
Ousadia. Esta é a palavra que melhor sintetiza as performances dos competidores no mundial pro-júnior, realizado no início de janeiro em North Narrabeen, tradicional reduto de nosso esporte na Austrália.
Quem assitiu às baterias do campeonato pôde apreciar a um show de surfe. A nata da nova geração mostrou como o esporte dos reis pode ser atrativo, mesmo em ondas pouco vistosas.
Esclareço àqueles que acompanham o surfe há menos de uma década que embora na atualidade as competições prezem pelo espetáculo em termos de desempenho, nem sempre foi assim.

Nos anos 80, preponderou o critério do aproveitamento máximo da onda. Diante disso, o atleta, para obter bom rendimento competitivo, tinha que surfar a onda na sua totalidade, o que incluía até mesmo as sessões de espuma próximas à areia ? nisso, o grande mestre era Tom Curren, que deslizava com uma fluidez incrível nas pequenas sessões do inside.
Uma queda antes da finalização costumava significar notas baixas e, por essa razão, os competidores faziam muitas manobras, quase sempre pouco expressivas, visto que quanto menor o grau de dificuldade na realização delas, maior era chance de completar a onda com sucesso.
Na década seguinte os valores se inverteram. Passou-se a ter o ?power surfing? como paradigma em detrimento da distância percorrida. E isso se deu para o bem do esporte, porque a mudança de critério surtiu efeitos positivos imensuráveis à nossa cultura, já que antes dessa transição, o surfe experimentava uma fase de retração, tanto em termos de interesse por parte de surfistas e simpatizantes quanto de mercado. As pessoas estavam perdendo o interesse no surfe competitivo, que àquela altura era previsivelmente burocrático e praticado em ondas ruins.
Essa novidade foi implementada aos poucos, na medida em que a ASP começou a inserir, no circuito mundial, competições em ondas de alta performance.
Nesse novo cenário, quanto mais próxima do olho da onda fosse a manobra, maior seria a sua relevância na pontuação. Mais contava mandar duas manobras no ?pocket? do que burocratizar até a beira. A regra passou a ser manobrar pouco, mas com qualidade.
Com a chegada da década presente, outros valores foram agregados ao surfe de competição. Hoje, recompensa-se a ousadia, a busca pela superação. Ser ?power? ainda é preciso, mas já não basta.
Para vencer, o atleta necessita realizar movimentos com maior grau de dificuldade do que os seus oponentes. Nesse contexto, ?espancar? é providencial, mas bater forte e fazer a rabeta deslizar sobre o lip é mais difícil e arriscado e, portanto, acarreta maior valorização.
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Estamos na era da técnica. Basta vermos as performances dos primeiros colocados do WCT ? Andy Irons, Joel Parkinson, Kelly Slater, CJ Hobgood, Taj Burrow etc ? para compreendermos como está ocorrendo esse aprimoramento no desempenho.
Hoje, são priorizados os movimentos com derrapagens e com a rabeta passando além do lip ? constantemente os atletas atingem notas máximas ao mesclarem o surfe clássico com manobras de alto grau de dificuldade, como os lay backs, snaps, reverses e aéreos.
É até comum que um único vôo bem executado represente o ?high score? da bateria.

E, mesmo acostumado a ver os grandes nomes do surfe internacional em ação, fiquei perplexo ao observar o nível técnico da garotada no mundial pro-júnior.
Algumas baterias, como a oitava-de-final entre o guarujaense Adriano de Souza e o australiano Josh Kerr, me fizeram achar alguns confrontos do WCT um verdadeiro tédio, tamanha a atitude dos competidores na hora de manobrar.
Não dava pra saber o que cada um deles iria fazer na onda. Ambos são extremamente ousados e imprevisíveis, características importantes nesse novo momento do esporte.
E o que dizer da atuação de Pablo Paulino nas semifinais e na final ? Em todas as ondas que ele surfou, imprimiu bastante velocidade e força, passando a rabeta por cima do lip e puxando o bico em direção à espuma, exatamente nos moldes do que requer o surfe de vanguarda.
É interessante, também, notarmos como os estilos dos garotos são semelhantes independentemente das suas respectivas procedências. Essa universalização é fruto de intercâmbio, da presença maciça do surfe nas mídias que veiculam imagem ? televisão, internet, revistas e jornais ? e da difusão dos filmes de surfe.
Nota-se claramente que boa parte dos garotos com menos de 20 anos têm, na linha, algum detalhe que os aproxima dos estilos das grandes estrelas dos vídeos de surfe, seja no jeito de flexionar os joelhos, na forma de equilibrar os braços ou simplesmente no modo de fluir.
Nos anos 80 e no início dos anos 90 tudo era diferente. Cada um surfava conforme considerava o significado do termo ?surfar?. Enquanto Tom Curren, Occy, Fabio Gouveia e Martin Potter já praticavam um surfe limpo, próximo do que se realiza atualmente, caras como Gary Elkerton, Poto, Tony Ray e Stuart Bedford-Brown faziam, em cima da prancha, um esporte que até hoje ainda não descobri qual era.
Essa nova técnica do surfe ? híbrida, por mesclar movimentos fortes com manobras progressivas ?, universal, já é dominada por todos os juniores que têm pretensão de atingir algum sucesso no mundo das competições, o que torna o esporte infindáveis vezes mais competitivo do que no passado.
Adriano de Souza, Pablo Paulino, Ben Dunn, Dustin Cuizon, Kekoa Bacalso, Jean da Silva, Dane Reynolds, Shaun Cansdell etc, todos a detém.
Assim, numa fase em que a técnica é de domínio comum, as conquistas cada vez mais se basearão no talento, representado por qualidades como a fluidez, a frieza, a capacidade de improvisação e a variedade do repertório.
Sorte minha ser contemporâneo desse nova geração e poder assistir, mais uma vez, o surfe ser elevado a um nível adiante.