Mercado

Avaliação de tendências

Morongo (esq), proprietário da Mormaii, com molecada da equipe no Hawaii: legitimidade na condução da marca. Foto: Fabiana Nigol.

O surf sempre foi pioneiro em apresentar tendências de comportamento, que quando aproveitadas corretamente pelos empresários do setor, revelaram-se uma imensa fonte de lucros.

 

Mas aonde detectar as tendências? Como manter-se ligado no que acontece? Um primeiro passo é óbvio – e como tal, pouco dito: escute você mesmo. Ouça seu “feeling”. Confie no seu taco.

 

Ser empresário de surf não é para qualquer um. É para gente sensível, sacada, que mesmo sem ter uma formação cultural formal (ou tendo) consegue captar e transformar em produto o que passa na alma de seus clientes, o que eles querem comprar e o que consegue surpreendê-los agradavelmente.

 

Não é pouca coisa sabendo-se que esta façanha tem que ser repetida a cada estação, a cada coleção, a cada ação de marketing e promoção.

 

Alfio Lagnado, que tem uma educação formal, consegue: a Hang Loose se mantém há mais de 25 anos interpretando o espírito surf no Brasil, sem deixar de surpreender todo mundo.

 

E o doutor Morongo e sua Mormaii, empresa sacada que consegue participar, formar, agregar à essência, ao espírito do surf. Legitimidade cada vez mais fundamental no mundo interconectado à velocidade da luz. Só para citar alguns dos raros que se têm mantido há mais de 25 anos no pico, na crista da onda, no bote do drop, na parede da morra.

 

Segundo passo

 

O que uma tendência de comportamento tem a ver com o mercado, como influência meu cliente, como transformar o que está sendo percebido em lucro?

 

Na ordem: a tendência mostra como os compradores estão ou estarão pensando. Vale lembrar sempre que este é um mundo de percepções. Assim, os produtos (e serviços, promoções, eventos, mídias etc.) que espelharem, demonstrarem, e se alinharem à estas percepções, certamente farão você vender mais.

 

Já se sabe que hoje não é o preço, é a sintonia da marca com o que seu cliente sonha, com o que ele imagina. Acerte isto e a coleção estará vendida. E sua marca mais valorizada.

 

E como transformar tendências em produtos? Se você não sabe, sua equipe de estilistas sabe. Se ela não sabe, nem seu marketing, nem você, “you are in trouble, fucked, finito”.

 

Não dá para ensinar em um artigo que você certamente vai ler correndo – afinal, não somos muito de ler no surf, não é mesmo? Nossa cultura é muito mais visual.

 

Está aí uma tendência. Explico. De tempos em tempos, mudam as gerações. Isto é uma aproximação, muito genérica, mas útil para juntar as mudanças que estão rolando.

 

Comecemos pela geração chamada de “babyboomers”, o pessoal que nasceu depois da segunda grande guerra. Grosso modo dá para identificar uma série de características desta turma – e daí sacar o que vai vender para eles – e como.

 

Esta geração é a última da palavra escrita. A partir desta as novas gerações são visuais, ou seja, seu principal código é o visual, os nomes já explicam: Visual Generation, Generation X e Generation Next.

 

Por favor, lembre-se de que tudo que segue agora são aproximações, generalidades que cabe a você filtrar e pegar o que lhe interesse, o que no fundo você acha que está certo.

 

Isto tem vantagens e desvantagens. A palavra é precisa, mas requer a atenção e concentração; e preparo repertório. A imagem é ampla, referencial, conta uma história não dita, apenas intuída, complementada pela imaginação de quem vê. É isto que interessa às novas gerações.

 

Nem pense em dizer que as novas gerações que não lêem, são desinformadas – não são, são superligadas, observe seu domínio das novas tecnologias; não têm poder de concentração – têm em abundância, veja sua dedicação a jogos de computador; não têm interesse em nada. Têm todo, mas a seu modo e a seu jeito. Que cabe a você, como sempre, decifrar, interpretar e traduzir em produtos que falem a eles. Nada que você não tenha feito sempre, confere?

 

Tendências

 

O valor simbólico da moda e como este se relaciona com a identidade e percepção de seu cliente. A imagem do produto dá uma sensação gostosa, aconchegante: preciso ter esta roupa!

 

Quero o corpo como minha roupa, decorado, com a luz do sol, com piercings, tatoos e maquiagem. Pense nisto, o que dá para produzir nesta linha?

 

Cada coisa muito nova que aparece leva cinco, seis, sete anos para que o choque que provoca ser absorvido. Chegue antes, ainda que a um custo; arrisque-se a acreditar. Esteja sempre atento à idéias e propostas marginais, pegue sempre algo delas, nada extremo, só uma referência, uma dica que você viu, se adiante,. O novo, o marginal, o outsider sempre será o mainstream de amanhã.

 

Veja de longe. As coisas de longe ficam bonitas, parecem bacanas (esta é para pensar na cama, mas você sabe do que eu estou falando, lá no fundo sabe muito bem… se esforce e traga para fora).

 

Conforto: produza uma roupa que seu cliente não sinta nada, que sinta como se fosse seu próprio corpo. Nem percebi que estou usando roupa ? as sandálias Havaianas têm esta pegada, você não sente nada nos pés, parece que está descalço, mas está protegido. Pense toda sua coleção assim: livre, leve e solta.

 

Autenticidade. Seus clientes sacam à distância o não-original. Mantenha-se fiel a todo custo. Muita gente manda fazer peças malhadas em uma coleção, enganando a si próprio. É atirar no pé. Pode até vender, atender aos pedidos de produtos mais baratos permanentes do varejo, do atacado – mas ao final, vai fazer todos perderem. Mantenha-se você mesmo.

 

Inove, modifique, renove. Não importa para onde você vá, mude. Nem que seja para ficar no mesmo. Mas mude, mude sempre, não repita. Mesmo seus clássicos; renove-os. Moda é passageira, esta é sua principal força, sua principal motivação, queremos um look diferente, não importa se é a melhor combinação para nós ou não.

 

Saia do certinho e complique o visual, confunda os olhos. A beleza da contemporaneidade brota da duplicidade, da confusão que possa provocar na visão. Troque as bolas, misture tudo, cor, textura, cortes e aberturas. Dá certo.

 

Quanto mais real for a coisa, menos as pessoas querem ver. Produza acessórios para viver um sonho. Ninguém quer ser o que é, todos queremos ser um personagem, é mais animado, é fantástico, é super. Venda uma roupa para que seu cliente possa viver um roteiro, imaginar que está em um filme, num videoclipe.

 

Ninguém quer a mesma coisa, todos querem isto, ser diferentes e iguais ao mesmo tempo. Produza pensando nisto, variedade do mesmo.

 

Mantenha um olho ligado nas “causas”. Use-as na sua produção. Apóie algumas e incorpore algo ao seu marketing. Qualquer coisa serve. Mas esteja ligado. Coloque traços de movimentos em seu produto, é tudo que as pessoas querem.

 

Pessoas querem roupas que as destaquem; não caia na bobeira de fazer coisa discreta, cores cinza, riscas. Rabisque tudo, pinte rosa choque no cinza, faça jogos da velha nas riscas. E por aí vai. Nenhuma novidade não é?

 

Homem é homem, mulher é mulher: unisex foi uma coisa dos anos setenta e já passou. Agora cada sexo quer sua identidade claramente posta. Até os homossexuais querem sua própria identidade. Tá bem, androginia vendeu muito e atá ajudou você a faturar algum. Acabou, ?closed, dead end?. Faça coleções bem definidas, venda separadamente, ?marketeie? diferente, eventos e promos para cada grupo. Veras, conferir, é assim que o povo quer hoje.

 

A tendência agora é esta: ‘E agora? E daí?’. Pense nisto e traduza. Afinal este é seu trabalho, daí que vem sua grana. E daí, e agora – são questões que você só tem que colocar nos produtos. Não precisa resolver nada: enuncie o problema, pronuncie o mantra do momento. Vai criar o maior clima de identidade com seus clientes.

 

Tem muito mais

 

Isso tudo não é nada. Grande parte você já sabia, grande parte está desatualizada. Tem muito mais, sempre. Amanhã já mudou de novo. O que não muda é que você tem que seguir em frente. Eu também.

 

Conte comigo, meu trabalho, meu foco é ficar o tempo todo descobrindo, traduzindo, pensando e falando para você o que no fundo já sabia ou deveria saber. Ajudar seus criativos, seu marketing, sua política, sua imagem, seu modo de ser – ser cada vez mais você mesmo.

 

Me liga ou envie um email. Podemos marcar uma reunião na água, no outside, no Moreira, muito produtivo, já fiz algumas, várias; ou no escriba mesmo, na Moóca, Lapa, Bom Retiro, Vila Madá, aonde já fui e pretendo voltar, se Deus quiser. Uma coisa eu garanto: divertido será – e se você quiser, até lucrativo.

 

Jornalista Oswaldo Pepe é diretor da Art Presse, assessoria de imprensa e comunicação – telefone 11 3060-8785

 

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