nicarágua.

Bom, a canseira continuou, pois seu voo também fora cancelado, e uma vez relocado, o brother só chegou 5 horas mais tarde. E haja mais chá de aeroporto, pois era mais fácil espera-lo do que ir para Punta Miramar e voltar pra pegar a mala.

Quando o cabra chegou, foi uma festa, e ao último raio de luz já estava tomando minha primeira “Toña” (cerveja local). Viva, galera, cheguei! E matando o calor e tirando também o ranço da longa jornada, brindamos ao mesmo tempo em que eu escutava a história do dia de surfe.

Mal podia esperar que clareasse o dia seguinte, pois o visual do fim de tarde com esquerdas entrando era de cinema. Alguns despertaram antes das 5, aliás, o Tom já estava remando no canal de Punta Miramar na primeira luz. Paredes de 3 a 4 pés passavam bonitas, mas fui preparando meu equipamento e fazendo uns aquecimentos sem muita pressa, pois parecia que as condições estavam melhorando.

Quando o sol saiu, todos da barca já se encontravam na água, e sendo assim, ia conhecendo os níveis de cada um. Ian Guedes já mostrava intimidade com as ondas. Seus amigos ja relatavam suas performances em outras ondas, e na primeira onda já deu pra ver que o cara tinha a manha do trilho. Com uma prancha sem bico e dotada de concave profundo, o goofy vinha mais de trás do pico, passando seções.

Tom, outro enaltecido pelos amigos, virou em uma da série e botou pra dentro de backside com as mãos na borda. Nesse momento, pensei “Poxa, legal, o nível de surfe tá turma tá bom!”. Mas, diante de sua alta estatura (o cara tem quase 2 metros), Tom acabou sendo esmagado pelo lip dessa esquerda.

Bruno Novaes, um mineiro residente na Paulicéia que havia ingressado no surfe há cerca de seis anos, tinha nível menor, mas estava disposto e remando bem. Deu alguns drops atrasados com sucesso e vacou em outros.

Renan Jensen se mostrou metódico ao aparecer no pico com uma GoPro na boca e um equipamento de captação de movimentos na água, um tal de Trace.  O monitoramento era feito em grande escala em vários aspectos. Extensão percorrida, calorias gastas, número de manobras, ondas, etc. Um apetrecho animal, interessante, mas muito pra mim. Falta-me paciência pra ter um bicho daquele.

Admirei Renan por isso e foram várias explicações sobre o equipamento. O cara também fazia uma dieta sem carboidratos e estava “no quilo”, facilitando assim seu surfe, que vinha em terceiro na lista dos cinco, em nível.

O gaúcho Alessandro havia feito contato comigo via mídia social antes da barca. Na ocasião, indagou que era marinheiro de primeira viagem e não tinha experiência. Bom, havia relatado que a trip seria pra todos os níveis, mas fiquei surpreso ao constatar que aquela estava realmente sendo sua primeira trip internacional e já o encontrei com as canelas raladas devido a um “retoside” na bancada de pedras.

Foi nessa hora em que vi o quanto fui prejudicado em não chegar junto com os clientes da “barca”, pois passando informações pro cara com antecedência poderíamos ter evitado os cortes. Mas também é válido, pois já ganha-se experiência, mesmo sendo do jeito mais grotesco.

Depois de um cafezão regado a “uevos revoltos”, ”pancakes” e “gallo pinto”, partimos de barco para mais uma session no potente beach break chamado Salinas Grande. E a nossa surpresa foi boa quando pulamos do barco e fomos nos posicionando no lineup. Algumas ondas fechavam, mas outras simplesmente abriam perfeitas. Tom e Ian pegaram boas, inclusive botaram pra dentro de alguns tubos.

Alessandro, por outro lado, estava com dificuldade na remada, perdendo o timming das ondas. Ficamos por ali cerca de duas horas e consegui pegar um tubo bastante longo. Na brincadeira, comparei à piscina do Slater, de tão fácil e perfeito que foi.

Nessa caída estava um outro barco, no entanto, a praia era grande e sobravam ondas. Vimos muitas ondas fechadeiras, mas muitas bonitas com a turma do outro barco passando por dentro, incluindo um mexicano que vive ali e toca também um surf camp, mas não lembro seu nome.

Um fotógrafo americano chamado Trent Stevens (@seacollective) estava com ele e acabou capturando dois belos momentos meus dentro de tubos distintos. Uma hora da tarde estávamos pedindo o almoço e a tarde foi de descanso pra alguns, mas não para um instigado Ian Guedes. A essa altura, já dava pra ver que o cara era muito pilhado no surfe, daqueles que passam o dia inteiro na água.

O fim de tarde mais uma vez foi lindo e a galera viu o pôr do sol na piscininha juntamente com os proprietários do Miramar Surf Camp – Rafael e Leandro -, com suas filhinhas Malia (7 meses) e Valentina (3 anos), respectivamente. E diga-se de passagem: duas “principas”!

Enfim, aproveito aqui já pra elogiar a receptividade da turma, incluindo suas esposas Brittany e Daniela, bem como todos os funcionários do hotel, sempre atentos e sorridentes, incluindo boas pitadas de comédia, tanto em piadas como no “portunhol” com sotaque capixaba, pois os proprietários vieram do Espírito Santo para assumir o empreendimento, que não para de crescer e agregar clientes.

No dia seguinte, a cena se repetiu. Surfamos no point da frente e deu pra perceber que ali funciona mesmo com uma ondulação maior, pois as ondas de 3 pés vinham legais, mas posteriormente, quando atingiam o canal, ficavam um pouco fracas. 

Na real, dava pra se divertir, mas o beach break de Salinas Grande nos chamou mais cedo. Só que dessa vez pegamos o barco e fomos fazer um passeio em um belo rio próximo para poder resgatar a videomaker e produtora da @moanafilmes, Lorena Montenegro, e o fotógrafo Gunnar Mcclellan (@calcoastphotography).

Fomos deixa-los na areia da praia para que pudessem captar nossas imagens, já que o rio passava por trás do pico. E ali já começaram as histórias de jacarés que só vieram a dar uma apimentada na galera antes de adentrar em um mangue, para depois sairmos na areia da praia sãs e salvos.

Nesse dia, o mar estava ainda melhor, com séries maiores com cerca de 3 a 5 pés. Algumas ondas vinham bem fortes e rodavam quadradas. Mais tubos foram completados, e outros em que a galera vacou dentro foram punks. Leandro, proprietário do surf camp e que nos “ciceroneou” nessa session, estava kamikaze. Logo deu pra ver sua quilometragem nas redondezas.

Vi bons tubos de Ian, distante um pouco do resto da turma, o que fazia um visual lateral gracioso. Alguns drops atrasados de Bruno, Renan e Alessandro. O vento terral batia forte e dificultava o drop, principalmente para Alessandro, que, mesmo pilhado pela galera, ainda faltava dar uma braçada a mais.

Tom reclamava que não achava uma onda sequer abrindo um bom tubo, mas só foi ele falar que a melhor do dia entrou bem onde estava posicionado. O cara dropou atrasado, entubou e ainda saiu pela dog door. E lembrem-se que o cara tem quase 2 metros…

Empolgado por esta cena, peguei uma onda menor e parecida, no entanto, quando tentava repetir o feito de Tom pela dog door, o lip me pegou e acabei machucando forte o joelho. Pronto, fim da sessão e tome Tandrilax e gelo até o fim do dia. Durante o jantar, a turma combinava de ir para outro beach break, desta vez ainda mais potente.

Os caras programaram para acordar às 3 da matina, pois o pico era a cerca de duas horas de distância. Sem poder me agachar e sem saber se iria conseguir surfar no dia seguinte, abortei contrariamente a minha ida.

Os relatos quando a turma voltou no meio da tarde eram excelentes – tubos e mais tubos potentes, tendo inclusive o Gunnar feito uma foto exótica de Tom – por trás do tubo, o cara clicou a cena Backdoor.

Bom, dos males o menor. Consegui surfar sem forçar na manhã seguinte no pico de Pipes, logo ao lado de Punta Miramar. Com a maré baixando, me dirigi pra perto de Alessandro. Se por um lado perdi um surfe tubular, ganhei em uma prazerosa session com o novo amigo, pois até então ele estava sem conseguir se soltar direito e ali, com alguns toques e pilha durante sua remada, aos poucos ele ia se soltando.

No fim de tarde, me preservei e fui apenas acompanhar a session da galera também em Pipes. A brisa de maral que havia entrado dera lugar a uma calmaria no fim de tarde. Um incansável Ian Guedes corria bem em valas de esquerda sob um pôr do sol magnífico. Muito visual.

Para o dia seguinte, o mar, que estaria baixo, nos proporcionaria um surfe na praia de El Transito, beach break muito legal a uns 40 minutos de barco. Triângulos de 3 a 4 pés foram surfados por todos durante umas três horas ou mais.

A galera se esbaldou e também foi legal de ver nessa praia muitos moleques surfando bem. No entanto, a promessa local (não lembro o nome) havia quebrado o braço e não estava ali. Naquela tarde, a galera se guardou, pois era muito sol na “lata”.

Durante o jantar, escutamos com alegria a possibilidade de conhecermos mais um pico, desta vez a cerca de uma hora e meia do Miramar. Rafael e Leandro estavam empolgados em nos mostrar essa onda de qualidade, rasa, rápida e tubular para esquerda. No entanto, tratava-se de um pico mais perigoso e difícil de surfar, logo a barca se dividiu – os mais capacitados foram em busca dos barrels e os que não eram tanto foram para Pipes e outra onda próxima. Essa turma fez a mala e nós nos esbaldamos nos tubos.

Rafael e Leandro mostraram conhecimento e sempre vinham nas boas. Aos poucos, eu, Ian e Tom íamos nos acertando. A maré começou a baixar rápido, e como o “buraco” estava ficando mais embaixo, aos poucos fomos saindo. No entanto, de cabeça mais que feita… Tomando côco de coqueiros anões, admirávamos aquela bela paisagem para depois tocarmos de volta para Punta Miramar.

Naquela tarde, surfamos em Pipes e relato aqui a chegada de outro fotógrafo pra residir no hotel. Douglas Cominski era o nome da fera. Criador do Shot Spot, Douglas se dividiu entre pegar umas ondas e fotografar. Tomou uma vaca, deu boas rasgadas e fez boas fotos, ou seja, tava “inaugurado”.

Jantar regado a deliciosas pizzas e algumas geladas “Toña’s” fecharam nossa trip. Imagens e fotografias eram vistas com grande alegria. A expectativa do último surfe antes de ir ao aeroporto no dia seguinte nos fez despertar às 4:30 da matina. A ondulação havia subido um pouco e estava lisinho.

Entramos eu e o Tom em Punta Miramar e algumas séries demoradas vinham. Pegamos umas duas razoáveis, mas sentimos que o tamanho ainda não estava ideal para ali. Ian Guedes entra, quando dissemos que talvez em Pipes estaria melhor.

A partir daquele momento, peguei uma boa, dei uma boa rasgada na parede e logo depois passei a boiar por longo período. Teria que sair do mar às 6:30, e às 6:50 ainda não tinha minha saideira.

Saí em uma “retoside” para dar tempo de comer algumas pancakes e partir de volta ao Brasil com Alessandro e Bruno, pois Tom, Renan e Ian ficaram por mais dois dias para aproveitar o novo swell.

Despedir da galera não foi das melhores, pois já ficávamos ali com saudades de todos e da semana maravilhosa. Curtimos muito Miramar e a certeza é de um dia voltar.

Muchas gracias, Nicarágua! Até a próxima.

Enquanto alguns fotógrafos documentam a história, Fedoca Lima fez diferente: viveu dentro dela enquanto fotografava. Carioca do Posto 5, começou a surfar com 11 anos e a fotografar quase ao mesmo tempo, com uma máquina fotográfica alemã do pai. Aos 14, registrou a Rainha Elizabeth passando de Rolls-Royce aberto pela orla de Copacabana, em frente à casa do Assis Chateaubriand. No mesmo período, fotografou o Mick Jagger dando o dedo do meio no Copacabana Palace. Não era fotógrafo profissional. Era um moleque com olho bom e câmera na mão, sem perceber ainda o tamanho do que estava construindo. O que veio depois é história do surfe brasileiro. O Píer de Ipanema nos anos 70, quando o Rio era o centro do surfe nacional, com Daniel Friedmann, Pepê Lopes, Rico de Souza e Ricardo Bocão dominando o circuito. A Brasil Surf, primeira revista especializada do país, na qual Fedoca jogou em todas as posições: fotógrafo, redator e capa. O Havaí entre 1978 e 1981, surfando e fotografando ao lado de Gerry Lopez, Shaun Tomson e Michael Ho em Pipeline e Waimea. Os shows históricos, de Bob Marley ao ar livre no Havaí até Rolling Stones e Paul McCartney no Maracanã. “A foto que eu não tirei, essa me persegue.” Fedoca Lima Mais de cinquenta anos depois, esse arquivo vira livro. “Surf, Clicks e Rock’n Roll” tem 220 páginas, cerca de 180 fotografias e percorre a transformação do surfe brasileiro desde a era analógica até o digital, passando por Arpoador, Saquarema, Havaí, Califórnia e Macumba. Com captação aprovada de R$ 203 mil via incentivo cultural e apio da Fu Wax, o lançamento está previsto para o segundo semestre de 2026. Conversamos com Fedoca sobre tudo isso. Antes de se consolidar como fotógrafo, você também virou personagem da própria história do surfe brasileiro ao sair na capa da Brasil Surf em 1975. Como foi viver aquele momento por dentro? Saí na capa da Brasil Surf. Na época eu trabalhei na revista de março de 75 até janeiro de 79, só não peguei o primeiro número. Jogava todas as posições: saí na capa, escrevia, tirava foto, ajudava na redação, dava palpite, fazia matéria. Por muito tempo achei que era o único fotógrafo de surfe que tinha saído numa capa. Depois o Bruno Alves me falou que o irmão dele, o Alberto, saiu na capa da Fluir número 1. A história dele bate um pouco com a minha: ele pegava onda, saiu na capa, era fotógrafo. Mas durante anos eu achei que era caso único. Até hoje tem um restaurante aqui que o cara pediu, eu tirei uma foto com a revista na mão, ele botou na parede, eu assinei. A influência continua. A Brasil Surf ajudou a mudar a imagem do surfista no Brasil. Como era ser surfista naquela época, antes dessa mudança de percepção acontecer? O surfe saía no caderno B do Jornal do Brasil, do Globo. Não saía no esporte. E o surfista era tido como vagabundo de praia. Maconheiro. Isso, aliás, até hoje tem um pouco, mas na época tinha muito mais. A Brasil Surf não vou dizer que limpou essa imagem completamente, mas ajudou a transformar o surfe em esporte e também a fomentar o mercado de surfwear. Os irmãos Wady e Fuad Mansur, da loja Mansur, em Ipanema, foram dos primeiros anunciantes. Acreditaram na revista, fizeram anúncios de contracapa e página inteira, e as camisetas personalizadas vendidas pelo correio viraram um sucesso. A Brasil Surf acabou impulsionando fabricantes de pranchas, calções, parafinas e diversos outros anunciantes ligados ao surfe. Os fabricantes de prancha tinham um veículo para anunciar. Os fotógrafos ganhavam uma graninha, viajavam. Fui para a América Central, Porto Rico, Barbados, El Salvador, Fernando de Noronha, Peru, várias viagens bancadas pela Brasil Surf de uma forma ou de outra. O Nilton Barbosa foi ao Havaí duas vezes bancado pela revista. No caso dele, eles bancavam os filmes, ele vendia as fotos e a viagem se pagava. Tinha uma diferença entre mim e o Nilton nessa época: ele chegava na praia e ficava na areia fotografando, fotografando, fotografando. Eu chegava e ia para dentro da água. Se não estava o Daniel, não estava o Pepê, não estava o Cauli, não estava o Bocão, não estavam os caras top, eu entrava e surfava. Então tem foto minha na Brasil Surf publicada pelo Nilton Barbosa, pelo Rogério Ehrlich. Eu estava mais dentro da água do que fora. Eu estudava. Primeiro vestibular, depois faculdade. Boa parte dos meus amigos só queria saber de surfar. Eu dividia meu tempo. Chegava na praia, já tinha estudado de manhã, aí ficava naquele dilema: vou pegar onda ou vou fotografar? Por isso tem poucas fotos do Píer. Em três anos não tirei nem metade do que tiro hoje num dia bom na Macumba com o digital. Você viveu o Píer, a Brasil Surf, o Havaí dos anos 70, o nascimento do surfe brasileiro moderno. Em que momento percebeu que estava no meio de uma transformação cultural que iria muito além do esporte? O Píer foi o que fomentou o surfe no Rio de Janeiro. Por dez anos, foi domínio completo do Rio no cenário brasileiro. O Daniel Friedmann, em 77, foi o último carioca a vencer uma etapa do circuito internacional, ganhou no Quebra-Mar, em cima do Pepê Lopes, que tinha ganho em 76. Os dois de Ipanema, meus vizinhos de rua. E esse pessoal do Píer que dominou, o Daniel, o Pepê Lopes, o Cauli Rodrigues, e também o Otávio Pacheco, o Rico de Souza, o Ricardo Bocão. E tinha o Betão, que era o melhor surfista do Brasil na época mas não era competitivo, não corria atrás de patrocinador, acabou saindo cedo. Em 75 ele ganhou o Campeonato de Saquarema e foi saindo, saindo. O Píer influenciou a revista, influenciou os fabricantes de prancha, influenciou o modo de viver. Começaram a ter fábricas em Guaratiba, Vargem Grande, no Recreio, depois em Saquarema. As pessoas foram morar lá. O Penho foi, o Otávio comprou

O que define uma boa onda? Tamanho, força, parede, qualidade da linha, formação e surfabilidade, dentre outros elementos. No oceano, todos esses fatores mudam a cada swell, a cada vento, a cada maré. Em Búzios, a proposta é diferente: construir essas variáveis de forma controlada, repetível e ajustável. A piscina do Brasil Surfe Clube Aretê Búzios opera com a tecnologia Endless Surf, do grupo canadense WhiteWater, com 48 câmaras de ar de alta precisão. O sistema permite criar configurações distintas dentro da mesma estrutura. Dentro de um universo de grandes possibilidades, as cinco primeiras ondas já foram nomeadas e reveladas, cada uma com perfil próprio, e muito mais ainda está por vir. Onda #01: Pointbreak + Junção Linha longa, seções conectadas, tempo de onda que pode ultrapassar 25 segundos. A junção encadeia diferentes partes da onda sem perder velocidade, criando uma das experiências mais difíceis de encontrar no oceano com consistência. Para quem quer mais de 10 manobras na mesma onda ou simplesmente mais tempo de linha para ler e decidir. Onda #02: Manobras + Bowl A parede fica mais íngreme. O bowl abre seções críticas para manobras verticais e aéreos. É o ambiente para quem quer empurrar os limites do que consegue fazer sobre a prancha, com repetição suficiente para transformar cada tentativa em aprendizado real. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Onda #03: Rampa + Tubo Uma onda que combina duas experiências na mesma seção. A rampa prepara o surfista para a manobra e o tubo roda na sequência. Para quem quer encaixar um aéreo e ainda sair do tubo na mesma onda, essa configuração entrega os dois elementos sem precisar escolher. Onda #04: Rampa Nível Intermediário Parede consistente, menor intensidade, mais previsível. A configuração certa para quem está desenvolvendo manobras progressivas e precisa de repetição para consolidar o que está aprendendo. A seção cria a rampa no ângulo certo, com velocidade suficiente para executar sem exigir o nível avançado. Onda #05: Rampa Nível Avançado Mais potência, mais velocidade, mais projeção. A rampa avançada é para quem já chegou em Búzios com manobras no repertório e quer testá-las com pressão real. Com capacidade para gerar até 700 ondas por hora, o intervalo entre uma tentativa e outra é curto o suficiente para transformar cada sessão em treino de alto rendimento. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Para todos os níveis As cinco configurações cobrem desde quem está aprendendo até quem treina em alto rendimento. A piscina ainda opera em dois modos: single peak, com ondas quebrando para um lado e maior extensão de linha, e split peak, com direitas e esquerdas simultâneas, permitindo que surfistas compartilhem a mesma série em direções opostas. Yago Dora, campeão mundial de surfe em 2025, Victor Bernardo, um dos maiores freesurfers da atualidade, e Michelle des Bouillons, referência mundial em ondas gigantes, integram o time do BSC e já testaram a tecnologia na piscina Adrena Red Sea, na Arábia Saudita. “Muito animal esse lance de ter essa variedade de onda também. Um leque de ondas absurdo. Mal posso esperar para Búzios”, disse Victor Bernardo após a sessão. A versão de Búzios será maior: 48 câmaras contra 36 da estrutura do Mar Vermelho, com 13 mil metros quadrados de lâmina d’água. Variedade de ondas para testar, arriscar, aprender e evoluir todos os dias. Com inauguração prevista para o segundo semestre de 2026, é o que o Brasil Surfe Clube Aretê Búzios chega para entregar.

Pedro Bettencourt Müller nasceu no Rio de Janeiro, no dia 21 de julho de 1966, num ambiente familiar que respirava praia. Seu pai, Guilherme Xavier de Brito Müller, economista e morador do Leblon, cresceu frequentando a Zona Sul. Sua mãe, Maria Isabel Bettencourt Müller, criada em Santa Teresa, compartilhava da mesma paixão pelas praias. Para o casal, fim de semana e férias tinham destino certo: areia, sol e mar. Foi assim que Pedro e o irmão, Guilherme, passaram a infância seguindo os pais para o meio da Barra ou para São Conrado, ainda de estradas de terra, sem prédios, calçadões ou qualquer urbanização. Nesse cenário quase intocado, Pedro foi se encantando pelas ondas. Lembra-se de observar alguns surfistas solitários no meio da Barra e sentir-se hipnotizado pela habilidade deles. O mar, desde cedo, era o lugar onde queria estar. Ele recorda também a rotina da infância: ia para as aulas de natação no Clube de Regatas Flamengo e, depois, caminhava até o judô, no Leblon, um trajeto longo para uma criança de 12 anos. Antes de entrar no tatame, sentava-se no calçadão para olhar o mar quebrando, entregue à mesma fascinação que o acompanharia por toda a vida. O mar lhe transmitia paz, calma e propósito. Ali, ainda menino, já entendia que queria se tornar surfista. A mudança para São Conrado, por volta dos 14 ou 15 anos, foi decisiva. Morando ao lado do Pepino, Müller muitas vezes cabulava a aula pra ir surfar. As ondas triangulares, rápidas e pesadas da região se transformaram no seu campo de treinamento permanente. Ali, guiado pela referência de Rony Lima e pela evolução proporcionada pelas pranchas dos shapers Rico e Pedro Battaglin, deu um salto técnico marcante. A “biquilha mágica” 5’4″ de Battaglin é lembrada até hoje como uma das grandes viradas em seu surfe, época em que adotou o apelido de “o Águia”, pela tatuagem no braço. Uma nova mudança, motivada pelo desemprego do pai, levou a família para a Barra. Para Müller, foi a oportunidade perfeita: entre o Postinho, o meio da Barra e o Quebra-Mar, encontrou três ondas consistentes e acessíveis a pé, permitindo treinos diários que aceleraram ainda mais sua evolução. Nessa fase, destacou-se nos campeonatos da ASBT – Associação de Surf da Barra da Tijuca – e entrou para a promissora equipe da Cristal Graffiti. Antes disso, havia vencido seu primeiro campeonato no Leblon, organizado por Marcelo Peninha, vitória que marcou sua confiança rumo ao profissionalismo. Os resultados na categoria Júnior renderam um prêmio decisivo: uma passagem para o Havaí. Aos 18 anos, Müller viveu sua primeira temporada no North Shore (1984/85), dividindo casa com surfistas brasileiros experientes. Pipeline, logo no primeiro dia, foi seu batismo de fogo: mar pesado, adrenalina no limite e a certeza de que o treino no Pepino o havia preparado para aquele cenário. De volta ao Brasil, enfrentou dificuldades para manter regularidade como profissional. A grande virada veio com o curso de meditação transcendental feito ao lado de Rodolfo Lima. O impacto competitivo foi imediato: venceu a etapa profissional do Quebra-Mar no circuito carioca, em 1986, e passou a frequentar pódios de forma consistente. A regularidade, marca registrada de sua carreira, nasceu ali. Em 1987, tornou-se vice-campeão do primeiro Circuito Brasileiro de Surf Profissional. Liderou boa parte da temporada, foi vice-campeão na etapa da Lightning Bolt e, depois, campeão no Fico Festival. Só perdeu o título na penúltima bateria do Circuito, por apenas 20 pontos, uma diferença mínima para quem tinha 850 pontos de vantagem sobre o terceiro colocado. Na época, era visto como o surfista mais consciente e estratégico do país. Nos anos seguintes, acumulou resultados expressivos: vitórias importantes na Abrasp e uma vitória significativa no QS de Florianópolis, superando Barton Lynch, Jojó e Julio Adler. Em 1995, viria um dos grandes destaques internacionais de sua carreira: o nono lugar em Pipeline, substituindo de última hora o australiano Damien Hardman. Ondas entre 10 e 15 pés confirmaram sua capacidade técnica em um dos palcos mais desafiadores do mundo. Pedro Müller seguiria competindo por mais de duas décadas. Em Ubatuba, já aos 38 anos, conquistou sua última vitória no Circuito Super Surf 2004, num dos triunfos mais marcantes de sua trajetória. Hoje, vive do surfe como treinador, comentarista da Sportv e um dos proprietários da @escola_pedromuller, na Barra da Tijuca, administrada pelo sócio Adelmo Noite. Acompanhe ns publicações nas redes sociais @museudosurfesantos. Coordenador de pesquisas históricas do surfe @diniziozzi, o Pardhal.

Como uma prancha largamente usada por surfistas fora do circuito mundial profissional pode ganhar atenção? Coloque a dita cuja nos pés de um bicampeão mundial. Quer um destaque ainda maior? Filipe Toledo vence o tricampeão Gabriel Medina. Pronto. Vamos por partes. Na etapa do Championship Tour, na Nova Zelândia (Maio 2023), Filipe acabou não vencendo a disputa da quarta de final contra Griffin Colapinto, mesmo obtendo a melhor nota da bateria. Faltou uma onda. Mas o assunto aqui é outro, ou quase. Em um universo dominado por triquilhas, desde 1981, a diversidade de pranchas, no século 21, começou a ganhar espaço fora das competições. No meio de antigas novidades, biquilhas com trailer fin (estabilizador central) se mostraram mais controláveis e amistosas, levando muita gente a adotá-las no quiver. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Filipe Toledo (@filipetoledo) O modelo de biquilha com estabilizador central já havia sido testado mas ganhou vida nova em 2003, com as Super Twins do shaper, tetracampeão mundial (79, 80, 81 e 82), Mark Richards. Ele trouxe de volta suas Twin Fins do início dos anos 80, adicionando uma “quilhinha” central. Daí, de repente, Filipe Toledo coloca no jogo do circuito mundial o modelo Modern 2, da Sharp Eye Surfboards. Vence Gabriel Medina nas esquerdas de Raglan e deixa muito mais gente antenada sobre as possibilidades de uma twin com trailer fin. Filipe não foi o primeiro a fazer algo que eu esperava há tempos. Kelly Slater inovou, diminuindo o tamanho das pranchas e competindo, em algumas situações, com o que eram mais bi do que triquilhas, na primeira década do século 21. Dane Reynolds também fez isso, mas vamos combinar que esses dois não são parâmetros de surf normal. Deivid Silva também ousou. Abiquilhou-se numa etapa. Mandou bem, mas não chamou tanta atenção. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Sharp Eye Surfboards (@sharpeyesurfboards_au) Quando se trata de altíssima performance pesa sempre o fato dos atletas da elite não terem muito tempo para experiências fora da casinha das triquilhas. Mas, pela primeira vez, Filipe, além de seu ano sabático, em 2024, teve, como todos os Tops, os mesmos raros sete meses de folga antes da temporada 2026. Isso parece ter criado espaço para lidar com pranchas diferentes, memória física e jogo mental para se arriscar com um equipamento não muito convencional na Nova Zelândia. Sim, pranchas realmente diferentes pedem ajustes na maneira de usá-las e isso requer tempo e, claro, talento. Duas coisas chamaram a minha atenção. Impressionante como podemos e devemos comparar os melhores do surf competitivo profissional com pilotos da Fórmula 1. É com eles que a indústria das pranchas evolui mais e melhor. Detalhes sutis, milimétricos, que essa turma sente no funcionamento de uma prancha podem ser incorporados aos modelos que a maioria dos surfistas não conseguiria detectar ou explicar. Eles dão o caminho do que será usado pelos consumidores “normais”. Shapers são mais teoria, estudo. Tops são prática. As mudanças surgem daí. Segunda, e mais curiosa. Um esporte que durante tanto tempo teve uma aura de vanguarda e ousadia leva muito tempo para propor ou acertar mudanças mais drásticas, seja na construção ou desenvolvimento de design. Não creio que seja culpa dos fabricantes, já que essa indústria nunca gerou dinheiro suficiente para que se desenvolvesse como deveria. Ainda por cima a competição tem um formato onde há pouco espaço para o diferente quanto à performance. Mas isso é conversa para outro texto. Por agora fica a dica. Mesmo ideias estranhas à normalidade podem resultar em bons resultados. Teste tudo que é prancha que você puder. Não tenha medo, você não depende de notas dos juízes para ser feliz.