Como é praxe em surf trips, as roubadas fazem parte do roteiro. O pior perrengue já vivido pelo fotógrafo Sebastian Rojas aconteceu em 2006 na Indonésia. Foi numa boat trip pela região, com quatro surfistas brasileiros, dois indonesianos e um peruano, entre 12 e 15 anos, e os chefes de equipe da Billabong Brasil e Peru, Zé Paulo e Magoo de La Rosa, respectivamente. Inicialmente a viagem seria para a ilha de Panaitan, oeste de Java, mas devido a um terremoto lá dias antes, a equipe resolveu partir para a ilha de Sumbawa. O barco era antigo e de madeira, com 60 pés e quatro potentes motores de popa (220 cavalos).
Partiram de Nusa Lembongan e logo foi servido o jantar, por volta das 9 horas da noite. Do nada, perto da ilha Nusa Penida, o barco todo se apagou. Depois de um barulho a luz de emergência foi acionada automaticamente. A causa foi uma pane elétrica e rapidamente a tripulação percebeu o inicio de um pequeno incêndio. Como tinham acabado de partir, o barco estava lotado de gasolina. “Estávamos sobre uma bomba e gasolina não se apaga no mar”, lembra Sebá. O bote salva-vidas ficava na parte traseira do barco, preso por um guincho e não havia tempo para soltá-lo. Zé Paulo chamou a garotada e avisou para pegarem suas pranchas e pular na água. A sorte é que eles tinham surfado naquele dia e cada um tinha pelo menos uma prancha no convés.
O restante das mais de 60 pranchas estava em capas, presas por cadeados na parte superior do barco. A tripulação também pulou. Os únicos que ficaram no barco foram Sebá e Magoo, que tinha três pranchas. Naquele momento Sebá pensou: “O que eu faço? Não adianta salvar meu equipamento, pois vai entrar água. Então peguei a maleta à prova d’água, que já tinha uma parte do equipamento que eu usara durante o dia. Pulei na água com Magoo e as três pranchas que restaram. Em uma delas coloquei o meu equipamento. Estava muito escuro, não conseguíamos avistar ninguém. Eu ouvia as vozes dos meninos me chamando. No trajeto, eu e Magoo olhávamos para trás e quase choramos. Estávamos a cerca de um quilômetro da costa. No ímpeto jornalístico, cheguei a tirar uma foto do barco pegando fogo, que foi publicada mais tarde pela FLUIR.”
Os integrantes da embarcação estavam perdendo tudo o que tinham (malas de roupas, documentos, dinheiro, pranchas, etc).
Muitos garotos estavam viajando pela primeira vez. Pela relativa proximidade da costa, eles conseguiram se guiar por um pequeno ponto de luz na estrada que costeia a ilha. Cada um por si, no meio da escuridão, tentava chegar à areia. “Quando cheguei no meio do caminho vi três pessoas da tripulação se segurando em uma mesma prancha. Um outro estava sem nada, pedindo pelo amor de Deus que eu salvasse sua vida. Dei a prancha que carregava meu equipamento e coloquei a maleta nas minhas costas. Ao mesmo tempo os garotos pensavam que eu tinha morrido naquela labareda de fogo e ainda chamavam meu nome.”
A sorte foi que eles estavam numa região sem ondas, a apenas meia hora de seu destino final, o canal de Lombok, repleto de correntezas violentas, lotado de tubarões e com uma profundidade enorme. “Se o acidente tivesse ocorrido no canal de Lombok todos nós teríamos morrido”, sentencia Sebá. Quando chegaram à areia a visão do barco em chamas foi angustiante. Todos molhados, com apenas uma prancha debaixo do braço, correram para pista e esperaram passar um carro. Quando alguém parou, um indonesiano da tripulação explicou tudo e conseguiu chamar uma van para levá-los à delegacia local. No dia seguinte, voltaram para Bali e foram ao consulado brasileiro. O cônsul disse que não conseguiria os documentos em menos de quinze dias, mas a turma estava traumatizada, querendo voltar para casa. Os garotos choravam o dia todo, até que Sebá falou:
“Não há nada que um bom dia de surf não cure. Vamos esquecer toda essa história e surfar! Está entrando um swell maravilhoso. Por que vamos ficar nos lamentando?”. Sebá pegou emprestado o equipamento do colega fotógrafo Fred Pompermayer para clicar a molecada em Padang, que estava clássico. Eles foram até a loja da Bilabong, pegaram roupas e acessórios e ficaram mais quinze dias surfando pelo país. “Foi uma experiência marcante. Hoje, quando entro num barco, checo tudo. Vejo a parte elétrica e o estado em geral. Acidentes acontecem, e temos que tentar evitá-los ou ter calma e lucidez para salvar vidas.”
Depoimento concedido a reporter da revista Fluir, Elaine Gutgold e publicado na ediçao 300 na materia XXXXX.