No meio de toda a controvérsia gerada pelo desfecho do Campeonato em Supertubos, um ponto não sai da minha cabeça. Esse ponto é simples: como é vago repetir e cobrar uma sigla de 3 letras, A S P.
A ASP é uma entidade formada por seres humanos, que como todos nós, erram. A ASP tem o direito divino de errar, porém o complicado é quando eles insistem no mesmo erro esperando resultado diferente. No caso de Portugal, eles conseguiram piorar esse erro.
Instituições e siglas são perfeitos esconderijos para pessoas equivocadas ou inescrupulosas, mas não estou aqui emitindo julgamento sobre a direção da ASP, só quero proteger o surfe, a paixão da minha vida, de pessoas que estão recorrendo no mesmo erro e prejudicando o que mais me atrai, o surfe.
Quando Kelly Slater abandonou e retornou ao tour, ele por muitas vezes repetiu que não tem como, o melhor e mais atual surfe do mundo é apresentado pelos surfistas que compõem a elite.
Essa foi a razão dele para voltar ao tour, a paixão que o careca tem de estar com o surfe dele no estado da arte. Todos se lembram que ele demorou alguns anos no tour para recuperar o ritmo durante o período chamado de Irons Age.
O que o Gabriel Medina está fazendo é mudar completamente a forma de abordar uma onda, atacá-la de forma inconsequente, com fúria e sem nenhum amor pelo próprio corpo. Qualquer outro surfista facilmente quebraria o tornozelo voltando das manobras que ele completa com uma facilidade que deixa toda a elite do surfe apavorada de medo.
Pois bem, o que aconteceu na final do campeonato em Peniche me remeteu aos primórdios do vale-tudo aqui no Rio de Janeiro. O que hoje é uma indústria bilionária, começou com o senhor Hélio Gracie na busca de provar a eficiência do jiujitsu.
Brigas se tornaram famosas, como a do Rickson Gracie, ainda criança com 16 anos, contra o urso havaiano Byron Amona. Rickson era um menino franzino e Byron, um gigante, repetindo a parábola de Davi e Golias.
Depois de Byron Amona ser castigado por aquele menino franzino e desconhecido de 16 anos, começou a circular um boato que o Rickson sofreria uma covardia. Esse boato levou o seu pai, Helio Gracie a visitar o Sr. Byron Amona no Hotel Sheraton do Vidigal e dizer para ele:
“Se você quiser trago meu filho aqui e apenas você e ele, um contra um, lutam até a morte nessa praia aqui embaixo. Mas se por um acaso, qualquer evento estranho acontecer com o meu filho, você não sai vivo do Brasil.”
A indústria multi bilionária do UFC nasceu aqui no Rio de Janeiro dentro do ambiente de ausência de covardia. Dois lutadores lutando até um desistir ou apagar sem qualquer interferência.
Em Peniche, negaram ao Gabriel Medina o direito ao mano a mano. Negaram ao nosso meinno o direito de decidir no surfe e pelo surfe quem é o melhor.
As lágrimas dele doeram na minha alma, pois foram lágrimas de quem sofreu uma covardia. De quem estava no chão montado desferindo socos na cara do adversário plenamente apto aquela luta, quando veio um amigo do adversário e chutou a cabeça dele de forma vil e covarde.
Não foi justo. Se fosse nos velhos tempos aqui no Rio de Janeiro, isso seria o início de uma guerra e a revanche a única solução.
Retornando ao alvo de toda a polêmica, vale analisar quem responde hoje pelo ASP World Tour. O senhor Renato Hickel por anos foi o diretor dessa instituição participando integralmente de toda a reformulação do circuito.
Quando Brodie Carr pediu demissão, foi Renato Hickel quem deu explicações à imprensa . No website da ASP, o nome dele consta como WT Manager e não há nenhum outro nome para responder pelo circuito.
Resumindo, eu gostaria de saber do Renato Hickel, brasileiro e residente em Coolangata, o que ele achou do resultado em Peniche. O que ele achou do desempenho do Gabriel Medina, do Julian Wilson e do corpo de juízes na final, cada um no desempenho de suas respectivas funções.
Cansei de ver piada sobre essas três letras, como Australian Surfers Protection. Acho que isso não é motivo para piada. Isso é uma oportunidade de questionamento.
O fato de recentemente a ASP ter entregue a administração do circuito para a ZoSea demonstra maturidade. Reconhecer que tem gente mais capacitada para levar o surfe para o próximo nível de profissionalismo demonstra humildade.
O desfecho do campeonato em Peniche foi muito prejudicial ao surfe profissional. Tente imaginar se em uma luta do UFC, alguém da equipe do lutador em desvantagem pulasse no octógono para chutar a cabeça do adversário em vantagem. Dana White tomaria alguma atitude. Ele não se esconderia como um covarde atrás de 3 letras, U F C.
Portanto, de uma forma digna, eu gostaria de ler algum pronunciamento do Sr.Renato Hickel, brasileiro, residente em Coolangata sobre a final do campeonato em Peniche. E, por favor, esqueçamos a nacionalidade do Julian Wilson e do Gabriel Medina. Não estamos protegendo a pátria. A intenção é salvaguardar o surfe, pois é por ele que todos nós torcemos.
Cristiano Guimarães é consultor especializado em estruturação financeira de projetos na área de álcool e açúcar, sócio da consultoria Projeto Brasil Sustentável.