As maiores marés do ano acontecem no período do equinócio, quando o dia tem a mesma duração da noite. No estado do Maranhão temos a terceira maior variação de maré do mundo, podendo chegar a 7 metros.
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Entre os fatores atuais para uma grande pororoca, temos o período de chuvas (inverno no norte do Brasil) e a lua nova, sendo a fase mais forte e influente nas maiores movimentações de água nesse primeiro semestre.
A tábua de marés apontava 6.5 metros em São Luis, capital do reggae no Brasil.
Quando recebi a segunda equipe do ano para registrar e desfrutar das mágicas aventuras da selva, o rio Mearim já tinha mudado em menos de um mês suas bancadas, que preparavam um cenário inacreditável.
Depois de cruzar o Oceano Atlântico, chegava ao Brasil bem no período da lua nova de março, a primeira equipe lusitana para surfar nas águas barrentas da pororoca. Perfeito! A pororoca vai poder mostrar para Portugal um surf diferente e muito radical, pois estávamos prevendo uma maré muito forte.
A equipe foi organizada e liderada por Alexandre Nico, surfista e preparador físico da Nictecmar, que escolheu grandes personagens para participar de mais uma aventura: os longboarders Miguel Ruivo, Manuel Dantas, o surfista e jornalista João Valente e o fotógrafo Ricardo Bravo, que fizeram a cobertura para a conceituada revista Surf Portugal. Junto ainda, o repórter da SIC Tv André Antunes e o cinegrafista Góes, para documentar as ações do grupo.
No primeiro dia da expedição colocamos as lanchas na água e rumamos para a foz do rio Pindaré, o final do chamado Paredão da Morte do rio Mearim.
Nessa bancada a onda pode passar dos 3 metros e mostrar o lado sinistro do rio. Como era o primeiro dia da maré a pororoca poderia ser vista ainda no final de tarde. Como a noite estaria por chegar, ninguém foi surfar, apenas reconhecer a bancada.
As 18hs a água que corria mansamente virou uma onda que parecia estar pequena. Tinha seu meio metro, que foi se encaixando no rio e duplicando seu tamanho! Incrível… A maré mal tinha se formado e as condições já estavam alucinantes.
Quando por um momento avistamos Hélio Burle, visitante assíduo do Mearim, pegando sua onda em momentos de pouca luz. Vindo dos EUA, onde mora atualmente, o primo de Carlos Burle sempre se arrisca sozinho em remadas com fortes correntezas, jacarés e grandes peixes do rio. Um verdadeiro guerreiro Auera Auara. Os portugas não entenderam nada, mas tudo era novidade. Incrível!
O segundo dia seria o batizado da equipe, três goles da água da pororoca para ter o respeito e o aval dos três pretinhos, além de garantir o retorno em águas barrentas com ondas perfeitas.
Sessões de surf muito perfeitas e os alunos foram pegando o jeito da onda. Cerca de 3 horas de expedição no rio, surfando e buscando as melhores partes da pororoca. Um aquecimento para pegar o ritmo a partir de então.
As bancadas rasas e as fortes correntezas movimentam a lama do Mearim, que deixa o rio muito barrento. Isso faz com que os motores das embarcações ganhem um inimigo. A lama se torna um verdadeiro esmeril após entrar nas engrenagens, acumulando grande quantidade de barro depois de uma expedição de 4 dias.
E foi isso que aconteceu logo no terceiro dia da trip. O motor de uma das voadeiras começou a dar uns ?tilts? em momentos inconvenientes. Nos safamos de bons apuros, que o diga João Valente, editor da Surf Portugal. Ele sentiu na pele adrenalina pura e o poder do encontro das águas.
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O pior momento foi quando encostamos em outra embarcação para combinar a ação. Em poucos minutos o motor parou e a pororoca se pronunciou. Miguel Ruivo, um dos grandes nomes do surf português e João Valente estavam na voadeira junto comigo e com o piloto Iran.
A voadeira de popa para a onda e nada de funcionar o motor. Observando o perigo mandei a galera com prancha se agilizar e pular na água, enquanto remava na proa para virar a embarcação de frente ao espumeiro.
Miguel e João ficaram se olhando sem saber realmente o que iria acontecer, nisso falei com um tom mais severo: ?Pula na água logo e rema pro lado. Peguem a onda que logo resgatamos vocês?. Eles pularam. Eu também. Porém eu estava sem prancha e precisava salvar a lancha com o Iran.
Quando entrei no rio a água estava no meu peito e a espuma tinha meio metro. Impulsionei a proa pra cima e esperava a ajuda de Iran, mas no apavoro nosso humilde piloto ficou inerte no comando da voadeira e foi jogado para fora quando a pororoca nos pegou em cheio.
Iemanjá, Oxum, Netuno, Três Pretinhos, todos estavam do nosso lado aquele momento. A experiência de diversos naufrágios ajudou para que nossa embarcação não fosse engolida pela pororoca.
Numa ação inacreditável, a lancha passou por cima da onda e nem uma gota de água adentrou a embarcação! E o Iran?
Já estava no seu posto como se nada tivesse acontecido. Ao ser jogado para fora, o local que estava naquele momento apavorado, ficou agarrado na borda da lancha. Nesse mesmo movimento, se impulsionou para que não ficasse boiando na água. Ninja!
Minutos após o desespero a voadeira voltou a funcionar e seguimos o percurso da onda até o fim. Miguel Ruivo, grande nome do surf português, ganhou nota 10 ao entender o mecanismo da pororoca e conseguir aproveitar sessões inteiras sem precisar ser resgatado.
Ruivo chegou a fazer a curva do rio surfando, fato somente realizado pelo inglês Steve King, porém Ruivo foi mais longe no trajeto, assinando seu nome naquela onda de esquina.
Posso dizer que o carioca aportuguesado, João Valente conseguiu entender muito bem o feeling do encontro das águas do rio e do mar. Com o suporte fotográfico de excelente qualidade de Ricardo Bravo, Valente teve todas as ferramentas para publicar uma matéria alucinante, a melhor matéria de pororoca já veiculada numa revista de surf.
O editorial escrito com o fundo de uma esquerda de arrepiar foi um dos mais perfeitos que já tive o prazer de ler. Fora os detalhes do texto, digno de quem soube aproveitar todos os movimentos de uma expedição de surf na floresta. Parabéns!
Agora os primeiros surfistas portugueses da pororoca irão encarar um novo desafio: dropar a mais temida pororoca do Brasil, a do rio Araguari no Amapá. Aguardem!
Agradecimentos especiais a Glauco Vaz, Pereira, Ladir, Iran, Gilberto, Dr. Alexandre, Revista Surf Portugal, SIC TV, Goofy, OGIO, GUL, Auckland, ONG Maré Amazônia, Surfando na Selva e a cidade de Arari ? MA.
