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Andarilho do Mar

Autor do livro Alma Santista, fotógrafo Jair Bortoleto também escreve crônicas sobre o surf. Foto: Jair Bortoleto.

Ele estava completamente extasiado de emoção. A vida já não lhe pareceria monótona. Os dias começariam a contar exatamente dali. A primeira sensação de estar vivo, depois de tantos anos.

 

Mesmo não conseguindo sentir muita coisa, tudo naquele momento lhe parecera surreal. As ondas estavam enormes, perfeitas e convidativas.

 

O sol estava começando a beliscar os prédios da orla e copiosamente estampando sua sombra na areia da praia.

 

Meticulosamente as pessoas passavam por ele sem perceber de que um momento na história estava para ser escrito.

 

Quanto planejamento e quanto trabalho para construir aquela tábua. O que aquele pedaço de madeira poderia proporcionar? Qual a sensação de andar sobre as ondas?

 

Começou, ainda um pouco desajeitado, a remar em direção ao fundo, o êxtase e a emoção cresciam. Depois de muita dificuldade para passar à arrebentação, ele chegou ao local que parecia certo para ancorar.

 

A primeira onda veio e ele hesitou em remar. A sensação de desafio corria pelas suas veias. Mesmo estando acostumado com a água, aquilo era tudo novo.

 

Até que a onda escolhida veio. Ele remou forte e incessante, decidido a descer aquela onda. O mundo parou. Tanto a vida dele como toda a história mudariam bruscamente. As coisas já não seriam iguais como antes.

 

Ao passo em que ele se levantava lentamente em cima da tábua, seus olhos fixos viram tudo à sua volta se elevar ao ficar de pé. Ali, naquele momento se escrevia uma historia.

 

Um romance que se estenderia por vários dias, anos e décadas. Ele foi até a beira do mar, meio que estático com aquilo tudo, mesmo sem perceber o que realmente acabara de acontecer.

 

Ficou emocionado ao se ver como sempre quis, andando sobre as ondas. Sete décadas depois, ao se sentar pra apreciar o pôr do sol, na mesma praia em que sua vida ficou marcada pelo acontecido, lúcido, com seus olhos levemente flexionados pelo excesso de luz, pensou naquele único momento.

 

As sensações que degustou naquele dia, lentamente se reverteram em imagens que retornaram em sua mente. Leves e contentes, dois irmãos passam por ele brincando e rindo um com o outro. Ele, ao observar aquilo, meio sem jeito, enxuga uma pequena e rebelde lágrima que insistiu até conseguir cair de seus olhos.

 

Aquela lágrima caiu e se misturou com a areia que persiste em atacar o calçadão da praia. Aquele ar que respirava se parecia grandemente com o mesmo ar respirado naquele dia.

 

Ar que foi tragado por aquele homem naqueles dias lúdicos de Santos. Dias que nunca mais voltarão. Mais que de modo algum se apagarão da memória daquele andarilho do mar.

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