Muitas Águas

Ao lado do presídio

 

Lopes Mendes, Ilha Grande, onde muitos tesouros se escondem. Foto: Andre Cyriaco.

Férias, até que enfim! Minha faculdade era bem legal. Havia inicialmente prestado medicina mas realmente aquela não era minha vocação e, tanto meu pai como minha mãe, foram bem compreensivos comigo, deixando eu fazer minhas escolhas e seguir meu instinto, meu rumo.

 

 

Hoje vejo isto como um grande ato de amor, afinal de contas muitas vezes podemos sufocar nossos filhos projetando neles algumas expectativas criadas em nós mesmos.

 

Mas, férias eram férias e, para mim, era sinônimo de surf, muito surf. Peguei a caranga, o Chevette emprestado da minha mãe, e fui pra uma tal de Ilha Grande, que já tinha ouvido dizer ter ondas desertas. 

 

Não tem mesmo como fugir de um certo saudosismo, mas naquela época, que não faz tanto tempo assim, pouco mais de vinte anos, era muito legal obter informações na base do boca à boca da conversa nas padarias da vida!

 

Hoje mesmo, escrevendo este texto, consigo em poucos clics acessar quase que literalmente o mundo, com o Google Earth, Google maps e mais um monte de traquitanas tecnológicas de última geração.

 

Mas o que eu fiquei sabendo até então é que na Ilha Grande tinha surf, muito mosquito, não tinha luz elétrica e havia um… presídio!

 

Opa, presídio? Não era bem este cenário que eu tinha imaginado para parte de minhas férias, mas rumei assim mesmo para minha suposta “ilha da fantasia”.

 

Eu também costumava viajar muito sozinho. Já viajei muitas e muitas vezes acompanhado por grandes amigos ou conhecidos, mas cansei ir sozinho também. Dava “na telha” de viajar e não tinha ninguém! Esperar o quê? Ia sozinho. Sozinho não, conversava muito com Deus, acho que foi daí que fiquei tão íntimo Dele, de tantas horas “alone” pelo mundo.

 

Mas voltando à Ilha Grande, antes de chegar até ela fui a Angra dos Reis. Estacionei o Chevetão na beira do cais e peguei a tal balsa pra Vila do Abraão, que seria minha base de exploração.

 

O dia estava lindo: eu com minha mochila e barraca inseparáveis, minha fiel Summer Birds também, algumas parafinas, camisetas, uma calça de moleton e um pouco de dinheiro, acho que era só. Aliás, o que mais eu precisava? Tinha o principal, muita vontade de descobrir o mundo, o mundo do surf e as aventuras que estavam bem mais perto ao meu alcance do que as atuais ondas na Indonésia ou Mentawaii, e era ali mesmo que viveria minhas  “aventuras surfísticas”.

 

Nada de anormal, até que encosta um camburão ao lado da balsa. Começou um burburinho, um fala fala, um diz que não diz e acabei indo perguntar para uns pescadores o que estava acontecendo, porque aqueles olhares de espanto!

 

Presos! Eram eles. A nova “safra” de bandidos iria ser jogada nos calabouços de uma super prisão de segurança! É, a visão não foi nada poética e, para piorar, fiquei sabendo que o presídio ficava perto de… Lopes Mendes!

 

Uau, aí sim fiquei preocupado. Seria esta prisão segura mesmo? Estaria surfando e um bandido me pegaria como refém numa praia deserta? Minha prancha seria roubada pra ser trocada por drogas?

 

Deixa pra lá. Resolvi abstrair minha mente de tantos pensamentos negativos e olhei para o horizonte, para a mata verde e virgem, para o azul-esverdeado das águas da baía de ilha Grande e pensei nas ondas, só nelas.

 

Quando vi, estava na Vila do Abraão. Nossos “hóspedes” desceram primeiro, todos com capuz na cabeça, sinistro mesmo. Só depois nós aportamos. Eu tratei de correr e me garantir, arrumando um lugar para acampar. Eu tinha uma mania de acampar no mato, sem ficar em camping, queria natureza bruta e pura, banho de cachoeira, dias sem fazer a barba, comer peixe fresco, dormir olhando as estrelas. Só não poderia ficar com cara de largado e me confundirem com algum marginal.

 

Mas aquele lugar estava tão deserto que quase não se via ninguém mesmo.

 

Lembro-me da primeira ida até o surf. Numa íngreme trilha e bem envolta pela mais rica mata atlântica, cheguei numa praia de areias tão claras e um mar tão transparente que não conseguia ter a noção certa da profundidade ao dropar as ondas.

 

Olhei para um lado, para o outro e nenhuma alma viva, apenas a criação divina em seu estado mais bruto e natural possível. 

 

Foi então que pensamentos quiseram tirar minha paz: e os ladrões, os bandidos, as armas, as drogas? Onde estariam meus inimigos?

 

Que viagem! Como minha mente estava fértil e contaminada com os medos da sociedade! Relaxei, respirei aquele ar límpido e absorvi com meus olhos toda aquela beleza e os sons apenas das ondas e das aves.

 

Estava no meu pequeno “jardim do Éden”, e Deus certamente cuidava de mim, então porque me preocupar?

 

Os dias ali foram inesquecíveis, únicos. E os únicos bandidos eram meus próprios pensamentos e medos interiores que talvez estivessem “presos” em meu interior. 

 

Nunca mais voltei para Ilha Grande e hoje nem mais existe um presídio lá. Mas o pior mesmo é a mente prisioneira, cativa de si mesma. Pior mesmo que a prisão do corpo é a prisão da alma!

 

Sigamos pela vida, amando e perdoando, livres das amarras dos traumas e decepções!

 

Então poderemos fazer nosso melhor surf, nas ondas da vida, livres como Deus nos criou.

 

Pra meditar hoje e sempre: O profeta Isaías disse: “O espírito do Senhor Deus está sobre mim; porque o Senhor me ungiu, para pregar boas novas aos mansos; enviou-me a restaurar os contritos de coração, a proclamar liberdade aos cativos, e a abertura de prisão aos presos;” Is 61:1

 

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