Muitas Águas

Altas ondas e um tiro

Enquanto Pitangueiras proporciona altas ondas, homem é baleado em São Paulo. Foto: Diego Fente Stamato.

“Altas ondas e um tiro no peito”. Esta manchete bem que poderia estar no caderno policial de qualquer jornal do Brasil ou até mesmo aqui no Waves.

Vamos voltar alguns anos, mais ou menos, entre 1984 e 1987, não me recordo exatamente a data. Fui passar mais um final de semana na praia, como manda o figurino de todo surfista que mora em São Paulo, longe do mar e das ondas.

Nossas amizades desenham-se, na maioria das vezes, em função das semelhanças e gostos que temos em comum.

Milton Del Carlo, ou Miltão, para os mais chegados, é daqueles brothers fissurados por surf que fazem tudo ao seu alcance para pegar umas ondas, mesmo que o mar não esteja aquela maravilha.

Eu também tenho minha dose de “fissura surfística” e lá fomos nós, debaixo de chuva e frio para o litoral paulista. Afinal, não é assim que entram as frentes frias no Sudeste do Brasil? Naquela época pré-internet, estes fatores climáticos, associados com nossas fissuras, eram os combustíveis para aguentar a panela de pressão que era viver longe da praia.

E não deu outra, instalados no “apê” do edifício Bela Vista, na praia de Pitangueiras, Guarujá, tivemos mais um final de semana de altas ondas. Chegava a triste hora de voltar, botar tudo dentro do carro e subir a serra. Tudo o que curtimos naquele final de semana nos daria forças para sonhar com um outro próximo, e assim por diante.

Lá fomos nós, conversando no Fiat do Miltão. Falamos sobre surf, família, amigos, relacionamentos, enfim, sobre a vida! O mais legal do surf mesmo é essa onda de termos um ou alguns brothers para compartilhar os nossos sentimentos. Acho que no fundo o surf é uma grande terapia.

Bom, já era início da madrugada e chegamos à terra da garoa. Miltão estacionou o carro na calçada para ser mais rápido e fui tirar a minha prancha do rack, quando um sujeito de cor amarela nos aborda e diz: “Por favor me ajudem, tomei um tiro e estou morrendo”. Eu olhei para o Milton e acho que pensamos a mesma coisa: “Para cima de ‘moi’ não”.

Preparamos para nos defender daquele bandido quando o sujeito leva a mão ao peito, abre a camisa e nos mostra um buraco, logo abaixo da clavícula! Agora sim, meio em câmera lenta a ficha foi caindo. Aquele cara realmente havia tomado um balaço. Entendi por que ele estava tão “amarelo”, o cara iria morrer ali mesmo na nossa frente, meu Deus.

Ele falou rápido que a poucos minutos havia sido assaltado exatamente naquela calçada e, mesmo não tendo reagido, havia tomado aquele tiro! Já nos preparávamos para levar o baleado para um hospital quando meu pai, que a estas horas já estava acordado (pais e mães, como já sofreram nos esperando) grita: “De jeito nenhum, ele vai morrer dentro do carro e vão dizer que foram vocês que atiraram nele”.

Fiquei indignado, como meu pai, médico, pessoa exemplar e admirável, poderia ser tão frio e calculista. Já ia desobedecê-lo quando passou uma viatura e parou por causa do movimento estranho: “O que está acontecendo aí?”, perguntou o policial.

Explicamos rápido e sem demora e, depois de deixarmos nossos nomes, ele foi levado ao Hospital das Clínicas. Meu pai, de pijama, desceu e me deu ainda mais uma bronca. O Miltão foi rapidinho para casa e eu fui dormir pensando em tudo aquilo.

No dia seguinte, quando acordei, meu pai já tinha ido trabalhar e coincidentemente aquele dia era seu plantão no Hospital das Clínicas. Na hora do almoço ele me disse que foi visitar o baleado de madrugada e que o cara estava bem e feliz por estar vivo. Ele sobreviveu por muito pouco, um milagre mesmo.

Bem, olhei pra ele, meio sem jeito, e falei: “Pai, me perdoe por ontem, eu não entendi na hora o porquê da sua atitude”. Ele respondeu: “Tudo bem Filho, não tem importância, eu sou mais velho e mais experiente e é por isso que estou ao seu lado”. Meus olhos encheram de lágrimas e continuei almoçando

Tudo não havia passado de um grande susto, então me lembrei das ondas e também fiquei feliz por estar vivo. Hoje, compartilho este texto e vejo o quanto Deus, nosso Pai, nos livrou e nos livra, mesmo quando não o entendemos o porquê dele agir assim.

Vamos seguir em frente, pois ainda há muita onda para surfarmos. Aproveito para mandar um grande abraço para o Miltão, que hoje mora em Santa Cruz, Califórnia (EUA).

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