Animais marinhos: perigos e cuidados

 O médico Vidal Haddad Junior, professor doutor da Faculdade de Medicina de Botucatu (Unifesp) e médico colaborador do Hospital Vital Brasil (Instituto Butantã), desenvolveu um trabalho em vários pontos do litoral e rios brasileiros sobre acidentes com animais aquáticos.

 

Trabalhando na área há dez anos, o médico publicou o livro “Atlas de Animais Aquáticos Perigosos do Brasil” e mantém um site com informações sobre primeiros socorros e medidas hospitalares para “queimaduras” de águas-vivas, ferroadas de peixes, acidentes por ouriços-do-mar etc.

 

Neste artigo, Vidal Haddad esclarece as principais dúvidas referentes ao  contato com animais marinhos.

 

 

Acidentes provocados por animais marinhos são mais freqüentes do que se pode imaginar. Mas, a maioria ocorre por imprudência humana, pois ferrões, dentes, raios das nadadeiras de alguns peixes e vários tipos de venenos fazem parte dos mecanismos de defesa de alguns representantes da fauna marinha.

 

Raramente se vê um acidente onde o animal não tenha sido provocado ou tocado bruscamente momentos antes de atacar. Isso quando o animal não é pisado ou está sendo retirado de anzóis.

 

Sendo assim, a primeira regra para evitar acidentes é não tocar em nenhum animal marinho sem razão para isso. A segunda é respeitar o fato que animais venenosos mantém ativo o veneno mesmo depois de mortos, caso de peixes e águas-vivas na areias das praias.
       

Cerca de 50% dos acidentes em banhistas são provocados por ouriços-do-mar – animais venenosos – que causam dificuldade na extração das espículas em Pronto-Socorros.

 

Baseados em um estudo, notamos que cerca de 40% dos pacientes que não retiram completamente os espinhos têm febre, dor local, nódulos dolorosos e outras complicações. Portanto, espinhos não podem ficar no corpo e devem ser retirados.

 

Demais acidentes com banhistas são provocados por cnidários (águas-vivas e caravelas) em uma proporção de cerca de 25%, além de peixes venenosos (também cerca de 25%). A maior parte dos acidentes com peixes é causada por bagres. Mas, também foram observados casos provocados por arraias, peixes-escorpião e peixes-cirurgião.

 

‘Tribos aquáticas’ apresentam fatores de risco diferentes em relação aos acidentes com animais aquáticos. Praticantes de pesca-submarina e mergulhadores autônomos, por exemplo, se expõem ao contatos com ouriços-do-mar em paredões rochosos e se machucam com freqüência.

 

Outro fator de risco é causado por peixes venenosos na atividade subaquática. Peixes-escorpião, que ficam imóveis no fundo praticamente invisíveis, também podem causar acidentes em mergulhadores. A imprudência de mergulhadores autônomos ao tocar arraias, barracudas e tubarões pode trazer problemas, bem como a pesca de grandes peixes, como meras e garoupas.

 

Os surfistas estão expostos ao contato com águas-vivas e caravelas, sendo que no

primeiro caso não há como prevenir o acidente porque estes animais são invisíveis na água.

 

Acidentes com caravelas podem ser evitados mantendo distância do flutuador do animal, lembrando que os tentáculos podem, em casos extremos, atingir 30 metros de comprimento. Penetração de espículas de ouriços-do-mar nos pés não é impossível, embora estes animais fiquem mais nas pedras entre praias e em águas profundas.

 

Pescadores profissionais se acidentam quando separam camarões do restante do conteúdo das redes de arrastão, que geralmente contém águas-vivas, moréias de pequeno porte e bagres.

 

Já estudantes de Biologia Marinha correm riscos maiores do que qualquer pessoa porque coletam e manipulam animais aparentemente inofensivos, mas que podem causar dermatites e quadros dolorosos. Além dos já citados, temos as esponjas marinhas, que produzem um limo irritante e chegam a provocar quadros irritativos nas mãos; as anêmonas e corais, cnidários que apresentam nematocistos e provocam acidentes. E poliquetas (vermes marinhos), que mordem e provocam quadros alérgicos pela introdução de cerdas corporais.

 

Medidas de primeiros socorros controlam a sintomas na maioria das vezes, mas se ocorrer persistência de dor ou vermelhidão no local, é preciso procurar um hospital.

 

No caso de acidentes com águas-vivas, faça compressas de água do mar gelada (ou aplicação de cold packs, bolsas de gel utilizadas para conservar vacinas e soros) para controle da dor, além de banhos de vinagre (desnaturam o veneno) no local atingido, que apresentará dor intensa e vermelhidão.

 

Dor difícil de controlar, falta de ar, tosse, nariz escorrendo, palpitação, entre outros sintomas, podem ser indicativos de quadros mais graves e necessitam de atendimento hospitalar.

 

Acidentes por peixes são de gravidade variável: a dor provocada por um acidente por arraia ou peixe-escorpião é lancinante, enquanto que acidentes por bagres são menos dolorosos.

 

Os venenos de peixes são termolábeis (degradam no calor) e a aplicação de água quente, mas tolerável, no membro atingido por 30 a 90 minutos melhora muito a dor. O doente deve ser encaminhado a um hospital para limpeza do ferimento e extração de possíveis fragmentos de ferrões ou espículas.

 

Mais informações podem ser encontradas no site dangerousaquaticanimals.com.br . Ou no livro “Atlas de Animais Aquáticos Perigosos do Brasil: guia médico de identificação e tratamento” – Editora Roca, 2000.

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