
Quem pega onda certamente já ouviu falar da praia da Vila, principalmente nos últimos dois anos, quando a praia recebeu as finais da etapa brasileira do circuito mundial de 2003 e, praticamente, toda a etapa do ano passado.
O que muitos não sabem é que o surfe brasileiro teve seu ?alicerce? formado nessas ondas.
No início dos anos 70, uma comunidade de cabeludos com a pele queimada do sol,
linguajar estranho e poder de andar sobre as águas, se instalou em Imbituba a fim
de usufruir das potentes ondas da região.

Alguns dos protagonistas dessa saga se transformariam, anos mais tarde, em paradigmas do surfe nacional.
As praias de Imbituba foram desbravadas, no final dos anos 60, pelas famílias Johannpeter, Pettini e Sefton, sendo que o mais velho dos Sefton, Paulo, ainda está por aqui.
Nos anos 70, a comunidade surfística do eixo Rio-São Paulo ficou sabendo de um pico ao Sul do Brasil, onde rolavam grandes e perfeitas ondas.

Nomes como Bento Xavier da Silveira (um dos primeiros a conhecer Imbituba), Toni Catão, Roberto Perdigão, Dani Boi, Rossini ?Maraca? Maranhão, Arnaldo ?Abacaxi? Spyer, Victor Vasconcelos, Cauli Rodrigues, Ianzinho, Rico de Souza, Ricardo Bocão, Wanderbill, Penho, Jonny B.Good, Fedoca, Sidão Tenucci, entre outros, começaram a freqüentar a cidade.
Toni Catão, que era de uma família tradicional e de posses, possuía uma verdadeira mansão à beira-mar, a conhecida Chalé 4.
E o famoso Chalé 4 tornou-se a base para um novo estilo de vida de jovens.

Muita gente famosa esteve hospedada naquela casa. Ali foi o início da atual Hot Stick, na época Vic-Stick, do shaper Victor Vasconcelos.
Também iniciou ali a confecção das primeiras bermudas brasileiras, a Nazimbi (em referência à cidade – Na Zimbituba => Nazimbi), de propriedade do paulista Dani Boi.
O carioca Roberto Perdigão, diretor da ASP South America, residiu na cidade por longos anos, trabalhando na Emacobrás – empresa de propriedade da família Catão.
Enfim, o Chalé 4, com uma vista única, repleta de jovens descompromissados com o sistema, foi o ?arcabouço? da atual estrutura do esporte.
Imbituba caminhava para se tornar a Capital Nacional do Surfe muito antes de alguém imaginar que o surfe atingiria os patamares atuais de popularidade. Imbituba era o paraíso!
Mas, quando tudo conspirava a favor para a cidade explodir como natural e autêntica cidade do surfe, algum ?infeliz? engravatado de gabinete teve a ?brilhante? idéia de criar uma indústria estatal poluente às margens das ondas da Vila e do Porto, aproveitando o rejeito piritoso do carvão e produzindo ácidos sulfúrico e fosfórico.
Os políticos, míopes por natureza, enxergaram na idéia a oportunidade de desenvolvimento a curto prazo e esqueceram de toda a destruição ambiental que a cidade sofreria ao aceitar uma indústria química.
A região conhecida como Bosque, uma imensa reserva verde com árvores centenárias que cobriam uma grande área e por onde era feito o acesso da Vila para a praia do Porto foi devastada para construção da estatal.
No canto direito da praia do Porto, chamado Canto do Paraná, rolavam altas ondas. E quando o mar estava storm na Vila, o Porto passava ser a opção.
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Aquilo era a Disneylândia para qualquer surfista: com vento nordeste, terral na Vila; com o vento sul, terral no Porto. De acordo com o swell e o vento, bastava cruzar o Bosque e fazer a cabeça.
No entanto, a ICC (Indústria Carboquímica Catarinense) acabou com o Bosque e com o verde da região próxima.
De quebra, ainda pintou a paisagem de um vermelho forte, resultado dos produtos ?beneficiados? em sua atividade fim.
O turismo não prosperou e os surfistas que tinham ali se instalado trataram de buscar lugares mais harmoniosos.

A cidade teve uma certa estabilidade enquanto a indústria esteve em atividade. Muitos empregos foram gerados, mas em geral trabalhava mais gente de fora do que os próprios nativos.
Sofrendo o início dos efeitos da globalização, a empresa perdeu mercado e acabou falindo. Com a privatização implantada pelo então presidente Itamar Franco, não houve sequer um interessado na aquisição da ICC.
Era o fim da poluição!
No surfe, a semente do esporte, semeada pela geração dos anos 70, brotou e continuou dando frutos.
Várias gerações se formaram desde aquela época e a Vila continuou sendo o destino de muitos surfistas.

Mas o ressurgimento para o mundo do surfe ocorreu com a realização do OP Pro em 94.
A Vila voltou ao cenário competitivo nacional, sendo escolhida para abertura da primeira etapa do circuito brasileiro e não decepcionou.
No domingo, durante as finais, tinha altas ondas de Leste.
A partir daí, a história começou a mudar. O turismo redescobre a cidade e até as Baleias Franca voltaram a freqüentar o paraíso em número cada vez maior.

Atualmente, a cidade está trabalhando sua vocação natural, focada no turismo de observação de Baleias, que visitam nossas praias para acasalar, procriar e amamentar seus filhotes. Isso reflete também no esporte dos reis, o surfe.
Em 2000, foi a vez de a praia do Rosa sediar uma etapa do WLT, circuito mundial de longboard.
Já nos dois anos seguintes a Vila aparece novamente em destaque ao receber a penúltima etapa do circuito Super Surf. Nos anos de 2003 e 2004 aterrissa nas areias da Vila a primeira divisão do circuito mundial, sedimentando de vez o nome da praia entre as melhores ondas do Brasil e do mundo.
Torna-se visível que a herança deixada pelos jovens cabeludos e visionários foi tamanha a ponto de hoje qualquer um que surfar na Vila tem certeza de que o surfe transcende idade e fronteiras.
O feeling arraigado pelos desbravadores continua se expandindo e tomando corações e mentes, desde a gurizada de 12 e 13 anos até a geração ?das antigas?.
Pessoas como Gil de Bona, Gariba, Flávio ?Magrão? Bortoluzzi, Tânia Candemil, Nedo, Body Galego, Gilmar Carvalho, Baia, Jota, Chicão, Zé Henrique, Nico, Klever e Capaverde, apenas para citar alguns, têm o sentimento do surfe estampado no rosto.
Basta apenas que você tenha percepção suficiente ao encontrá-los no canal após uma direita em pé de meio, 1 ou 2 metros.
São ?pais e também algumas mães de família? dropando em meio ao ?crowd? local e, além de compartilhar as ondas ainda estampam aquele sorriso único de satisfação, paz e tranqüilidade de um bom dia de surfe.
E o que não nos causa espanto é poder chocar algum desavisado pelo convívio de quatro gerações, que encontraram no surfe um sentimento puro proporcionado por um esporte alucinante, e que continuará acontecendo indefinidamente, pois toda a energia das ondas da Vila, aliada à atmosfera magnífica de uma pequena cidade de colonização açoriana e ao alto astral dos locais, contribuem para fortalecer o mais puro e simples prazer de se divertir.
Esse artigo foi originalmente publicado no site s365.com.br, onde Beda Batista, jornalista de Imbituba, assina uma coluna.