Poesia tubular

Baggio sonha acordado

Jorge Baggio entocado em algum lugar do Brasil. Foto: Arquivo pessoal Jorge Baggio.

Por intermédio de um pequeno texto, misturando realidade, sonhos e sentimentos, tento passar um pouco das experiências e emoções vividas nos últimos anos de minha vida.

 

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Quase sempre escrevi textos jornalísticos e mais documentais. Mudando e quebrando um pouco o padrão desta vez, resolvi passar isso de uma forma um pouco mais, quem sabe, poética…

 

Espero que gostem. Mais informações sobre as viagens podem ser vistas no canal Barrels Board do Waves.Terra.

 

“A lua brilhava forte no céu, iluminando a floresta, os coqueiros e deixando o mar com uma cor que eu nunca havia visto, uma mistura de cor presente só nos sonhos, um tom entre o preto e o azul.

Baggio despenca rumo a mais um canudo. Foto: Arquivo pessoal Jorge Baggio.

 

O único barulho era o das ondas na costa, misturado com o das marolas batendo contra o casco. Na praia era possível ver uma clareira, iluminada pelo fogo.

 

Estávamos há dias no mar, ansiosos por chegar ali. Mas precisávamos esperar clarear, para achar o caminho certo entre os recifes até a praia.

 

Deitado na proa eu apreciava o céu estrelado, e tentava absorver o máximo daquele momento mágico. Adormeci e logo acordei ofuscado por uma forte luminosidade no rosto: era o sol nascendo.

 

As nuvens no horizonte alaranjadas embelezavam ainda mais aquele lugar, a água clara, muitos peixes e enormes arraias passavam nadando pelo barco…

 

Fiquei alguns minutos parado, sentindo o cheiro dos corais, apreciando o vento que balançava levemente os coqueiros e alguns nativos que pescavam nos recifes.

 

Logo fui chamar o capitão para atracar o barco. Na descida, uma calorosa recepção. Fomos levados a algumas cabanas de madeira escura, tinham camas com mosquiteiros, duas em cada quarto.

 

Uma menina nova, com feições muito lindas e exóticas, nos mostrava o bangalô, o refeitório e o lugar onde podíamos tomar banho. Ela se chama Made. Estávamos famintos e fomos ao refeitório, um lugar grande, todo feito em madeira, com dois pisos.

 

Enquanto comíamos no segundo andar, um enorme lagarto apareceu lá embaixo, expulsando alguns macacos que pegavam restos de comida. Demorei um pouco, mas logo percebi que era um dragão de Comodo, um dos mais venenosos animais existentes.

 

O chefe do camping, que estava sentado conosco, logo explicou que naquela floresta existiam tigres e que era importante tomar cuidado ao andar a noite pela ilha. Ao terminar de tomar o café da manhã com muitas frutas, fomos até as pedras, caminhando cerca de 10 minutos por uma trilha com muitas folhas secas e areia no chão.

 

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Ondas perfeitas quebram sem crowd. Foto: Arquivo pessoal Jorge Baggio.

De lá era possível ver as linhas no horizonte, o swell chegava vindo de longe, muito longe, o que fazia com que o período das ondas fosse grande, e elas muito perfeitas.

 

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Não era possível saber o tamanho pela distância do local onde quebravam, mas eram grandes, com sprays enormes e sessões longas.

 

Aquela ondulação havia se formado próxima ao Pólo Sul e já viajava pelo oceano havia cerca de três ou quatro dias.

 

Finalmente estávamos ali, depois de cerca de três anos procurando por essa onda, e ela parecia funcionar em condições perfeitas.

 

Baggio prepara o bote. Foto: Arquivo pessoal Jorge Baggio.

Voltamos até o camping, pegamos os equipamentos, pulamos no canal que se formava entre o recife e saímos remando com cuidado, pois a profundidade não era grande e existiam muitas cabeças de corais perdidas.

 

Enquanto nos aproximávamos, curtíamos o visual, a água muito clara, os corais coloridos e o céu azul, com um sol que brilhava muito. Direitas perfeitas vinham quebrando, muito tubulares, com uma bola de espuma por dentro do tubo, e terminavam no canal com sprays enormes!

 

A água era muito quente, e um fraco e quase morno vento terral soprava. Como nunca tínhamos surfado ali, ao chegar depois da arrebentação tivemos que nos localizar por algum ponto de referência em terra, para saber perfeitamente onde a onda começava.

 

Bem posicionado, veio a primeira série, deixei a primeira onda passar, a segunda veio grande, no limite da bancada, entrei muito por trás. Quando cheguei à base, o tubo já me encobria completamente.

 

Cavei lá dentro do tubo, acelerando muito, o visual era lindo, o tubo azul, a boca dele redonda, mudando de forma a cada instante, o barulho da onda quebrando, as montanhas da ilha ao fundo.

 

Segurei o máximo que pude até sentir um enorme spray passar por mim, saí no canal, já olhando pra trás. Outras quatro ondas perfeitas enroscavam sobre a bancada perfeita. Numa delas, Thiago passava por dentro de um tubo enorme.

 

Depois de quatro horas surfando, voltamos exaustos ao camping. Chegamos e tomamos muita água de coco servida por Made e suas primas. Ficamos no fim de tarde apreciando o pôr-do-sol, as milhares de cores entre o vermelho, o alaranjado, o amarelo, o azul e o verde que se formavam no céu e eram refletidos pelas rasas águas do recife.

 

Um nativo voltava pela praia, com um enorme peixe, provavelmente um atum, que seria servido mais tarde no jantar, regado a muito peixe, cremes de coco, arroz e frutas”.

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