
Como anunciei na coluna anterior, pousei na cidade de Perth em mais uma temporada de férias do curso de mestrado que faço na costa dourada australiana. Depois de consultar a previsão de swell, fui até o super conhecido balneário surfístico de Margareth River, juntamente com o surfista carioca Matheus Vargas.
Mesmo depois de pegar altas ondas, ver visuais maravilhosos, conhecer pessoas e locais interessantíssimos, pensei comigo: – O que contar de novo do West Australia?
Que naquela área tem todos os tipos de ondas?
Direitas, esquerdas, marolas e morras? Que você chega ao outside em picos com canal, sem canal, de fundo de areia, de pedra e na maioria de coral? Que canguru por lá é praga e morrem vários todos os dias atropelados nas estradas? Que lá existem vários secret spots, pico crowdeados, bodyboarders e surfistas de todas as idades?
Isso tudo não é novidade nenhuma, mas não é à toa que o pico é conhecido como o “Hawaii australiano”. Naquela região a maioria dos picos possui bancadas de coral, uma ao lado da outra, lembrando a costa norte da ilha de Oahu. As diferenças são o mato, chamado de “bush”, e o frio.

A temperatura nesta época do ano varia bastante por lá. Pela manhã e final de tarde o frio é realmente um fator a se considerar antes do surfe. Já por volta do meio-dia, o clima torna-se agradável e o sol brilha forte esquentando as roupas de borracha, equipamento imprescindível em Margareth River.
A cidade tem muito surfe a oferecer. Palco de um dos mais tradicionais eventos do calendário da ASP, o Salamon Master/ WQS 6 estrelas, faz a divulgação anual desta pequena cidade três horas ao sul de Perth. Este ano, Renan Rocha fez bonito por lá, terminando em quinto lugar.
Por estas e outras performances os locais são amistosos com os brasileiros que respeitam as regras básicas do line up. E foi isso que fez a minha trip mais interessante. Logo ao chegar à cidade, sem lugar para ficar, pegamos os classificados e ligamos para alguns locatários de quarto.
Para nossa sorte acabamos ficando na casa de uma local, com todo conforto, que nos apresentou mais alguns amigos e acabamos por nos divertir bastante às custas dos atalhos locais.
Margareth River não vive só do esporte dos reis. A região é um pólo gastronômico e há mais de 80 vinícolas que atraem turistas do mundo todo. Apos um ótimo dia de surfe, nos encontramos com nossas amigas australianas, Sally e Heidi, e fomos fazer o famoso “winery tour” à bordo do caminhão “corrida maluca”.

O caminhão era muito style. Uma lata velha da pior qualidade, cor de violeta com portas de fibra de vidro e muito barulhento também. Dentro, a caçamba virara um quarto com uma cama de casal e uma asa de coruja enfeitava a parede. O passeio consiste em visitar as vinícolas, onde pode-se provar todos os vinhos de graça e ainda de quebra há paradas em fabricas de queijos e chocolate.
Uma coisa engraçada e que vale ser citada é o modo de vida da local Sally. Tipicamente australiana, era mora numa casa isolada do mundo. No meio do “bush” na famosa Moses Rd (estrada de terra que dá acesso a mais um dos picos da região).
É a única casa num penhasco em frente ao Oceano Índico. Não recebe sinal de TV, telefone ou rádio. Vive no meio do nada, literalmente. E para completar o raro modo de vida, ela ganha a vida domando cavalos selvagens. Nossa guia para assuntos “out surf”, Sally com certeza garantiu boas risadas e ótimas lembranças do verdadeiro “west australian lifestyle”.
Deixando os vinhos de lado (tarefa difícil para quem gosta), o dia começava colocando o long john e as pranchas no carro. O check-up no main break de Margareth River (pico onde rola o campeonato) é diário antes de partir para busca. Foi lá que conhecemos mais uma figura, Marcus “bate-dente”.
O gaúcho viajava sozinho dormindo dentro do carro, o que explica o apelido. Outros brasileiros que também surfaram conosco foram Tonhão “Pé de bomba” e Gustavo “Pseudo”. Os dois moram por lá há mais de dois anos, surfando e trabalhando nas vinícolas como bóias-frias. Durante o WQS 6 estrelas, a casa deles vira abrigo para maioria do competidores brasileiros menos abonados do circuito.
Depois do surf matinal, todas as tardes foram dedicadas ao treino e a busca da essência do surf, o tubo. E para isso olhávamos para o norte, onde checávamos uma onda que proporciona o tubo mais pesado da região, se não um dos mais pesados do mundo.

“A caixa”, como gostávamos de chamá-la, ou melhor, “The Box”, é uma onda como nenhuma outra, que não permite erros e que quando passa de 5 pés são poucos os surfistas habilitados e com coragem suficiente para colocar para dentro. A onda quebra sobre uma rasa bancada de coral e o drop é feito por trás do pico (dependendo do tamanho, o drop não e tão buraco e dá tempo suficiente para ficar em pé).
Após o “take off”, em questão de segundos a onda pede uma cavada rápida para então jogar um lip muito grosso e forte. Velocidade e reflexo são fundamentais na hora de botar para dentro, porque um erro ou uma enterrada de borda podem colocar o surfista em situações de extremo risco. Dentro do tubo a vibração é intensa e a pressão do spray também é um fator alucinante neste pico. A visual do canal é mágico e faz desta onda uma das mais fotografadas do mundo.
Depois de The Box, outro pico muito famoso em filmes de surfe é North Point (pico onde o ídolo local Taj Burrow tomou vinte pontos na cabeça). Uma direita extremamente tubular que só quebra com swell monstruosos. Em dias menores, no outro extremo da baía quebra uma esquerda chamada South Point que também rola um surfe, mas nada que se compare a irmã do lado oposto.
Outros picos surfados na trip foram Lefthanders, The Womb (pico preferido de Shea Lopes na Austrália), Indjup, Red Gates, Gas Bay, Moses Rock e toda a região de Yallingup.
Para os amantes de ondas grandes e tow-in principalmente, The Bombie é a onda a se aventurar. Este pico fica no lado sul do main break de Margareth River e recebe ondulações bem grandes. Paul “Antman” Paterson treinava tow in diariamente por lá dando um show à parte para os surfistas que assistiam do estacionamento.

Em Margareth River não deixe de visitar as cavernas que também são outro ponto turístico da região e fazem a cabeça nos dias flats, assim com a pescaria. Quanto às lendas dos tubarões na região, só chegamos a ver três. Depois de cinco minutos de pânico, fomos avisados por um local que eram apenas filhotes que não passavam de 2 metros!
Depois deste susto, vimos muitos golfinhos, tartarugas e uma fauna incrível fora da água. Para os mais afortunados, um ótimo lugar para surfar neste lado da Austrália se faz dirigindo para o norte onde se pode surfar as esquerdas do deserto australiano que ficaram famosas apos os filmes “Billabong Challenge”.
É necessário levar uma grande quantidade de equipamentos de camping, visto que a acomodação local é precária e escassa. Isso sem falar num carro 4X4 em boas condições, um bom guia e muita disposição para temperaturas que variam de 5 graus a noite até 40 durante o dia.
Historias engraçadíssimas, figuras hilárias e muitos visuais estonteantes estão a espera dos surfistas que escolherem o West Australia como a trip da vez. Ondas perfeitas de todas as formas e tamanhos fazem de Margareth River mais um paraíso do surf. Nao esqueçam de provar os vinhos locais, as pranchas grandes e respeitar os locais e principalmente a natureza.