Águas, pesadas, de março

Sabe quando tudo parece que irá cair por água abaixo, mas as coisas acabam se desenrolando melhores do que a gente sequer poderia sonhar?

 

Foi isso que rolou com a rapaziada nesta segunda-feira em Maui. As previsões diziam que o auge do swell seria na noite de segunda para terça, e que durante a manhã de terça o swell ainda estaria grande.

 

Na segunda a bóia bateu forte logo cedo e como o swell entra cerca de 12 horas depois de bater na bóia numero 1, todos ficaram decepcionados com a possibilidade de a ondulação quebrar solitária durante a noite, começando a crescer depois das 18 horas.

 

As 16 hs as ondas começaram a ficar grandes e dessa vez elas entraram com duas horas de antecedência – e os brazucas sedentos por mais um dia de big waves dominaram o outside de Jaws, com bombas de ate 50 pés plus.

 

Carlos Burle, Eraldo Gueiros, João Maurício, Edison de Paula, Jorge Pacelli, Haroldo Ambrósio, o argentino Daniel, o sul-africano Jason Ribbink, Willy e eu éramos as únicas cabeças dividindo o line-up.

 

Foi incrível, minha melhor sessão na temporada. Somente os amigos dividindo as séries em Jaws pesadíssimo. A maré seca e a direção com influência de Norte deixaram a onda muito cavada, veloz e, conseqüentemente, perigosa.

 

Foram muitas as situações em que a galera saiu por cima da onda abandonando o barco. Por outro lado, as bombas surfadas adrenalizaram a todos. Burle, o “passarinho indomável”, procurava a todo minuto uma “toca” para pousar. Pegou bons tubos no inside e fez muito a cabeça, tanto a dele como as de quem o viu deslizar pelas paredes.

 

Haroldo, segundo o próprio, tomou o pior caldo da vida depois de não conseguir chegar à sessão do inside, no momento em que eu o rebocava. Ouvi os gritos da galera do canal gesticulando que ele havia caído e demorou até ele aparecer na espuma, depois de ser arrastado uns 100 metros embaixo da água. Quase nas pedras o resgatei e o joguei nos rochedos para recuperar sua prancha.

 

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Pacelli pegou um tubo que o fez relembrar seus tempos áureos no Backdoor de Pipeline. Só que o tubo que ele pegou no inside era pelo menos três vezes maior e mais pesado do que os de dez anos atrás na mais tubular direita do North Shore de Oahu.

 

Edison e João, muito entrosados, surfavam uma atrás da outra. Ambos foram dormir amarradões com as ondas surfadas. A surfista local Shell foi rebocada por seu pai e ficou feliz da vida. Ser rebocada pelo próprio pai não é para qualquer um(a). Ainda mais em Jaws.

 

O jet-ski em que o cinegrafista Larry Haines filmava com Dave Lange quase foi parar nas pedras. Dave demorou para fugir de um bowl de oeste que entrou e o jet virou, tendo que ser rebocado mais cedo até a marina por seu amigo Erick.

 

Fazia algum tempo que eu não surfava ondas tão desafiadoras. Haroldo me rebocou em duas bombas que minha prancha pensou em pedir trégua. Literalmente ficou sem controle por alguns instantes devido a velocidade.

 

As ondas estavam atípicas, pareciam pistas de F1, muito cavadas, tubulares e rápidas. Jaws é sempre Jaws, mas dessa vez estava mais pesado, talvez devido a maré e direção do swell. O pôr-do-sol foi vermelho e mesmo já quase no escuro eu e Pacelli e Burle e Eraldo ainda dividíamos as series, sozinhos. Quando ficou praticamente escuro decidimos ir embora.

 

Mas a aventura não tinha terminado. Assim que chegamos no Maliko Goat os outros jets faziam fila para serem tirados no escuro e as ondas já fechando a baía tornaram o lugar parecido com um caldeirão.

 

Depois de cerca de meia hora no breu, uma série fechou fortemente a baía na nossa frente. Eu, Pacelli, Burle e o argentino Daniel, um em cada jet, éramos os únicos ainda esperando para sair da água. Uma onda de dois metros quebrou pesada em nossa frente, no raso, e não dava tempo para virar. Todos pularam juntos sobre a onda em seus jets. Eu voei do jet e perdi as duas pranchas que estavam comigo.

 

As quilhas me fizeram profundos cortes nos pés e na perna. O argentino Daniel literalmente voou por cima do jet de Pacelli, quebrando a lateral do jet dele, do próprio jet, e ainda quase levou a perna do paulista, que graças ao reflexo não se machucou seriamente. Eu caí do jet e rezei para que não viesse outra onda, senão toda aquela euforia se tornaria negativa com meu jet nas pedras.

 

Deus fez tudo certo e comemoramos a sessão épica com todos os brasileiros presentes no restaurante tailandês local. Deus fez tudo perfeito, se o auge do swell fosse na terça cedo haveria quinze jet-skis dividindo as séries, em vez de cinco – quatro com as cores verde e amarela.

 

Mas, o atípico mês de março ainda não parou de bombar. A bóia ainda está grande e as mandíbulas ainda mostram suas forças nesta terça, com certeza com mais jet-skis e menos onda que hoje. Obrigado meu Deus.

 

 

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Águas, pesadas, de março – Parte II

 

Muito sol, vento terral, baleias e ondas grandes. Essas foram as características das últimas semanas da primavera havaiana. Aliás, há muitos anos não eram vistas ondas grandes nesta época do ano.

 

Com mais de 30 temporadas na bagagem, o lendário fotógrafo Paul “Gordinho” Cohen, resumiu: “Os últimos meses de março em que presenciei ondas desse tamanho e com previsões iguais a essa foram nos primeiros anos da década de 80”, conta.

 

Nesta terça-feira Jaws pipocou perfeita com

direito a uma leve brisa de terral e séries com 20 pés plus.

 

O primeiro visual que meus olhos presenciaram ao chegar no outside, na companhia dos amigos Jorge Pacelli e Haroldo Ambrósio, foi uma seqüência de caldos do baiano radicado em Maui Yuri Soledade. Por duas vezes ele foi engolido pela mandíbula de Jaws.

 

Garret Mcnamara, Ikaika Kalama, Carlos Burle, Eraldo Gueiros, Rodrigo Resende, Danilo Couto, Troy Allotis, Jamie Stearling, Peter Mel, Skindog, o sul-africano Jason Ribbink e os argentinos Max e Daniel eram as cabeças dividindo as séries.

 

É incrível como a frase de Dave Kalama no último DVD dirigido por Laird Hamilton reflete a realidade: “As coisas podem dar erradas muito rápido no tow-in. Em frações de segundos o sonho vira pesadelo”.

 

Jorge começou puxando Haroldo em algumas ondas e quando fui para minha primeira onda rebocado por Pacelli, fiquei amarradão em soltar a corda em uma onda de 20 pés e desfrutá-la até quase o canal. De repente, o sonho virou pesadelo.

 

Avistei uma série de Oeste entrar na bancada a toda velocidade e na minha direção. Na onda anterior, Danilo Couto e Ikaika Kalama surfaram a mesma direita e Ikaika saiu por cima, depois da primeira curva na base, e ficou a ponto de tomar a onda que vinha na minha direção, alguns metros à minha frente.

 

Resende gritou para Pacelli resgatá-lo, pois Garret estava longe. Pacelli resgatou Ikaika, mas eu tomei a bomba na cabeça. Tentei penetrar na parede da onda, mas meu esforço foi em vão. Quando saí do outro lado fui repuxado para dentro da parede e voltei para a onda no lip do tubo. Tomei um caldo animal.

 

Quando consegui subir deu aquela vontade de vomitar, sem ter nada para jogar para fora. Ainda antes de tomar a segunda na cabeça, um italiano passou ao meu lado e não me resgatou, com os olhos arregalados procurando seu parceiro. Jorge me resgatou e, ainda “zonzo”, pedi a ele que me deixasse nas pedras para procurar meu foguete.

 

Quando ele me jogou nas pedras eu tinha esquecido de colocar os pés-de-pato e no meio da corrente acabei sendo jogado sem piedade por um quebra-côco de seis pés nos rochedos. Sem controle de nada, bati fortemente a bunda e os joelhos. Foi punk.

 

Fiquei cerca de uma hora para conseguir pular de volta no mar. As ondas não paravam de explodir nos rochedos. Ikaika dropou uma morra enorme para a esquerda. Sua prancha vermelha, tipo Ferrari, é inconfundível. Eraldo e o local “Buba” rebocaram as brasileiras Maria e Andréa em algumas intermediárias. Foi bacana assistir e sentir um pouco do frio na barriga que elas estavam sentindo.

 

Puxei Pacelli em boas ondas, enquanto Pete Cabrinha e Rush Randle apareceram no outside. As ondas abaixaram um pouco do auge do swell, mas toda a galera presente revezou as ondas civilizadamente entre 12 hs e 14 hs.

 

Um forte vento terral entrou ao redor das 14 horas, dificultando o surf. Recolhendo os jets no meio de um forte sol e alto astral, a galera saudava um lindo swell surpresa. Ninguém esperava um desses em março. Obrigado Todo Poderoso!

 

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