Lendas vivas

Anos dourados do Arpoador

Irencyr Beltrão, arquiteto e legend da primeira geração do surf carioca, é um dos homenageados Festival Lendas do Arpoador.

Apelidado de “Barriga”, ele é um dos pioneiros do surf no Brasil e casado há 50 anos com Maria Helena, surfista que também será homenageada no evento.

Neste artigo, ele faz uma verdadeira viagem aos primórdios do surf no Brasil e relata como foram plantadas as sementes nas décadas de 50 e 60, tendo como berço o Arpex. As fotos acima fazem parte da história do surf nacional e nunca foram publicadas.

O encontro histórico reúne os pioneiros da cultura surf no Rio de Janeiro nos próximos dias 24 e 25 de outubro no Arpoador.

Quando comecei a frequentar o Arpoador, Rio de Janeiro (RJ), em 1955, tinha 14 anos. Morava na rua Conselheiro Lafaiete e da minha janela via o pontão do Arpoador, que não tinha prédios altos em nossa frente.

A água era muito clara na época, com menos poluição e ondas maravilhosas para os surfistas! Já existia um surf único no mundo. Em lugar nenhum se fazia surf com pé de pato e prancha de madeira maciça.

Elas tinham mais ou menos 2,5 centímetros de espessura, réguas de 15 centímetros de macho e fêmea retangulares e o bico envergado, do tamanho de uma porta.

Com 2,2 metros de comprimento por 50 centímetros de largura, abaixo havia uma quilha comprida de 60 centímetros por 5 de altura. Não sei quem desenhou esta prancha, mas o único registro fotográfico aparace com Arduíno Colassanti.

Quem a construiu foi Luís Vital, o Bisão, engenheiro e pescador submarino. Ele não era bom surfista como Jorge Paulo Leman, Gilberto Laport e Paulinho Macumba, que surfavam ondas em pé e muito bem, era melhor como pegador de jacaré (surf de peito com pequenas pranchas de madeira).

Bisão construiu umas cinco ou seis pranchas e deu para a galera do Arpoador, que surfava quando não dava para pescar de mergulho, principalmente quando quebrava na terceira laje.

Misturavam-se então aos surfistas de peito, de pranchinha e porta de igreja, que não chamava-se de surfistas e sim pegadores de jacaré. Por quê? Até hoje não sei! O Arpoador era diferente de tudo. Os frequentadores eram poucos. A maioria era de estrangeiros, descendentes de alemães, americanos, etc.

Lá se fazia pesca submarina. Capturava-se meros de 100 quilos. Jamantas enormes sempre vinham de Sul migrando para o Norte e o Arpoador era passagem obrigatória, ao lado a praia do Diabo. Era tudo muito assustador para a época, poucos aventuravam-se no mar.

Nas pedras, havia um pequeno grupo liderado pelo Zé Gordo que mergulhava de cabeça, fazendo um anjo do terceiro andar da “piscininha” local do Arpoador, com mais ou menos 10 metros de altura, com 1,80 metros de profundidade, ou em pequenos buracos rasos cheios de pedras pontudas e ouriços. Os mergulhos eram no estilo do que se fazia em Acapulco, México.

Caramba, estes caras viviam desafiando a natureza e com o mar meio virado surfavam de peito nas pedras, chamavam de Salcerar. Quando a onda vinha, lançavam-se de peito sobre as pedras onde as ondas lavavam, aí voce tinha que ficar em pé sobre a pedra que secava. Os melhores faziam descalços.

Quando erravam, passavam por cima da pedra e caíam do outro lado. Imagina como ficavam de ouriço e tremendos cortes nas cracas. Os mais espertos usavam alpargatas, (sapatilha de sola de corda e cobertura de lona). Para ser do Arpoador tinha que passar por tudo isso, surf sempre de onda grande.

O meu apelido veio dos mergulhos nas pedras. Zé Gordo que era o top de mergulhos das pedras me apelidou de “Barriguinha”, dizia que quando eu mergulhava no ar tinha uma postura em que aparecia uma barriguinha.

Também tive que aprender a salcerar. Depois, lógico, a fazer pesca submarina. Só depois disso que fui ser surfista. Nesta época ser do Arpoador era fazer parte de uma elite, só tive acesso a uma prancha quando todas quebraram, foi então que fiz de tudo para ter a minha e influenciar uma nova geração que seriam os surfistas das “madeirites”.

Algumas pranchas de balça e fibra apareceram no Arpoador trazidas por gringos que ali se aventuraram, mas sem sucesso, chegamos a pensar que nossas ondas eram muito rápidas e não daria certo com aquele tipo de prancha.

Arduíno chegou a comprar de um gringo uma dessas pranchas. Em um dia de marolinhas, mas depois de uma ressaca, as pedras estavam sem areia. Na primeira tentativa de ficar em pé ele caiu e a prancha foi sozinha até as pedras. Quebrou-se em várias partes, o que acabou provisoriamente com o sonho de surfar em uma daquelas pranchas.

Outras pranchas ocas apareceram no Arpoador, mas ninguém conseguiu surfar com elas, era necessário outra técnica.

Nenhum bom surfista tinha passado por aqui até então, o que só aconteceria com a passagem do austaliano Peter Troy. Não sei dizer quem foi o primeiro a surfar no Arpoador antes das portas de igreja, mas sei que tudo aconteceu nos anos 50.

Nomes importantes fizeram parte desta época, como Paulo Preguiça (de prancha) e Jorge Grande (surfista de peito sem prancha). Os registros fotográficos são raros, pois as máquinas fotográfica não eram comuns naquele tempo.
 
A foto do Arduíno não é minha e a prancha também não. Os melhores surfistas da época foram o Gilberto Laport, Jorge Americano (Jorge Paulo Leman) e Paulinho Macumba, entre outros poucos que faziam surfe ajoelhados.

A última prancha desta época (1958) ganhei do Paulinho Macumba quando quebrou e fiz algumas modificações. Arredondei o bico que era quadrado e o resto continuou igual. Reparem que a quilha era comprida, com apenas 5 centímetros de altura.

Com esta prancha comecei a surfar. Primeiro de joelhos e logo depois em pé. Conheci Mucio Palma quando servi o exército aos 18 anos em 1959, e o Ronaldo no Arpoador. Nosso esporte era a pesca submarina, esporte que pratico até hoje.

Em 1959 fui com um amigo do clube dos Marimbás Ney Gregori, para visitar o Moacir na Ilha do Governador, que era construtor naval e ver a construção de sua lancha. Lá que surgiu a idéia de fazer a primeira prancha madeirite, em compensado naval, bem diferente e mais resistente do que a porta de igreja que aparece na foto com Arduíno.

A partir das informações dadas pelo Moacir, desenhei a primeira prancha de compensado naval, já com aparência de prancha de surf, que vi em alguma foto de revista.

Desenhei a quilha com noção de borda de ataque e borda de fuga. Observe a foto. Eu e Ronaldo Mentira. Ele ganhou este apelido quando fomos surfar no baixo de Copacabana com ondas grandes e dizia que na maior onda dele deu para ver a lagoa Rodrigo de Freitas.

Algumas fotos são dos primeiros surfistas de madeirite do Arpoador: Jorge Paulo Leman, Irencyr (Barriga) e Mucio Palma na saída do Pontão do Arpoador.

Naquela época a maioria dos surfistas vinham da pesca submarina. Todos que citei eram bons pescadores de mergulho ainda tinha o Bruno Hermany que foi bicampeão mundial de pesca submarina. Eu mesmo fui campeão sul-americano. Isto nos dava mais intimidade com o mar. Na madeirite vieram bons surfistas, como Mudinho, Betinho Lustosa, Mario Bração, Piuí, Tito Rosemberg e outros.

O Surf virou moda e o Arpoador era referência, onde tudo começou. Llançou moda e formava opiniões. A primeira geração do surf foram as “portas de igreja”, aos moldes do surf que conhecemos hoje, claro que sem as manobras, era dropar e cortar. Os surfistas endeusados eram Jorge Americano, Gilberto Laport e Paulinho Macumba.

A segunda geração do surf foram as madeirites de compensado naval, já que se pretendia ficar no ponto mais crítico da onda. Algumas manobras eram esboçadas para manter-se nas paredes das ondas.

Aí então formou-se uma turma enorme, os mesmos da porta de igreja que migraram para madeirite, claro, além dos novos, como Mucio, Ronaldo, Barriga, Paulo Salcicha, Bruno Hermani, Charuto (Richard’s), Galdino, Mudinho, Tito Rosemberg, Betinho Lustosa, Mario Bração e o irmão Piuí, Cyro meu irmão,Tuty Canud, Ronald Maisa e outros.

Apareceram surfistas artistas como Marcos e Paulo Sérgio Valle, que são bastante conhecidos como compositores e cantores. As surfistas Fernanda Guerra, Maria Helena e Heliana Oliveira

Ficávamos deslumbrados com as fotos das revistas e filmes, com as pranchas de balsa e fibra, tínhamos que tentar.

O primeiros a arriscar foram Arduíno, eu na minha casa e um garoto que morava na rua São Romão, o Perseguição. Estávamos quase que ao mesmo tempo shapeando nossas pranchas. Coseguimos comprar blocos de isopor mais denso e colamos longarinas de madeira com 10 pés de comprimento.

Arduíno, mais avançado, fez dois cavaletes e montou na praia do Arpoador ao lado da antiga estação de rádio, por ser mais protegido do vento Leste. Ali foi fazendo tudo, desenhou a forma que achou mais conveniente, cortou o contorno e com ralador de côco foi dando o shape da prancha.

Comprou tela de fibra de vidro e então começaram os testes. Problema! A resina poliéster derretia o isopor. Caraca e agora? Alguém deu a ideia: por que vocês não vão na Bayer? Eles têm resinas e poderão ajudar.

Fomos direto para lá, eu e Arduíno. Fomos muito bem atendidos e nos deram uma aula. Poderíamos isolar o isopor com epoxy e depois sim fibra e poliéster, até usar qualquer tipo de fibra sem ser fibra de vidro, como algodãozinho ou canhamo. Compramos alguns galões de epoxy e voltamos felizes, problema resolvido.

Como a prancha do Arduíno estava mais adiantada, acompanhamos na praia o desenrolar do projeto. Depois de isolado foi feito o revestimento de fibra e poliéster. A cada rajada de vento com areia, papel de sorvete e gravetos grudavam na obra-prima do Arduíno.

A resina não secava, não sabíamos como fazer, imaginávamos que com o tempo secaria, mas depois da fixação da quilha realmente parecia uma prancha de surf (vista de longe).

Bem, era melhor ficar no sol para secar. A minha prancha estava na sala de jantar da casa de meus pais apenas com o isopor e a longarina colada, não sabia ainda que contorno daria, a do Perseguição acho que estava sendo revestida, não estava pronta ainda. A do Arduíno prontinha, só que não secava e tinha várias coisas grudadas nela.

Neste ponto apareceu um gringo que estava tentando surfar com uma madeirite emprestada de alguém da praia. As condições não eram das melhores, ventava um pouco de Sudoeste e o gringo não conseguia entrar em onda nenhuma. Quando ele desistiu, o Arduíno, que falava bem inglês, aproximou-se e começaram a conversar.

O cara tinha vindo do Peru, surfou lá e veio para o Brasil por Santa Cruz, Mato Grosso. Foi para o Nordeste e veio descendo a costa para ver se tinha potencial de surf até chegar ao Rio. Foi para Copacabana e lá viu um garoto carregando uma madeirite. Ele seguiu o garoto e chegou ao Arpoador. Era o Peter Troy.

Aí começa uma nova geração de surf, as pranchas de fibra, longboards e depois as miniboards, que vieram com o Penho. Peter voltou ao Brasil mais tarde, com uma midi que está comigo até hoje.

O campeonato
Além do encontro que homenageia os pioneiros do surf carioca, também acontece um campeonato de Legends em duas modalidades: Pranchinha e Longboard, divididas em três categorias – Master, Pranchinha e Pranchão (45 a 50 anos); Legend, Pranchinha e Pranchão (51 em diante) e Super Legend Pranchão (56 em diante, apenas para convidados).

Haverá uma exposição com pranchas raras dos anos 60 apresentada pelo Museu de Surf de Cabo Frio e pelo Museu Monarca. Entre as raridades, nomes que marcaram a história do surf nestes 50 anos: Surfboards Hawaii, Hobie, São Conrado, Barlan, Hansen, Diffendenfer, Gordon & Smith e as madeirites.

A premiação distribui seis longboards Daniel Friedman, laminados pela empresa RT Glass; duas passagens para o Peru, kits da Redley para todos os finalistas e homenageados, bem como troféus de madeira pinho canadense (réplicas do Pranchão São Conrado) feitos à mão pelo artista Beto Eagle.

As inscrições devem ser feitas por intermédio da Feserj no valor de R$ 60 (sessenta reais) para todas as categorias. Serão 24 inscritos na categoria Master, 24 inscritos na categoria Legend e 16 inscritos na categoria Super Legend.

Para obter mais informações, ligue para a Feserj: (021) 2490-0754 / 8386-0231, falar com Simone.

As presenças dos ilustres homenageados deste ano já estão confirmadas: Arduíno Colasanti, Irencyr Beltrão, Maria Helena, João Cristóvão, Heliana,  Piuí, Mario Bração, Marcelo Rabello, Pauleti, Fabio Kerr, Maraca, Fernanda Guerra, João Cristóvão, Tito Rosemberg, Penho, Ceceu Pimentel e Betinho Lustosa.

O evento conta com o apoio das empresas Redley, Kenner, Guaraviton, Mustang 45, Pranchas Daniel Friedman, RT Glass, Mega Energia, Ryno Foam, Pranchas Marea, Ki Doguinho, Casa 2, Tripping Viagens e Turismo, site Waves.Terra e Governo do Estado do Rio de Janeiro e Feserj.

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