Fluid Energy era a marca da minha primeira prancha. Aos doze anos, uma prancha ainda tem um quê de brinquedo. O ano: 1985. Auge do New Wave. Bordas amarelo-limão; no deck – azul, do bico até a metade, quadriculado no meio, pink da metade à rabeta. Todas as cores devidamente “acesas”.
Pra alguns bastou um pedido para ter a prancha. Pra mim, não. Uma longa negociação com meu pai. Meu irmão mais velho do meu lado, defendendo praticamente uma tese: provando que surfista não era vagabundo, e que surf não era perigoso. A última cartada do meu pai: A prancha ou o Atari. Não tive dúvidas na escolha. Era linda a imagem do logo da “Fluid Energy” com os dois golfinhos. Remava e olhava pra eles. Isso foi o início.
Com o passar dos anos, o surf diário, naturalmente, evoluiu, as trocas de prancha vieram, e, assim os anos se passaram. Ainda em tempos de inflação, “precisava” encomendar uma nova, porém, para pagamento parcelado (que era o único que me era permitido). Corri algumas oficinas, eis que me indicaram quem? Armando Jaguary, da Fluid Energy.
Fomos na sua fábrica, eu e mais três da minha rua. Encomendamos nossos foguetes. Pois o Armando não cobrou os juros doídos do parcelamento. Bolei uma pintura e deixei com o Armando. Ao buscar a prancha, o desenho estava errado, mas a prancha era linda. Ele percebeu e falou: “O que houve Fabio, não era assim que tu queria?” Falei: “Não, mas não tem problema, posso ficar com essa mesmo”. E ele: “Não! Vou fazer outra pra você, essa pode deixar que eu vendo!” Insisti em ficar, mas ele não deixou.
Fez outra, exatamente com o desenho que eu queria. Para piorar o lado dele, foi a época em que as espumas de poliuretano começaram a dar problema. Afundavam e deixavam a manta solta. As pranchas de todos os meus amigos deram o defeito. Felizmente, a minha foi a única que não deu qualquer problema. O Armando trocou todas, fazendo pranchas novas para todos. Arcou com o prejuízo sozinho.
Quando se é “rato de oficina”, ou seja, frequentador assíduo das fábricas, para conversas, risadas, troca de ideias e aprendizado, percebe-se a realidade de que, o que determina o desempenho de uma prancha não é a grife, mas a qualidade do produto.
Há alguns anos, li numa revista americana, uma entrevista com o Matt Biolos da Lost Surfboards. O entrevistador perguntava como ele se sentia sendo um dos melhores shapers do mundo. E ele respondeu que era um dos melhores entre os que estão na mídia, pois não duvidava que existissem pelos litorais, caras com muitos anos de janela, com a mão tão boa quanto a dele.
Li ontem no Waves, que o Armando havia falecido. Na época, agradeci por tudo o que havia feito, mas não deu tempo de contar dessa forma, o quanto admirava sua habilidade de shaper, a qualidade de suas pranchas e o seu profissionalismo.
Reconhecimento a você Armando e sentimentos à sua família e amigos. Fica com Deus! O surf perde muito sem você.