BB Barcellos

As lajes do quintal

Várias ondas especiais estão espalhadas pelo mundo. São milhares de fundos de pedra e coral que marcaram minha trajetória. Sonhei com essas ondas quando criança e graças ao Circuito Mundial, consegui surfá-las.

 

Dessa forma, realizei o sonho de conhecer as mais famosas bancadas do planeta: Pipeline, Super Sucks, Teahupoo, The Box, Shark Island, entre outras. 

 

Minha pergunta é a seguinte: por que não no quintal de casa? Confesso que sempre adorei viajar para pegar onda no exterior, mas aposto que teria sido muito mais divertido se todas as ondas que peguei tivessem a presença de meus amigos.

 

Terminar o surf e conversar em português, contar umas piadas e rir um pouco, tudo isso no quintal de casa, seria irado! Não que esteja reclamando da vida que Deus me deu, mas poderia ter sido bem mais legal .

 

A pergunta continua, por que não no Brasil? No Rio de Janeiro, por exemplo, temos várias bancadas pesadas. Para os surfistas, são ondas bem complicadas. A maioria dos tubos são quadrados – quase sem tempo para o drop – e nem o melhor do mundo conseguiria ficar em pé e pegar um tubão. 

 

É mais um motivo para vangloriar o bodyboard. Me conforta saber que fiz a escolha certa. Afinal, qual bodyboarder não gostaria de surfar uma laje, rodeado por outros bodyboarders, em um pico onde só nós conseguimos nos atirar? Numa situação dessas, parece que estamos em casa. 

 

Vou citar quatro lajes cariocas. Tive experiências memoráveis nesses points e eles me dão orgulho de dizer que moro no Brasil. São picos com fundo de pedra, onde dá para sentir adrenalina e se divertir bastante. Sem falar no risco de um machucado feio, mas neste quesito, assumo, sou profissional. Tenho tanta cicatriz, que se contasse cada uma daria para escrever uma revista inteira. 

 

Mas vamos ao que interessa: as famosas lajes em águas brasileiras! A laje que mais me chamou atenção foi a Ilha Mãe, Niterói (RJ). Na companhia de alguns amigos, peguei um grande swell e presenciei as das ondas mais pesadas da minha vida. Surfei sentindo uma adrenalina pesada.

 

Outra laje que me deixou um pouco assustado foi o Cartão Postal, na Barra da Tijuca (RJ). Prefiro chamar o pico de Caixão Postal. Uma esquerda muito pesada que nos dias grandes, acredito eu, só é possível surfar de tow in. 

 

Certa vez, fui ao pico com o Marcelo Pedro e o Alexandre Cruz. Remamos por cerca de uma hora. Na quarta ou quinta onda, me machuquei feio. Tínhamos remado por muito tempo e não quis estragar a trip da galera. Surfamos por mais de duas horas. Resultado: pegamos altas ondas, tomei três pontos no cotovelo, três no joelho e fiquei com um corte fundo no pé.

 

Outro pico que não esqueço é o Shore de Copacabana (RJ), sempre impressionante. Lembro de um campeonato no point. Eu nem acreditava no que estava acontecendo. 

 

Aconteceu em um sábado de sol, com vários barcos no canal. Uma galera foi remando e me lembrou muito os campeonatos mundiais nos fundos de pedra. A diferença é que estávamos em uma das praias mais famosas do Brasil. Pegamos altas ondas. Na final, Hermano Castro arrebentou e faturou a etapa.

 

Outro pico excelente é o Shock, Itacoatiara (RJ). Todas as vezes que fui até lá, estava punk. Isso sem falar nos frequentadores atirados da região. 

 

Guilherme Correia, Dudu, Zé Otávio e companhia representam Niterói e puxam os limites. Tive sessions memoráveis neste paraíso. Isso tudo sem falar em Itacoatiara, uma das ondas mais pesadas do Brasil e uma praia repleta de amigos. 

 

Tive também o prazer de conhecer a Laje do Dramin, que fica localizada ao Sul do Rio de Janeiro. Muitas pessoas não sabem o porque do pico ter esse nome. Eu explico.

 

Quando criança, enjoava em carros. Em barcos, vocês não imaginam, fico ainda pior. Era minha primeira vez no pico. Depois de uma longa caída, o capitão do barco e o Dennis (local que me levou até lá) me serviram um pequeno lanche. 

 

Em meia hora eu estava passando muito mal e me deram um Dramin. Apaguei e dormi praticamente o caminho inteiro de volta. Não satisfeito, parei meu carro no acostamento e dormi por mais 2 horas, estava completamente destruído. 

 

Apesar de sempre passar mal quando vou ao Dramin, o pico vale a pena. São esquerdas poderosas, quebrando em uma bancada rasa, com um belo visual da mata atlântica.

 

Citei alguns picos entre tantos outros existentes no Brasil. Todos os estados possuem ondas incríveis: The Rock (SP), Massacre (BA), D2 e Bin Landen (ES), Ilha dos Lobos (RS), isso sem falar nos excelentes beach breaks de nosso vasto litoral. Então, por que não no Brasil?

 

Marque uma trip com os amigos e pé na estrada! Tem muita onda boa por aqui!

 

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