O carioca João Luiz França, 42 anos, é professor de educação física e sargento Guarda-Vidas do Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro, situado na mundialmente famosa praia de Copacabana, onde foi criado.

 

Também foi nas águas de Copa que França iniciou a prática do bodysurf, ou surf de peito, culminando com o título de campeão brasileiro Open da modalidade em 2005.

 

França foi um dos quatro atletas brasileiros que participaram do Pipeline Bodysurfing Classic, mundial da categoria disputado no começo de fevereiro nas ondas de Pipeline, North Shore de Oahu.

 

Depois de se classificar na primeira fase da triagem, ele foi barrado na segunda fase e terminou na 32a colocação na prova.

 

?Já estive em diversas situações em que para salvar uma vida coloquei a minha em risco, mas me sinto privilegiado por ter essa profissão. Minha vida não teria sentido se eu não fosse um anjo do mar?, enfatiza França.

 

Em sua terceira temporada no arquipélago, ele trocou uma idéia com o correspondente Waves no Hawaii Bruno Lemos sobre a experiência no mundial e a importante atividade que exerce no Brasil.

 

Como foi participar do mundial de bodysurf em Pipeline?

 

É sempre radical e causa muitas emoções, sem contar em ter aquelas ondas por 20 minutos só pra você e mais cinco atletas por bateria. Não se pode vacilar um instante, pois um erro pode ser fatal, aquelas ondas são muito poderosas e já causaram muitas mortes, mas também muitas alegrias e sonhos. Você poderá tirar o tubo da vida ou ter sérios problemas com conseqüências irreversíveis. Mas tenho cuidado, pois é minha terceira temporada.

 

Você viu ou percebeu alguma diferença de como as pessoas enxergam o surfe de peito no Hawaii em relação ao Brasil?

 

Bem, no Hawaii o bodysurf é muito respeitado como qualquer esporte praticado nas ondas, independente da forma, principalmente por ser uma das melhores formas de sair do mar em situações críticas. Quando o surfista perde sua prancha ele mesmo sai com o auxílio das ondas, surfando de peito. Sem essa técnica seria arrastado pelas fortes correntezas para alto mar, ou jogado de encontro aos arrecifes pelas ondas. No Brasil não é diferente, porém nosso fundo é geralmente de areia, mas como em todo mundo o surf de peito é muito praticado por banhistas, surfistas, bodyboarders e principalmente pelos salva-vidas, que têm a modalidade como um dos meios mais utilizados para transportar vítimas de afogamento sem que se perca o contato visual e físico da mesma, dando maior proteção e segurança para que tudo saia bem.

 

Fale um pouco do seu trabalho no Brasil junto ao Salva-Mar.

 

No Salva-Mar do Rio de Janeiro sou segundo Sargento, instrutor e preparador físico da tropa, pois sou formado em Educação Física e aplico meus conhecimentos aos salva-vidas mais novos. Tenho 42 anos e 22 de salvamento marítimo, já estive em diversas situações em que para salvar uma vida coloquei a minha em risco, mas me sinto privilegiado por ter essa profissão. Minha vida não teria sentido se eu não fosse um anjo do mar.

 

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Como você compara a estrutura brasileira em relação ao que observa no Hawaii? As técnicas de salvamento são as mesmas?

 

A estrutura no Hawaii em diversos aspectos é bem melhor: as cabines onde ficam os salva-vidas é bem ampla e protegida de vento, chuva e sol.

 

Possui telefones, microfones, megafones, vidros escuros, material de socorro avançado, cilindro de oxigênio, luvas, colar cervical, materiais térmicos, desfibrilador, pranchões, quadriciclos, coisas que no Brasil só existem nas ambulâncias especializadas – uma para diversos postos, muitas vezes de difícil acesso devido ao transito caótico.

 

Já nas cabines de praia do Brasil ficamos trabalhando no afogado até a chegada da ambulância. As técnicas de salvamento são basicamente as mesmas. Nosso material humano acaba sendo mais exposto ao perigo pela falta de material específico, como jet-ski, por isso somos considerados os melhores salva-vidas do mundo.

 

Se pudesse escolher, você optaria por ser salva-vidas no Brasil ou no Hawaii?

 

Sou um Anjo do Mar e seria salva-vidas em qualquer lugar do mundo, a qualquer hora, em qualquer tempo e qualquer mar, estarei sempre pronto para salvar vidas.

 

Você chegou a trocar informações com alguém do corpo de salva-vidas do North Shore?

 

Sim, com o Victor Maçal, brasileiro radicado há mais de 12 anos no Hawaii. Ele faz a mesma função que eu no Salva-Mar e é um excelente nadador e profundo conhecedor da profissão. Tecnicamente falando, foi muito importante nossa troca de informações, acredito que vai acrescentar muito para ambos e já temos uma possível palestra aqui no Brasil com a chegada do Victor ainda este ano em minha casa. Prepararemos um excelente material para apresentar ao serviço com novas opções de materiais, para que possamos salvar mais vidas no futuro.

 

Quais seriam as noções básicas que o surfista deveria saber diante de um afogamento?

 

O básico é manter-se calmo e confiar em si para poder dar alguma tranqüilidade a quem estiver em perigo. É bom evitar surfar sozinho em lugares desconhecidos. Em situações de afogamento, caso não tenha conhecimento sobre técnicas de salvamento é bom pedir auxilio a um outro surfista mais próximo. Observar situações de perigo como um todo tentando manter-se em segurança. Caso tenha um afogado sobre sua prancha, tente não expor a vítima a qualquer tipo de risco e leve-a para depois da arrebentação ou, dependendo da situação, deite-se sobre a vítima e a prancha transportando-a para a praia com auxilio de uma onda já estourada. Não permita que a vítima o agarre. Tente sempre chamar ou visualizar um salva-vidas para que ele venha auxilia-lo.

 

Deixe um recado para os internautas do Waves.

 

Espero que minha entrevista sirva como orientação básica àqueles que estão iniciando no surfe ou na profissão de anjo do mar e desejo a todos boa sorte, boas ondas, sejam prudentes e cautelosos. Um grande abraço.

 

 

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