Muitas Águas

Amigos do Nordeste

Baía Formosa é o cenário de uma aventura no Nordeste. Foto: Rodrigo Mesquita.

Certas experiências são tão surreiais que, ao relembrarmos, às vezes nós mesmos não temos certeza se as vivemos!

Aconteceu isso comigo e com meu amigo Edu Gomide, do colégio paulistano Santo Américo. Às vezes eu o chamava de “Bennet”, nome da rua em que ele morava no bairro Alto de Pinheiros.

Como já dito aqui em algumas colunas anteriores, passei boa parte das minhas férias escolares e universitárias no Nordeste do Brasil, à procura de ondas e sol.

Assim foi uma delas, quando resolvi acampar em Baía Formosa, vindo da praia da Pipa (RN) e descendo até Porto de Galinhas, já em Pernambuco. Isto foi em 1981 mais ou menos.

Eu já havia estado em Baía Formosa no ano anterior e surfado altas ondas. Não tão altas no sentido literal da palavra, mas perfeitas e extensas direitas. Assim que cheguei ao pequeno vilarejo, tratei de me agilizar para arrumar a melhor hospedagem que um surfista pode ter: com os pés na areia!

Não era um resort de surf, como estes de hoje em dia, com tudo incluído, piscina à beira-mar, massagem relaxante, sala de TV, etc. Tudo isso é muito bom, mas para um adolescente de 17 anos na época, a fissura de surfar e minha inseparável barraca e prancha era tudo que precisava para criar meu resort privativo a qualquer hora e qualquer lugar.

O sol já ia a pino, causticante e eu suando procurava um canto para arrumar minha tenda para os próximos dias.
Sem eu perceber, era observado por um cara, numa varanda de uma casa à beira-mar. Ele, depois de me analisar por um tempo, foi até mim e perguntou: “Tudo bem brother? Você não é daqui né?”.

– Não sou não, amigo. Sou de São Paulo e vim passar uns dias aqui das minhas férias e vou armar minha barraca pra ainda dar tempo de pegar um final de tarde.

Ele continuou: “Quente né?”.

– Fervendo!!!

– Olha só, emendou o sujeito, eu estou naquela casa ali, é minha, e venho aos finais de semana de Jõao Pessoa surfar aqui. Hoje, depois do final de tarde, volto para capital e se você aceitar, pode ficar aqui em casa.

Custei a acreditar em tamanha gentileza. Falei que esperava por um amigo que chegaria de São Paulo dali alguns dias.

Ele falou: “tudo bem, tem dois quartos. Vocês ficam aqui, surfam e tem conforto e sombra pra estes próximos dias. Podem fazer compras, abastecerem a geladeira e até cozinharem. O que acha?”.

– Nossa, eu não sei como te agradecer ou retribuir.

– Não se preocupe, apenas pegue altas ondas e divirta-se.

E foi assim. Meu mais novo amigo arrumou a casa e depois de surfarmos ele e sua mulher despediram-se e fiquei e lhes dei tchau como se eu fosse o dono da casa.

– Ah, e não se esqueça de depois deixar a chave com a faxineira.

– Valeu brother, boa viagem. Vou cuidar bem de sua casa, fique tranquilo, respondi.

Demorou algumas horas até eu entender o que estava acontecendo. Como pode alguém que nunca havia me visto, simplesmente oferecer sua casa, sem cobrar nada, pelo simples fato de querer ajudar?

Hoje, passados mais de 30 anos, viajado pelos sete mares e quase todos os continentes, posso dizer que as maiores provas de amizade e gentileza, tive com conhecidos e amigos do Nordeste do Brasil. A imagem que ficou na minha mente e coração é a de um povo muitas vezes sofrido, mas de caráter, educação e extrema generosidade.

Já havia tido provas deste povo acolhedor anteriormente e contiunuei tendo depois deste evento, mas nunca mais vivi algo parecido com este verdadeiro ato altruísta de amor genuíno!

Estava tão quente que me estiquei numa varanda e dormi numa rede mesmo. Amanheceu e logo fui pegar minhas ondas. Os dias passaram num ritmo tranquilo e ainda me pegava pensando em tudo aquilo, quando Edú chegou e o encontrei na rodoviária.

– E aí, Motaury, onde vamos ficar?

Contei tudo que ocorrera e ele começou a rir sem parar. Apresentei nossa surf house e ele, na fissura do surf, vindo de São Paulo, já foi pra dentro d’água.

Eram 2:30 da madrugada quando acordei com uma chuva torrencial. Estávamos na varanda, cada um na sua rede. Era assim mesmo, a chuva entrava no horário certo e parava alguns minutos depois. Esperávamos passar e voltávamos para embalar até que o sol nascesse na força do seu esplendor.

A chave, depois de alguns dias e muitas ondas, ficou na mão da faxineira e meu amigo, nunca mais o vi e infelizmente não me recordo do nome dele. Agora, escrevo este texto e ainda penso: será que tudo isso aconteceu mesmo?

Sim, é lógico e mesmo que não venha a encontrá-lo, venho agradecer “genericamente” ao povo nordestino, que tem a alma pura e sincera. Nunca mais vou me esquecer do que passei em Baía Formosa, que por mim poderia se chamar: Baía mais que Formosa!

Ah, e se alguém souber por onde anda este brother, ficaria honrado em reencontrá-lo algum dia.

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