Leitura de Onda

A volta perfeita

 

 

Gabriel Medina durante o Lowers Pro 2012, Trestles, Califórnia. O surfista emenda uma manobra à outra até dar uma volta completa, na cabeça de quem assiste. Foto: Marcio Canavarro.

Ayrton Senna renasce para os brasileiros a cada 1º de maio. No feriado do trabalhador de 1994, herói emocional de uma nação morreu em Ímola, mas seu legado sobreviverá para sempre. A data é simbólica ainda por ele ter ajudado muita gente a perceber que a paixão é, sim, um ingrediente fundamental do trabalho bem feito.

 

Certa vez, numa entrevista a uma emissora estrangeira, ele falou de como conciliava seus instintos à flor da pele com a vida no limite de um piloto campeão. “Somos feitos de emoções, procuramos as emoções. Só temos que encontrar uma maneira vivê-las.”

 

Ao jogar toda a carga sensorial no esporte, Senna atingiu um patamar mágico, como se homem e máquina fossem uma coisa só, numa sintonia que não é ensinada nas escolas de pilotagem espalhadas pelo mundo.

 

Essa conexão o levou a performances próximas da perfeição, como a memorável volta inicial de Donington Park, em 1993, em que ele ultrapassou quatro carros para assumir a ponta, com um carro inferior a seus adversários.

 

Pois voltas perfeitas, ou melhor, sessões de surf perfeitas, também estão ao alcance do surfista. Todo amador tem chance de sentir, pelo menos uma vez na vida, que ele, a prancha e a onda são uma coisa só, de sentir a sensação harmoniosa de estar num ambiente indivisível. 

 

Mas nem todo profissional consegue reproduzir essa conexão, pressionado por adversários, por patrocinadores e pela mídia, no exíguo espaço de tempo de uma bateria. Conciliar a técnica com todos os canais sensoriais é uma tarefa difícil de ser alcançada no surfe. O sujeito tem que ter pronto dentro de si uma mistura de dedicação, desprendimento e concentração.

 

Gabriel Medina às vezes parece ser um desses atletas que dependem da sintonia sensorial para vencer provas. Nesta semana, no Prime de Trestles, depois de algumas apresentações apagadas no início do ano, ele voltou a assombrar o mundo do surf. Numa bateria das fases iniciais, somou pontuação superior a 19 pontos, descartando notas altas. 

 

Quando dá certo, o modelo de ataque de Medina é sempre muito parecido. Ele pega muitas ondas e, de repente, começa a encaixar uma onda extraordinária atrás da outra, como se o mar estivesse esperando o seu retorno ao outside para descarregar as melhores séries.

 

Vários surfistas – provavelmente todos no tour – já experimentaram essa sintonia fina entre os elementos. Mas poucos conseguem se programar para repetir esse modelo com frequência. 

 

No fim, por mais que estejam nos holofotes, sejam julgados por juízes profissionais e pelo mercado, muitas vezes o campeão do mundo é aquele que consegue, com assiduidade, recuperar a original relação mágica entre o homem, a prancha e o mar.  

 

Tulio Brandão é jornalista, colunista do site Waves e autor do blog Surfe Deluxe. Trabalhou nove anos no Globo como setorista de meio ambiente e outros três anos no Jornal do Brasil, onde cobriu surf e outros esportes de prancha. Atuou ainda como gerente de Sustentabilidade da Approach Comunicação. Na redação, ganhou dois prêmios Esso, um Grande Prêmio CNT e um Prêmio Abrelpe.


 

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