Depois de 10 anos sem vir ao Hawaii, o santista José Paulo Neves Ferreira, o Zé Paulo, voltou ao North Shore de Oahu nesta temporada.
Integrante da equipe brasileira no mundial amador de 1988, em Porto Rico, e atual chefe de equipe da Billabong Brasil, ele acompanhou os jovens Nathan Brandi e Peterson Crisanto na primeira trip deles ao Hawaii.
O objetivo da viagem é orientar e treinar os novos talentos em ondas de alta performance, além de dar continuidade à produção de um filme da marca, que já teve partes gravadas na Indonésia, Peru, Brasil e agora Hawaii.
Nesta entrevista concedida a Bruno Lemos, correspondente Waves.Terra nas ilhas havaianas, Zé Paulo fala mais sobre os projetos da Billabong com a nova geração e com o esporte em geral.
Fale um pouco de você e de sua vida para começar.
Estou com 38 anos e fui surfista profissional a maior parte da vida. Já cursei faculdade de jornalismo; já morei na Indonésia; já velejei por todas as ilhas do Hawaii e atravessei o Pacífico velejando, do Hawaii ao Tahiti, pelo mesmo caminho dos antigos polinésios. Hoje tenho uma escola de surf na praia da Baleia e casas para alugar em Camburi. E, finalmente, sou Surf Team Manager da Billabong Brasil.
Como foi sua experiência na Indonésia e por que você voltou para o Brasil?
Foi realmente uma grande experiência na minha vida, principalmente por descobrir que na Indonésia, é melhor alugar os barcos de quem já trabalha com isso do que ter o seu próprio barco. A não ser que você fique vivendo durante todo o ano e cuidando do barco, porque deixar na mão dos empregados não funciona e só da dor de cabeça. Outro grave problema é ter um sócio indonésio. Naquele país, se um estrangeiro possui algum negócio, ele tem que colocar no nome de um nativo. Muitas vezes são amigos, até possuir um negócio no seu nome. Voltei a morar no Brasil porque para os brasileiros ainda é o melhor lugar do mundo. E também devido aos problemas que a Indonésia vem enfrentando ao longo dos anos, como guerras religiosas, terrorismo, tsunamis, terremotos, etc. Além disso, eu queria construir uma família e estar próximo dos meus parentes e amigos.
Como é seu trabalho na Billabong e como foi sua trajetória até aqui?
Sou chefe de equipe da Billabong Brasil. Cuido de todos os assuntos referentes aos atletas. Também ajudo na concepção, organização e execução dos eventos da empresa. Organizo as viagens, produções de fotos e vídeos, além de rodar pela costa brasileira com o Billabong Bus treinando, dando suporte aos atletas e fazendo promoções e muitos amigos por onde passamos. Comecei a trabalhar para a Billabong na etapa do WCT Brasil em Saquarema, em 2002. A equipe simpatizou comigo, deu tudo certo e acabei sendo contratado assim que a Billabong International assumiu as operações no Brasil. E não posso deixar de citar o apoio do presidente, Chris Kypriotis, junto à equipe e aos eventos. Graças à visão que ele possui temos todo suporte e credibilidade para evoluir junto ao surf na América do Sul.
Quais os atletas da equipe atualmente?
Nossa equipe é composta por Silvana Lima, Marina Werneck, Isabelinha, Adine Pereira, Pedro Henrique, Pablo Paulino, Ricardo dos Santos, Nathan Brandi, Peterson Crisanto, Filipe Toledo, Yan Daberkow, Davi Toledo, entre outros.
Uma das últimas contratações foi o Ricardo dos Santos. Como foi o processo?
Eu já conhecia o Ricardinho, tive a oportunidade de surfar com ele em várias situações no Brasil e no Peru e tive a oportunidade de conversar muito com ele. Mas ele me convenceu quando disse que e empresa que o patrocinava não queria investir na ida dele para o Hawaii, e por isso ele não iria renovar o contrato. Disse que tinha arrumado dinheiro com a família e iria custear a temporada havaiana. Isso me chamou a atenção, pois estava procurando um garoto com essa disposição. A maioria dos garotos de hoje vai para o Hawaii como se fosse obrigada e chega morrendo de vontade de voltar. Claro que há exceções, mas isso me chamou muito a atenção. Sem contar que eu já conhecia o go for it do garoto, necessário para quem realmente pretende surfar Pipeline durante toda a temporada. Graças a Deus foi o que ocorreu, o garoto mostrou uma enorme disposição no Hawaii e sem dúvida foi um dos destaques da nova geração nestes três meses. Em abril ele disputará o Von Zipper Trials para tentar uma vaga no Billabong Pro Tahiti, em Teahupoo. Creio que seja o mais jovem competidor na triagem.
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E o Pablo Paulino?
O Pablo também vinha arrebentando em todos os eventos que competia no Brasil, eu estava presente nos eventos amadores e acompanhei toda essa evolução. Na minha opinião era um dos maiores talentos que o Brasil já teve e foi muito legal, pois logo que ele entrou na Billabong fomos juntos separar todas as roupas e acessórios no estoque para ele embarcar para Austrália. Mostramos para ele que os atletas são muito importantes dentro da empresa e ele sentiu muita confiança. Um mês depois foi campeão do Billabong World Junior na Austrália, o que nos deixou muito felizes e o levou para o time internacional.
Como você explica a estratégia de trazer o Peterson Crisanto e o Nathan Brandi pela primeira vez para o Hawaii, bem na época do início do circuito brasileiro amador e do Grom Search?
Nossa estratégia na Billabong International é projetar o futuro, não corremos atrás, corremos na frente e estamos trabalhando sempre visando o futuro. E o futuro para os atletas do Brasil hoje se resume em competir no WQS para alcançar o WCT. Este ano estamos focados em viajar, conhecer a maioria dos lugares que recebem etapas do WQS e WCT, conhecer as ondas e as pessoas, além de aprender inglês e evoluir como pessoa. Estamos preocupados com a evolução técnica e social dos nossos atletas, pois queremos que eles sejam grandes representantes não só da Billabong, mas também do nosso país. O Peterson foi campeão do Grom Search e do brasileiro amador no ano passado. O Nathan foi vice. Creio que este é o ano para os garotos ganharem experiência visando o circuito mundial. Sei da importância desses eventos no Brasil, mas com a evolução do esporte acredito que essa decisão vai produzir bons frutos num futuro próximo. Os meninos acabaram de completar 15 anos e precisam adquirir experiência internacional o quanto antes.
Como você avalia os resultados da empresa diante dos investimentos?
A Billabong Brasil investe no surfe de várias formas. Nos atletas, no centro de treinamento em Camburi, em eventos, viagens, filmes. Em 2006 tivemos WCT masculino e feminino, WQS masculino e feminino, Pro Junior no Brasil e Peru, além do Surf Rat Challenge (campeonato para categorias de base sub 16 e sub 14 masculino e feminino). O centro de treinamento é um projeto que dá todo o suporte para que os atletas evoluam em todos os setores. No ano passado, atletas como Anali Gomez e Peterson Crisanto, que moraram no CT, conseguiram atingir todos os objetivos através do trabalho desenvolvido. Peterson foi campeão antecipado do Grom Search e brasileiro sub-14, e Anali foi campeão sul-americana e vice-campeã mundial na Austrália, em janeiro deste ano.
Que dica você dá para um surfista que gostaria de um dia fazer parte da equipe Bilabong?
Para fazer parte do time, não basta apenas ser um bom surfista. Tem que ser atleta, tem que estudar, ser educado, ter boa aparência, carisma, se dedicar ao inglês visando o futuro, ficar longe das drogas e das baladas, entender sobre equipamento, tentar obter o máximo de informação e, sem dúvida, ter muito talento aliado a tudo isso. Assim, além de se tornar um grande atleta, irá se tornar uma grande pessoa também e esse é o perfil que procuramos investir hoje.
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O surf para mim, além de ser um esporte, é um estilo de vida, em que uma onda nunca é igual a outra e um dia nunca se repete. Isso nos faz acordar sempre com motivação para viver mais um dia, é o encontro com a natureza, e por onde passamos fazemos amigos e amizades inesquecíveis. Principalmente quando pegamos altas ondas, sem dúvida é o esporte que mais cresce no mundo e estamos trabalhando para que um dia possamos realizar mais um sonho, o de possuir um campeão do mundo no WCT. Espero que aqueles que surfam sempre continuem surfando, e os que nunca surfaram, que ao menos tentem para entender o porquê de tanta alegria e felicidade, afinal, ?only a surfer knows the feeling?.
