
No mês de maio a Surfer Magazine publicou uma matéria sobre localismo onde foram apresentados alguns aspectos interessantes sobre o assunto.
O artigo começa afirmando que a relação entre um surfista que se denomina “local” e um “haole” é semelhante às atitude do homem primitivo, que defendia seu território diante de um invasor, e é, portanto, baseada em impulsos primitivos, porém existentes na memória de todos os seres humanos.
A luta por recursos escassos é a principal causa de conflitos no mundo animal, inclusive humano. No caso do surfe, esses recursos seriam boas ondas e a possibilidade de surfar sozinho ou em paz. Altruísmo e tolerância entre seres semelhantes, especialmente em esportes individuais como o surfe, não costumam ser a regra.
Segundo estudiosos, ao encontrar um território pela primeira vez, um ser humano do sexo masculino não consegue evitar a busca por uma identificação e a conquista de seu espaço próprio, é algo inerente à espécie. Isso vale tanto para as ondas como para espécimes do sexo feminino. Nos dois casos, se observa um comportamento semelhante, quando se trata de disputa territorial.
Além disso, como o surfe é um esporte onde o espírito de camaradagem e irmandade são importantes componentes psicológicos, os surfistas tendem a se fracionar e a se organizar de forma tribal. Apesar do espírito “Aloha” das tradições polinésias, o surfe é um esporte intrinsecamente individual e que mexe fortemente com o ego de seus praticantes. Não raro surfistas se sentem, lá no fundo, os mestres dos oceanos após surfar uma boa onda.
Ironicamente, ao batizar o surfe como “esporte dos reis”, acabou-se aliando a ele um estilo de vida que nas suas raízes é altamente elitista, exclusivo e excludente frente a terceiros. O surfista tende a se considerar um ser privilegiado diante dos demais “mortais”, que não conhecem o prazer de surfar uma onda.
Num esporte onde não há linha de chegada ou partida, juizes ou campo, e que essencialmente é realizado em liberdade, nos sentimos como privilegiados, quase como reis. Porém, a história mostra que reis não necessariamente são boas pessoas. Muitos inclusive são déspotas, totalitários ou mesmo psicopatas…
A matéria também alerta para os possíveis impactos da explosão de escolas de surfe que tomou conta da Califórnia – e até de outros lugares do mundo. Estudos estimam que o crowd lá poderá chegar a proporções insuportáveis na próxima década se for mantido o ritmo de crescimento fomentado pelas escolinhas nas costas californianas.
Segunda a conceituada revista, o surfe vive um ciclo de prosperidade que faz aumentar o número de praticantes dentro d’água. Estudos indicam um crescimento de 65 % nos últimos sete anos nos Estados Unidos. Isso significa que deve-se esperar um aumento de incidentes dentro d’água, à medida em que um número maior de surfistas é despejado nos mares. É possível que o futuro próximo seja sombrio para o espírito libertino e relaxante do surfe, pelo menos na Califórnia.
Afinal, a fissura e o tesão de pegar uma onda podem gerar atitudes de elevado stress quando não atendidos, por escassez de ondas ou excesso de pessoas para disputar o mesmo recurso: a onda perfeita.
“Surfistas compõem uma cultura cada vez mais competitiva, refletindo as frustrações do planeta crowdeado em que vivemos”, afirma o lendário australiano Nat Young, e complementa: “Não adianta colocar a culpa nos novos praticantes que chegam sem parar. Eles também têm o direito de desfrutar o que nós experimentamos há 20 anos”, afirma Young.
Porém, na Califórnia o localismo “linha dura” e que usa métodos de intimidação estaria perdendo terreno frente ao crescimento exponencial do crowd, que faz da tarefa de policiar um pico uma missão quase impossível.
Isto estaria levando os surfistas que se consideram “locais” à um distanciamento cada vez maior da cultura de amor ao mar e à natureza que os motivou a começar a surfar.
Dessa forma, aspectos positivos do localismo como orgulho do lugar, ordem no pico, segurança, deferência aos mais velhos e códigos de honra, acabam substituídos por atos inconseqüentes como pneus furados e ameaças escritas com parafina no vidro dos carros.
A Surfrider Foundation americana se posicionou à frente do assunto e está trabalhando para construir uma mentalidade de localismo positiva onde a preocupação com a preservação do meio ambiente seja a peça-chave.
Segundo a respeitada entidade, de nada adianta haver pessoas que se dizem locais de um pico, mas que são incapazes de se organizar para combater um loteamento ilegal ou um vazamento de esgoto que comprometa a qualidade de suas águas.
Considerando que as tendências no mercado americano costumam se repetir no mercado brasileiro alguns anos depois, será interessante verificar o quanto esse texto tem de atual ou profético frente à realidade brasileira.