Surf na Selva

Aberta temporada de pororoca

Sergio Laus encara o Araguari (AP) na abertura da temporada de pororoca. Foto: João Roni.

Começou! Não imaginava encontrar uma Pororoca daquele jeito. A primeira expedição para a Amazônia em 2008 foi na lua nova de janeiro, no rio Araguari, Amapá. Meu final de ano teve duas contagens regressivas: uma para a virada e outra para o surf na selva.

 

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No mês de janeiro as ondas costumam ser pequenas. É o início da temporada do Surf na Selva. As chuvas começam a ficar mais intensas e as marés ficam cada vez maiores com a proximidade do equinócio.

 

Desta vez fiz uma viagem relâmpago, porém muito bem aproveitada! Um dia de viagem de avião, mais um dia de viagem de barco e outro de surf intenso é igual a um saldo mais que positivo.

 

Surfar ondas de meio a 1,5 metros, liso, perfeito, com direitas e esquerdas, sessões rápidas e cavadas, lentas e cheias, ou até mesmo tubulares com vento terral. Parece um sonho, uma história de quadrinhos, mas é verdade!

 

Para os norte-americanos Kevin e Kemp, a pororoca é uma fábrica de sonhos. Somente uma palavra soava em suas cabeças: incrível. Antes de surfar o ?sonho de chocolate?, Kevin, Kemp e mais um grupo de japoneses e brasileiros, vivenciaram um caso de sobrevivência na selva.

 

Ribeirinhos, moradores das margens dos rios, estavam à captura de um jacaré açu, com pouco mais de três metros de comprimento. Perigo na região onde moram três famílias com muitas crianças. Além disso, para estas pessoas, a caça de animais selvagens é necessária para a subsistência.

 

Outro fato inusitado da expedição foi o aparecimento de três onças à margem esquerda do rio, local da Reserva Ambiental Lago do Piratuba. Poucas vezes tive a oportunidade de observar esses felinos. Geralmente escutamos o rugido junto com os macacos no interior da mata.

 

A adrenalina já estava grande, ainda mais quando a poucos minutos da maré chegar à margem, mostrava sinais de destruição. Esperava uma onda com no máximo 1 metro. Mas pelo balanço da embarcação ancorada no canal na noite anterior, me fez acreditar que a pororoca poderia surpreender neste início de temporada.

 

Não deu outra. O barulho ficava cada vez mais forte. Surge então uma direita imponente marchando no meio do rio Araguari.

 

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Sergio Laus e Kevin aproveitam a primeira pororoca do ano. Foto: João Roni.

Esperei alguns minutos para estudar sua trajetória, como e onde deveria pular da ?voadeira? para aproveitar o maior tempo possível na onda, já que estava sem jet-ski e o resgate seria mais demorado com as lanchas.

 

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Zeca, meu parceiro de longa data e o melhor piloto de pororoca, me avisou: ?Serginho, ela vai cruzar o rio e vai te jogar na margem?. Era o que precisa ouvir pra pular naquele turbulento rio.

 

O grupo observava quando dropei a direita, que ainda se definia na bancada de lama. Quando o paredão levantou por todo o rio, a onda ficou de sonho. Uma contagem infinita de cutbacks, snaps, floaters e re-entrys.

 

Depois de uns 18 minutos, Kevin pulou da lancha com a minha prancha reserva, uma 6?3 quadriquilha modelo El Quatro do shaper John Carper.

 

Naquela onda com sessões de 1,5 metros, esse equipamento era o melhor possível. Eu estava com o mesmo modelo de Kevin, porém era uma 5?10, que conectava todas as sessões de forma rápida e fluída.

 

Após 20 minutos surfando, a pororoca começou a nos arremessar em direcão a margem do rio, cheia de árvores derrubadas pelo fenômeno.

 

Observei então que vinha uma segunda onda, que corria para longe da margem. Não pensei duas vezes e saí no momento certo para surfar uma segunda, e depois a terceira onda por mais 5 minutos.

 

Exaustos após a primeira sessão de surf, a ?voadeira? nos resgatou para encarar mais uma jornada. A segunda sessão começou cedo. A onda formou um braço, que podia ser comparada à Nias (Indonésia). Ficamos malucos com aquela imagem, naquele momento uma chuva caía e nem arriscamos tirar os equipamentos da ?pelican case?.

 

Mais uma vez, esperei a onda quebrar por alguns minutos para identificar o seu potencial de extensão.

A pororoca realmente surpreendeu. A conexão da direita com a esquerda proporcionou mais uma queda animal, com sessões mais cavadas e rápidas. Kemp pegou a onda de sua vida e comemorou seu aniversário surfando na Amazônia.

 

Mas ainda não acabou! Depois de uns 20 minutos de onda, direita e esquerda, fomos resgatados para a terceira e última sessão.

 

A pororoca estava um pouco à frente de nós e quando se formou, o vento que começava a soprar mostrou o véu da onda mais longa do mundo. O vento terral deixou algumas partes da onda tubular. Era o fim que merecíamos, mais 13 minutos de diversão.

 

Agora é descansar as pernas e se preparar para a próxima lua.

 

Auera Auara

 

Agradecimentos Academia Gustavo Borges, Ogio, Goofy, JC Hawaii, ONG Maré Amazônia, Surfando na Selva, Governo do Estado do Amapá, Polícia Militar do Estado do Amapá, Escola de Mergulho da Amazônia, João Roni, Sebas, Sergio, Márcio Pinheiro, Zeca, Batatinha, River, Martinho, Bernardo Picorelli, Guga, Ana Carolina e Marié P. Laus.

 

 

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