Pipeline, North Shore, Oahu, Hawaii. O elemento água é a fonte de fascínio dos surfistas. Foto: Aleko.

Surfista cearense, Antônio José Vasconcelos Araújo é especialista em Acupuntura e desenvolve trabalho de relaxamento e reabilitação utilizando a água como recurso terapêutico – ?Terapia na Água?. No artigo publicado abaixo, Vasconcelos reflete sobre a importância do elemento água no universo físico e mental do surfista.

 

É estreita a ligação entre água e vida. Os povos sempre procuram erguer as casas nas proximidades das fontes de água e iniciando uma abordagem histórica das civilizações antigas, pode-se apreciar a importância dada ao elemento água, que adquire caráter sagrado, dádiva de deuses, um bem divino do qual obtinha-se a vida.

 

Os latinos localizavam em seus mares um deus idêntico chamado Poseidon. Com seu tridente, o ?Senhor das Águas? podia fazer tremer a terra, secar as fontes e fazer águas voltarem a jorrar em outro lugar.
  
As sereias teriam habitado as águas do mar da Sicília. Tinham uma voz de poderosa sedução e o canto era tão suave e melodioso que nenhum mortal poderia ouvir sem que se atirassem às águas para se juntar a ela.

 

Na mitologia brasileira, existe a Iara ou Uiara, ?mãe das águas?. Segundo lendas indígenas, esta mulher vivia nas margens dos lugarejos, nas bordas dos lagos, de onde seduziam os tapuios, encontrando-os e arrastando-os para o fundo das águas.

 

Para os surfistas, Netuno é o grande mensageiro que traz, através das ondas, toda sua magia e influencia o estilo de vida de várias pessoas.

 

A tradição diz que o surf nasceu nas ilhas do Hawaii. E que no início, apenas nobres praticavam. E só mais tarde tornou-se mais popular entre nativos.

 

Outros afirmam que o surf nasceu no Tahiti. Existe também a possibilidade de que o surf tenha surgido entre os pescadores peruanos que, quando voltavam ao vilarejo, surfavam as ondas na entrada da baía, em seus barcos especiais, os caballitos de totora.

 

Assim como na mitologia brasileira existe a Iara, na comunidade do surf existe a ?rainha?, aquela onda perfeita que faz a magia do surf e alimenta cada surfista quando desliza e interage sobre ela.

 

Enfim, o importante é perceber que o elemento água faz parte do dia-a-dia do ser humano e que um interfere no outro numa relação contínua e complementar, semelhante à relação estabelecida na Medicina Tradicional Chinesa entre o Yin e o Yang.

 

A água, vista de alguns ângulos, exerce uma influência considerável no mundo e principalmente no homem. Paralelamente ao lado físico, a água atinge no homem níveis muito profundos dos quais na maioria das vezes não está na consciência.

 

O espiritual, o emocional e o psicológico fazem parte deste lado ?mágico?.

 

?O princípio masculino é representado pelo movimento, pela correnteza, o feminino pela passividade, pelo brotar do solo, pelo remanso. Portanto, a água possui duplo poder, tanto masculino como feminino”. (LIEBMANN, 1976, pg. 38)

 

Este aspecto complementar masculino-feminino observado no elemento água é um dos indicativos de sua similaridade da Filosofia Taoísta com o surf, sendo muitas vezes representado pelo oceano como masculino e a onda como feminino; pelo swell como masculino e a ondulação como feminino, pela onda como feminino e o tubo como masculino. E é nesse processo contínuo de complementaridade, que reside um dos princípios mais importantes deste tipo de filosofia ?o princípio do yin-yang?.

 

Na Medicina Chinesa o elemento água é representado pelas funções do Rim (Shen) e Bexiga (panguang). O rim tem a função de armazenar a essência; acalmar a mente, equilibrar o ?fogo do coração?, dentre outras. O rim é a fonte de todo yang e yin do corpo, daí ser denominado como a ?raíz da vida?.

 

Assim como na Medicina Chinesa, o surf também nutre a essência, acalma a mente, equilibra o ?fogo do coração? e proporciona ao surfista uma sensação muitas vezes indescritível de prazer e bem estar. 

 

A água está para a vida assim como para o surf, pois sem ela ambos não existiriam.

A palavra ?energia? implica por definição em atividade, movimento, vitalidade, entre outros. A energia é parte de todos os elementos que compõem nossa existência, animados ou inanimados.

 

No surf, a energia dos swells gera uma outra energia chamada de onda, que percorre um caminho longo para alimentar energeticamente cada surfista que flui sobre a mesma, trazendo um sentimento de realização e bem-estar.

 

Essa interação homem x natureza flui através da interação de muitos fatores naturais tais como: o vento, a direção da ondulação, o período, o clima, bem como a combinação de fatores emocionais que tem como relevância o estilo de vida e a  compreensão de tudo isso pelo surfista na busca do fluir em equilíbrio sobre as ondas.
No Oriente essa energia básica que mantém o ser vivo é chamada de Qi (energia vital). O Qi não é um conceito místico ou filosófico e o fato de normalmente não percebermos, não quer dizer que ele não exista.

 

Os cães ouvem ruídos inaudíveis ao ser humano. O ouvido treinado do músico capta nuances sonoras que o leigo jamais percebe. O surfista percebe uma onda aproximando e sente uma combinação de euforia e bem-estar após uma bela onda surfada. Enfim o Qi não se acredita, o Qi se sente. O Qi é a energia que nos mantém vivo.

 

Baseado nesse sentir é que percebemos inúmeras frases que tentam descrever  os benefícios do surf tais como: ?Não há nada que um bom dia de surf não cure?; ?… pratico o surf como terapia?; ?o surf me alimenta, ?preciso surfar para pensar melhor? etc.

 

Uma das marcantes emoções vividas pelos surfistas é a característica de  desenvolver suas potencialidades, habilidades no surf e através dele, nutrir  a si mesmos, por meio da  relação harmônica entre o homem e a natureza, ou seja o surf estimula o auto-conhecimento.

 

O universo em sua totalidade é representado pela sua réplica chamado ser humano e não é à toa que o planeta Terra, assim como o corpo humano, é constituído em sua maior parte de água e nessa interação constante entre homem x natureza é que se restabelece o equilíbrio físico, psíquico e energético. Vamos surfar mais para  viver melhor!

 

 

Michelle des Bouillons desceu uma onda de quase 25 metros em Nazaré e pode entrar para a história como a mulher que surfou a maior de todos os tempos. Em entrevista exclusiva ao Waves, ela conta como chegou até aqui.

De Bells Beach a Raglan, Brasil vive quatro etapas de domínio histórico: vitórias, finais, nota 10 e os quatro primeiros do ranking mundial com a mesma bandeira.

Mais de cinquenta anos de câmera na mão: do Píer de Ipanema a Pipeline com Gerry Lopez, de Bob Marley no Havaí aos Rolling Stones no Maracanã. Fernando “Fedoca” Lima viveu e fotografou tudo isso. Agora reúne tudo em um livro.

Maior onda já surfada por uma mulher no Brasil é registrada por Michaela Fregonese durante swell histórico em Jaguaruna (SC)