Descíamos rápido pela trilha. A terra, as cores e as pedras eram apenas sombras e vultos escuros. O único som era do vento que balançava as árvores com força. O mar brilhava em meio à escuridão, com suas espumas brancas iluminadas pela luz da lua cheia.
Luz que também permitia nossa difícil descida. A trilha era íngreme. Toda a atenção era necessária. A camiseta molhada, a mochila pesando sobre os ombros e a prancha embaixo do braço. Ríamos e contávamos histórias motivados pela certeza de ondas enormes no dia seguinte.
Logo estávamos pisando sobre a gelada e pesada areia fofa da praia. Caminhávamos rumo ao nosso acampamento, no outro lado da praia. Aos poucos, passo a passo, chegávamos perto da clareira entre as montanhas e as dunas, a luminosidade da fogueira e o som das vozes dos pescadores que ali ficavam.
Este é um trecho de um momento especial vivido na minha adolescência, nos anos 90, em Florianópolis (SC), uma noite que antecedeu mais uma épica sessão de surf com um grande amigo, o Leonel Thompson, na Lagoinha do Leste.
Época literalmente mágica na cidade de Fanklin Caescaes, de Zininho (compositor do canto de amor a ilha). Lembro que os habitantes da Lagoa da Conceição, em grande parte, eram os antigos descendentes dos colonizadores Açorianos.
Também eram famílias de jovens vindas de outros estados (profissionais liberais, professores universitários em sua grande maioria) para este lugar único, com lagoas, dunas, montanhas e praias de areia branca, com o intuito de construir um lugar ideal para viver e criar suas famílias.
Minha geração realmente viveu alguns anos áureos neste lugar. Lembro dos surfistas que iniciavam como Pedrinho (Albano), Shao, Lua, Delmã, Santosha Dedei, o grupo Dazaranha fazendo seus shows inspirados na capoeira, o Netão dando carona a quem precisava nas rendeiras. Dos surfistas mais velhos o Paulinho Padeiro, o Marreco (Fernando Moniz – um dos pioneiros no surf na ilha vindo do Rio de Janeiro, que hoje em dia se mudou para a serra catarinense), o Gralha, Adriano Matias, Felipones (do jornal Drop), Guga Arruda, Guilherme Ribeiro, Fabrício Machado, Capilé, Juninho Maciel, Pedroca, entre outros.
As caminhadas nas noites de lua cheia nas dunas, acampamentos com as meninas na Lagoinha do Leste, dias na Guarda do Embaú. Éramos filhos de uma geração que havia vivido os ideais da década de 70, com valores humanos, essência, com interesse em construir um mundo melhor.
A tranquilidade da beira mar, o bairro Santa Mônica com poucas casas, Florianópolis realmente era um lugar que nem em sonho acho que seria possível imaginar.
Mas a cidade neste momento crescia rapidamente, e de forma desordenada, a construção civil e sua rentabilidade começavam a transformar nossas trilhas, beiras de lagoas, praias em concreto e asfalto. E quando escuto uma palestra de Domenico Demasi, falando que o turista que pode trazer renda para a cidade, disposto a gastar milhares de dólares, vem para esse lugarzinho no Sul da América do Sul para viver algo diferente, único, não para andar sobre asfalto e frequentar shopping centers.
Entendo nosso valor único, depois de passar 15 anos viajando pelo lugares mais belos de nosso planeta, e chego a conclusão que Florianópolis com seus encantos e peculiaridades, é realmente um dos lugares mais aconchegantes do planeta pra se conhecer. Vivemos anos mágicos, com pouquíssima violência, muita natureza, com boas festas, e numa cidade que exalava alegria.
Mas os valores excessivamente materialistas do sistema criado no planeta pelo homem, continuaram invadindo a cidade e logo começaram a dizimar a vida da ilha. A praia Brava foi uma das vítimas, hoje em dia transformada num balneário de concreto, em 85 a única forma de chegar era a pé. Itaguaçu, poluída ainda nos anos 80, Canasvieiras poluída, o mar de prédio tomando conta dos entornos do morro da Cruz (Maciço do Morro da Cruz), favelas crescendo rapidamente sem controle.
Mas a fama e o glamour continuaram atraindo pessoas. Desta vez foram os grandes empresários e bem sucedidos que começaram a chegar a Florianópolis. Bem vindos, mas trazendo também valores ainda um pouco desconhecidos em nossas confraternizações e festas, os camarotes separando os amigos, as champagnes de centenas e milhares de reais com faíscas, e a necessidade da auto-afirmação pelo poder financeiro.
E assim a magia de nossa cidade foi se perdendo em meio à violência de um sistema onde a vida não tem vez, onde a busca material, e o status valem mais que o sorriso de uma criança, que um abraço uma mãe, que a vida de um pai.
Talvez isso seja nosso estágio de evolução mesmo. Mas tendo consciência, histórica, espiritual de nossa existência enquanto ser humano, temos no mínimo o dever de refletir sobre o que nos trouxe felicidade verdadeira até hoje, e as simples felicidades e alegrias efêmeras.
Sobre nosso lado impulsivo e imediatista em obter sucesso, e sobre o que se trata esse sucesso. Já dizia Jung, que as pessoas que chegam ao sucesso são as que teriam a maior facilidade em ter o eixo de sua consciência alterado do ego para o self (sua essência) justamente por perceber que os valores de sucesso de nosso mundo, não são os valores que nos completam ou trazem a verdadeira felicidade.
Que o self seria mais ou menos quando tivéssemos consciência que fazemos parte de um processo de evolução, que somos parte de um todo e não o centro do mundo (como quando presos ao ego). Que todas nossas dores e ânsias já foram sentidas por muitos seres humanos no passado e ainda serão sentidas no futuro.
Que essas tragédias que vem ocorrendo, que toda essa energia possa ser convertida em algo positivo, em combustível para lutarmos por um mundo mais humano, onde o ser humano aprenda não só a dividir entre si, como com o planeta onde vive. Pelas lições que temos, é possível ver que o caminho tomado até agora está nos levando a um mundo cada vez mais violento e difícil de se viver.
E agora quando escuto o refrão da música do querido grupo Dazaranha “– Oooo Diabo desembarcou na ilhaaa…” já não sei mais se me lembro do vento Sul que chegava, com suas nuvens cinzas, balançando as árvores com sons que me faziam dormir um sono leve e sonhar com as ondas que vinham com ele ou se dos prédios em cima das dunas, dos tapetes pretos (asfalto), da violência, dos cercados e das champagnes de milhares de reais nos separando em nossas festas.
Acredito hoje em dia que as soluções para nossa cidade passem por formas sustentáveis de geração de renda, indústrias limpas que permitam trazer renda sem gerar poluição. Como a indústria de turismo ligada à natureza, a audiovisual, de games, animação e entretenimento no geral. O turismo voltado para um público com bagagem cultural, a exemplo de lugares como Polinésia Francesa e algumas partes da Austrália.
Jorge Baggio, bodyboarder e cineasta, prepara o documentário “Jamais um Poeta teve Tanto para Contar”, uma reflexão sobre o tema abordado no texto.