
A Indonésia é um dos lugares especiais do mundo, principalmente para os surfistas. As ondas parecem desenhos de tão perfeitas.
Para qualquer ocidental é uma evolução cultural e espiritual conhecer a cultura do povo indonesiano, seja budista ou islâmico.
Surfar aqueles tubos chega a ser um desaforo de tanto prazer… Somente um surfista sabe o feeling.
Bali em especial, há dez anos atrás, quando eu ainda freqüentava, era demais, principalmente para mim, que além de todo crescer culturalmente, ainda absorvia as energias das ondas.
Minha primeira jornada a Indonésia foi em 83. Eu ainda era moleque e Bali ainda era selvagem.
Tinha bem menos gente. Eu sabia das conexões porque já disputava eventos. O campeonato Waimea 5000, que acontecia no Rio de Janeiro, era o lugar onde recebia informações da galera daquela época, como Fred D’Orey, Roberto Coelho, Leal, Rodolfo Lima, Dardal, Valdir Vargas, Roberto Valério, Renan Crabman, Broca, Kronig, Ianzinho e outros caras que já conheciam os sete mares.
Naquela época, os locais de Uluwatu citavam nomes como Tico, Oscar, Manga, entre outros aventureiros que deixavam sua marca espiritual no coração dos locais.
No início da década de 80, existiam apenas restaurantes e hotéis em Kuta Beach e também não eram muitos. Legian Beach era deserta e selvagem.
Em 91, quando fui pela última vez, o cenário era outro. O trânsito em Kuta estava infernal, com hora do rush e tudo. O crowd de Warungs em Uluwatu era total.
Na água, ainda era bem melhor do que Rocky Point (Hawaii), mas já exigia certa habilidade para dominar o crowd.
Legian Beach se misturava com Kuta cheia de hotéis, lojas e restaurantes.
Lugares como Padang Padang e Bingin não eram dominados por tantos Warungs, como é hoje, mas já existiam alguns.

Naquela época, li um livro sobre a história de Bali e aprendi bastante e percebi como tudo era diferente. A civilização ocidental começou a se aventurar por aquelas bandas por volta da década de 30.
Não queira pagar seus karmas na Indonésia, porque terceiro-mundo do outro lado do globo é sinistro.
As festas e baladas sempre foram uma constante. Só night com européias, australianas, brasileiras e doidos. Excluindo o trash da barra pesada, como as drogas, que estão por todo lugar.
As pílulas de êxtase era brincadeira, quase que normal. Magic mushrooms, uma droga legal perante a lei balinesa, era vendida num bar chamado Midnight Oil.
A heroína rolava solta, e como lá é Oriente, era fácil ver uns caras (europeus e alguns locais) esquisitíssimos. Sem falar no haxixe e skank. Nesse mundo das drogas, só tragédias.
Soube que tem gente presa condenada à prisão perpétua só por porte de maconha. Fora outros lugares, como Singapura ou Maldivas, que penalizam severamente quem é pego com drogas, podendo chegar até à execução. Equilíbrio e saúde para os inteligentes.
Passei algumas temporadas em Bali… numa delas, em 85, depois de uma participação fraca nos campeonatos da ASP na Austrália, fui parar em Bali com o Martin Potter, Zecão e Cinira.
Outra temporada, ainda mais animal, foi com o Carlos Burle em 91. O auge dessa trip foi em Desert Point. Zecão, Beto Santos, Magnus, entre outros. Só salão. Ali marcou o show de despedida para a minha aposentadoria forçada.
Foi numa destas épocas que evolui muito no surf e na vida, quando achava que os balineses eram amigos. Achava…porque vejam só:

Lendo a matéria “Surf enquanto dilema” do Fred D’Orey, publicada na revista Fluir, me lembrei de um episódio que aconteceu comigo em Bali.
Uma bela manhã fui direto da night para Uluwatu surfar sem dormir. Estava com o feeling aguçado…night show…vibe total.
Chegando em Ulu’s cedinho e fissurado, vi o mar perfeito somente com dois caras na água. Infelizmente me deparei com o Warung que guardava minha prancha fechado.
O meu ser interior pedia surf. Eu tinha que cair, bateu a pressa. Surgiu um puto moleque balinês, que mostrava ser meu amigo todos os dias até então. Ele me ofereceu sua prancha marron, de tão velha e amarelada que estava.
Esse balinês, que eu achava ser meu amigo, tinha esta prancha – presente dado pelo próprio Fred d’Orey. Era uma Kronig com canaletas e boa flutuação para mim. Era a prancha adequada para aquele momento. Olhei para as ondas, o mar perfeito. Olho para dentro de mim… zen. Só preciso colocar em prática minha vontade.
Foi um momento delicado da minha existência. Sem pensar em negócios. Tava virado. Era só brotherhood…
O balinês, em posse da prancha, olha para mim na maior vibe mercenária. Enxerguei naqueles olhos mongólicos de sombrancelha balançante o símbolo dos cifrões dentro de suas pupilas.
“Five thousand rupias, my friend”, disse o moleque. Fiquei indignado com a atitude e não aceitei.
Só falei: Isso não é nada, pois o valor correspondia a menos de US$ 3. Por favor, não me cobra, não é pelo dinheiro.
Aquele dinheiro, ou mais, daria numa boa, mas não daquele jeito. Sei lá, talvez vocês nem entendam. Deixaria roupas de patrocínio ou jeans, que eles se amarravam tanto.

Fiquei triste pela falta das ‘vibes’. Na coluna de d’orey, ele questiona até onde é válido ensinar o surf para outras tribos.
Esse pensamento surgiu numa barca para Mentawaii em que estava ele, Fábio Gouveia, entre outros, e num dia de poucas ondas eles resolveram ensinar alguns garotos locais a surfar.
Gouveia chegou até a presentear um dos garotos com uma prancha.
Um dia depois, eles voltaram ao mesmo lugar e constataram que o capitão do barco em que estavam tinha apreendido a prancha do moleque, alegando que no futuro ele poderia se tornar um local e não colaborar com o surf dos estrangeiros.
Curti a session com uma de suas pranchas. Pena que rolou esse episódio. Será que ele nesses 10 anos já aprendeu que as ‘vibes’ da alma não tem preço?
Obs. Escrevi essa coluna antes do atentado. Infelizmente essa vibezinha descrita não chega a ser NADA perto da sacanagem que rolou. Acho que a pior coisa que poderia acontecer, e já está acontecendo, nesse novo milênio é ficarmos nas mãos de líderes fanáticos como Bush, Bin Laden, Saddam, e outros menos famosos… Socorro…