
Moro há anos em Itanhaém, litoral Sul do Estado de São Paulo, e sempre me chamou a atenção, ao frequentar a praia e outros pontos, o tremendo estado de degradação em que se encontram nossos atrativos turísticos. Este ano a situação está pior. É o que tenho a declarar.
A época de temporada é particularmente chocante para mim que, como biólogo, estou acostumado a visitar praias mais limpas em outras paragens.
O acúmulo de lixo nas praias é apenas a ponta visível do iceberg, que espanta os turistas e me provoca repulsa. O que me espanta é saber do que o turista não vê, e que compromete a integridade de sua saúde ao frequentar nossa costa.

É óbvio, mesmo para o mais energúmeno, que o lixo urbano abandonado nas ruas e nas praias acumula, estando ou não em época de temporada.
Turistas, habitantes, comerciantes formais e informais são os culpados diretos pela degradação, mas, os maiores responsáveis são os culpados indiretos, os prefeitos, governadores, vereadores e afins que, por incompetência ou mesmo omissão para lidar com uma situação previsível, continuam tendo outras prioridades, que ainda não descobri quais são.
Quiosques em excesso espalham-se ilegalmente, concedidos e construídos de maneira criminosa na faixa de areia das praias, poluindo a paisagem com suas presenças horrorosas; sua música de gosto duvidoso em volume surreal é pura poluição sonora, e acumulam-se copinhos, garrafas de vidro, latas nojentas, sacos plásticos asqueirosos e toda sorte de detritos em seus arredores, além do fato de suas próprias estruturas contribuirem para a degradação total das praias, ao espalhar entulho e pneus usados em seus taludes pela areia.

Cuidado, bro, pés cortados com vidro e água salgada são uma mistura que lhe tirarão altos dias de surf. Você já parou e pensou pra onde vai a m… depositada nas fossas (enterradas na areia) destes quiosques?
Óleo nas praias, vazado de veículos que transitam ilegalmente pela areia, como o caminhão da Antarctica que distribui bebida aos quiosques, e outros veículos, gruda em nossos pés e comprometem a balneabilidade.
Ratos pululam, transam e urinam entre as pedras da boca da Barra, alimentados pelos restos nutritivos deixados nas ruas e na areia – da parafina dos surfistas às iscas dos pescadores; o lixão, que lega o seu chorume contaminado e fedorento à bacia deste rio morto que desagua no mar junto ao centro da cidade; tubulações vomitam esgoto – fezes humanas frescas – na praia do Sonho, sob a ponte e em outros pontos da praia; entre muitos outros exemplos de descalabro e desrespeito ao ambiente e aos nossos olhos, narizes e ouvidos.

Campanhas como distribuir saquinhos de lixo não surtem o efeito desejado pelo simples fato dos saquinhos somarem-se à sujeira acumulada, pois o que não rola direito é o seu destino normal: a coleta de lixo, pois não há nem mesmo o básico que são as lixeiras.
A própria campanha deixa a desejar no aspecto intelectual. Não há um processo producente de conscientização e o usuário da praia acaba sujando naturalmente esse ambiente.
Não vejo campanhas eficientes de educação ambiental, nem coleta seletiva, nem reciclagem, nem coleta pura e simples de detritos, nem de iniciativa federal, nem estadual e, muito menos, municipal, para a solução deste problema.
Infelizmente, o que vemos são inaugurações de redes de coleta e estações de tratamento de esgotos incapazes de aturar a demanda.

Além disso, um bom dinheiro público foi investido para a criação de um Centro de Pesquisa para o controle de qualidade ambiental que continua fechado para a população e para os próprios técnicos que vivem na cidade.
Vejo claramente que subestimam nossa capacidade intelectual e sensibilidade, talvez na pretensão de sermos tão inúteis quanto eles.
Cabe a nós pressionar e obrigar estas figurinhas obtusas que se acham “autoridades” para que se virem e resolvam trabalhar para manter a cidade limpa. Mexa-se, prefeitura, para coletar e tratar o lixo! Eu pago meus impostos para isso! A responsabilidade é sua!
Matheus Godoy Pires é biólogo e mora em Itanhaém