As aventuras de Bruno Lemos no Hawaii

Dia 1º de junho de 1999, umas das maiores ressacas que o Rio de Janeiro testemunhava nos últimos 30 anos. Na Praia do Sheraton, Rodrigo Resende dropa uma onda gigantesca, absurda de grande para as dimensões brasileiras. Logo atrás, um vagalhão ainda maior fecha a baía e a transforma em um mar de espuma.

 

Dentro d’água, armado apenas com uma pequena câmera e um par de pés de pato, Bruno Lemos passou um sufoco digno de Waimea. Sufoco, aliás, faz parte da rotina de Bruno desde que ele resolveu filmar e fotografar na zona do agrião, registrando os detalhes que só quem dispõe de muita coragem consegue trazer à telinha. O Curriculo de Lemos é extenso:

 

Competidor aguerrido no fim dos anos 80, largou-se no Hawaii para perseguir o sonho de descer as maiores ondas que seus limites permitissem. Uma vez no North Shore, a vida apertando, dinheiro curto, resolveu investir em vídeo e fotografia.

 

 Trabalhou como cameraman para as maiores produtoras que fazem programas relacionados a surfe do Brasil e algumas do  mundo (tendo inclusive sido chamado para filmar no Tahiti um documatário para TV americana com a “turma”, Machado, Slater e Dorian).

 

 Excelente surfista, tube rider, um dos três melhores cinegrafistas aquáticos brasileiros, Bruno Lemos já tem três vídeos lançados no competitivo mercado americano e parte para o quarto, feito inédito para a produção de vídeos nacional. Conheça um pouco desse personagem fundamental da nossa recente história.

Como e por quê um brasileiro que nem trabalha na industria do surfe foi parar no Hawaii fazendo vídeos de surfe?

 

Acho que comprei a minha primeira filmadora, uma vídeo 8, para filmar minhas próprias sessões de surf aqui no North Shore. Na verdade não sabia até quando ficaria aqui e, é claro, que poderia registrar parte da minha juventude, principalmente surfando… Seria algo que sempre sonhei. Mas como a Claudia, minha namorada na época, hoje esposa, não tinha muita paciência nem muito jeito para filmar, acabava deixando na mão de amigos, mas eles também não tinham muito a manha, perdiam sempre o drop ou as melhores partes da onda. Como eu sempre prometia para eles que “se você me filmar primeiro te filmo depois”, sempre rolava um intercâmbio, mas acabava filmando mais tempo e melhor que eles… A partir daí, já viu… Acabava sendo o filmador oficial da galera, sempre em troca de um PF depois do surf, uma cervejinha… E aí foi indo…

 

Por que filmar dentro d’água?

 

Depois de cavar muitos buracos durante o verão consegui finalmente comprar minha primeira Hi8, uma Sony TR700, e percebi que tinha caras como Larry Haynes, Flavio Vidigal e alguns outros que trabalhavam profissionalmente com mais ou menos esse tipo de equipamento de dentro  da água. Resolvi então investir mais uma grana numa caixa estanque para a câmera, acho que dentro da água as imagens ficam mais bonitas e mais reais, sem falar que é um excelente exercício e terapia – e também pagam mais por imagens aquáticas…

 

Quais são suas influências, no jeito de filmar e na maneira de editar?

 

Acho que na parte das imagens sempre me espelhei muito no Larry Haynes, pois ele é sem dúvidas o mais insano dento d’água e está sempre em ação todos  os dias, então eu tinha a oportunidade de ver ele trabalhando, sem falar que eu morava em frente a ele em V-land…

 

Editar não é tão fácil como se imagina, realmente a criatividade é essencial, mas você também tem que dominar o computador, senão fica limitado. As músicas são essenciais. Se, por acaso, alguém que represente alguma gravadora ou tenha uma banda e quiser colaborar com músicas para meu próximo vídeo, entre em contato via [email protected] , eu agradeceria muito. Tento me inspirar também nas edições dos filmes do Jack McCoy, mas como ele está sempre inventando algo novo e diferente, às vezes fica difícil, mas gosto de usar muitos inserts entre uma onda ou outra, com visual das praias e surfistas fora d’água… Os filmes do Sony Miller também são muito bons…

 

Explique como é sua rotina no Hawaii e onde você mora.

 

Minha rotina aqui no Hawaii é mais ou menos a seguinte: acordo às 7 da manhã e saio para trabalhar. Fico até às 3:30 da tarde e chego em casa por volta das 4. Dependendo das condições do mar vou surfar em V-land ou Sunset, ou então levo meu filho Keale para surfar em Haleiwa ou Chun’s reef, se as ondas estiverem muito boas vou filmar ou fotografar, geralmente em Pipeline ou Backdoor, sei lá… Onde estiver bom… Depois volto pra casa, onde fico com a família e checo a internet. Normalmente para ver a previsão do swell. No verão a rotina muda um pouco, em vez do surf uma nadada em Waimea ou um jiu-jitsu depois do trabalho…

 

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 A revista americana Water fez a crítica do seu último vídeo junto do Surf Advetures. O que te motiva a continuar fazendo seus vídeos independentes – sendo brasileiro, ignorado na imprensa daqui e daí?

 

Não cheguei a ver a crítica da revista Water, só vi a crítica do Evan Slater (editor da revista Surfing) na Surfing que não deu muitos pontos para o vídeo, mas até mesmo o meu distribuidor aqui na America falou que todos gostaram do vídeo e que o Evan Slater meio que pisou na bola… Eu particularmente gosto desse vídeo: altas ondas no Hawaii, Tahiti, Maverick’s,  acho que qualquer surfista de verdade iria apreciar o trabalho….

 

 Lembro bem que quando você saiu daqui pro Hawaii, sua meta eram as mesmas bombas que você filma os caras surfando hoje… Por que escolheu ficar do outro lado da câmera?

 

Acho que o que me motiva a continuar fazendo vídeos é o fato de que mal ou bem tenho muita facilidade de adquirir imagens boas aqui no North shore, é só ir para praia que vai ter sempre profissionais arrebentando em altas ondas. Tendo uma ilha de edição em casa fica até piada. Coloco as imagens no computador e fico me divertindo. Sem dúvidas tenho a esperança de ainda conseguir um contrato com alguma marca aí do Brasil que tenha a visão como as firmas aqui de fora, tipo a Billabong, a Rip Curl ou Volcom, que lançam vídeos da equipe todo ano…

 

O North Shore bomba no inverno… E no resto do ano, como você sobrevive?

 

O North shore é sem duvidas um dos lugares mais crowds do mundo e eu às vezes ficava frustrado de entrar num mar perfeito com altas ondas e não conseguir surfar direito. Ficava revoltado com os locais que pegavam todas e não sobrava nada para nós, haoles, enfim… Quando estou filmando, geralmente o feeling é o contrário, fico amarradão em ver os locais, ou seja quem for, surfar uma onda da série e mandar bem, enquanto antes torcia até pra que ele caísse da onda (só de raiva), sem dúvidas um sentimento caído… sem falar que, como fotógrafo e cameraman, tive a oportunidade de ir trabalhando em alguns lugares de ondas perfeitas que como surfista (sem patrocinador) não sei se teria chance de ir.

 

 Seu background de fotógrafo e videomaker (com quem trabalhou, onde e por quê começou).

 

Como fotógrafo faço uma colaboração ou outra para algumas das principais revistas do Brasil, como Fluir, Alma surf, HardCore, X-pression, Venice e jornal Nuts. Na televisão trabalhei também para algumas produtoras que prestavam serviço pro Sportv, no caso na Unigraf com o Bocão e Antônio que me tratavam como irmão e durante quase um ano ajudei eles a fazer os programas do WQS e editar parte dos programas Rip e Extra.

 

 Depois disso fechei com a Massangana, onde junto com o Calinhos Sanfelice fazia o programa Surf Adventures, dirigido pelo Roberto Moura. Agora que estou fora do Brasil estou brincando de fazer vídeo de surf, ano passado lancei o Velocity no Brasil e aqui fora se chama Harvest.  Esse ano vai sair o “North Shore Visions”, uma coletânia das melhores imagens das últimas temporadas, junto com o melhor do Triple Crown deste ano, além de outras coisas… Mais um clip do dia 26 de novembro em Jaws, sem dúvidas um dos melhores vídeos que já fiz… Acho que até o fim do ano esse vídeo deve estar em circulação no Brasil, quem estiver interessado em copias ou distribuição ou até mesmo trocar uma idéia, pode entrar em contato comigo via e-mail.

 

 É possível sobreviver fazendo vídeo?

 

Acho que aqui na América tem muita gente não só sobrevivendo, mas  ganhando muita grana com vídeo. O Taylor Steele, por exemplo, está milionário… O mercado aqui é muito forte, mas está ficando super saturado. No Brasil acho que ainda esta engatinhando, mas vai melhorar muito, se Deus quiser ainda vou fazer grana com isso também.

 

No Backdoor Shootout de 97 os locais proibiram todo mundo de filmar, no entanto você fincou seu tripé na areia e filmou tudo sem ninguém te incomodar. Isso é medo ou respeito?

 

Lembro de ter visto o próprio Fast Eddie falando com vários filmakers para não filmarem, fiquei meio que esperando ele vir falar comigo, mas acho que ele fez vista grossa e eu também ignorei ele e continuei filmando. Depois ainda fiz uma entrevista com ele e o Johnny Boy sobre o evento. Engraçado que um ano eles vetam de filmar e no ano seguinte liberam geral, me lembro que tinha cerca de 20 fotógrafos dentro d’água no ano seguinte.

 

A tensão entre a nova geração de havaianos do Kauai aumenta a cada ano. Quais as suas previsões para esse inverno que se aproxima?

 

Acho que os Kauai boys fazem a mesma política que qualquer local faria em seu pico. Infelizmente, para nós e felizmente para eles, o pico deles é Pipeline. Acho que a Volcom não estará alugando a tradicional casa em frente a Pipe esse ano, mas não acredito que es coisas mudem muito não. A real é que se der muita onda fica menos stress. Vamos rezar para isso. Aloha!

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