Tibet – Parte I
Uma vontade de viajar absurda me assaltou durante a noite. Uma compulsão santa, se é que isso existe. Sair, sartar fora. Alcançar um horizonte é como se alimentar, dormir ou fazer sexo. Sacia por algumas horas, e logo você tem a necessidade de buscar mais, outros, diferentes: vitaminas, sonhos e auras que o alimentem, que lhe dêem a ilusão da necessidade, revigorem a mística do “precisar”, como diria o Peregrino. “Nada me faltará”, como diz a Bíblia. Não importa a fome que eu vou sentir depois, importa a fome que eu vou saciar agora. Comecei a fuçar o mapa-múndi. Vários lugares pareciam apetitosos. Quem sabe eu não acabaria encontrando com o Peregrino em alguma quebrada do mundão? Eu não recebia uma mísera cartinha há anos, e até achei que ele tinha morrido. De repente: BUM! Uma delas na caixa do correio! Ao vê-la, a princípio duvidei, depois pensei que se o encontrasse numa estrada deserta provavelmente não o reconheceria, ele já deve estar no estágio em que nada mais é necessário. Deve ser capaz de reconhecer internamente todos os alimentos, seres, descansos, sexos, visões, horizontes, desejos, futuros e até ar. Nesse estágio, eu imagino, o exterior torna-se obsoleto, descartável. Tudo se completa no eu interno e pronto! Eu imagino o que ele diria: “Tudo já existe e sempre existiu, o Homem se torna Ser.”. Rasguei o envelope da carta que eu tinha deixado de molho durante quase uma semana, sem coragem de abrir. Não queria me confrontar com a minha própria limitação. Não pude conter certa raiva já repetitiva no ato de reencontrá-lo através do papel. Eu sei: é uma clara e reiterada inveja dele e do seu estilo de vida, da sua evolução. Pior: da sua liberdade. Depois de tanto tempo ele deve estar cada vez mais livre. Sentindo-me meio culpado por ter tido esses sentimentos, mas muito curioso e ainda sem forças para mudar a minha própria postura a respeito, li:
“A alma do Homem é a matéria-prima do universo? Quando mais rarefeito o ar das montanhas que buscarei depois de Nova Delhi mais os sentimentos irão se sobrepor aos pensamentos. Ainda não cheguei à cidade, mas algo em mim já está lá. O raciocínio perde espaço, o coração avança. Todos nós estamos criando o universo o tempo todo – e não é brincadeira! Cada dor uma raiz, cada amor um luz no firmamento. Para onde irei agora? O horizonte é Deus na sua forma de espaço. Uma linha. Um fio de trapézio onde o mundo se equilibra. Seguir. Seguí-lo. Os ventos quentes fazem o suor ressecar assim que nasce, e antes de escorrer. O meu rosto se fecha e percebe melhor o mundo. Essa trilha indiana poeirenta parece que nunca viu água. Algo que sempre fez parte do nosso ser, mas que no momento em que viemos a habi tar um corpo, começa a fazer parte também de uma realidade exterior a ser compreendida, vai se revelando. É a matéria-prima do desafio de quem é agora também matéria. Olha nos olhos dos passantes. Eles me parecem ricos de espírito, não sei porque, embora suas vestes sejam paupérrimas. Trapos sujos, sandálias esgarçadas, vitalidade na miséria, unhas pretas. Sempre a contradição me atiçando. A dificuldade habitual de um semelhante reconhecer um semelhante. O sol vinha acompanhando os meus pensamentos, aquecendo-os, ao mesmo tempo em que fritava na hora os que saíam inconsistentes. A sombra de um desses pensamentos efêmeros passou rapidamente pelo meu olhar e tentou fugir para baixo de um arbusto antes de virar fumaça.
Depois de várias horas, já à tardinha, dobrei os joelhos repentinamente, vi tudo ao meu redor rodopiar, respirei em profundidade e juntei as mãos na frente do peito como se quisesse segurar o coração. Caí ali mesmo e acabei dormindo embaixo de uma árvore frondosa o suficiente para esconder o céu. Suas folhas caíam lentamente dentro dos meus sonhos, sempre as folhas… Sonhei com a clausura de um mosteiro, com as montanhas intermináveis, com as cavernas isoladas do mundo, com as lentas caravanas serpenteando pelas trilhas e deixando suas marcas no tempo, com as vítimas da falta de oxigênio e do excesso de vaidade, com os ia ques resistentes e com os homens frágeis, com o Tibet, com o Livro Tibetano dos Mortos, onde se ensina, entre tantas outras maravilhas, como se conduz um ser humano que vai morrer ao outro lado, com o maior cuidado e carinho possível. A trilha da morte serena. De como o cuidado com a alma que se vai, ignorante do seu destino, atenua o choque do desconhecido e salva a todos nós, resgatando-nos da separação. Como os mântras são importantes para sintonizar o indivíduo com o cosmo e fazer esmorecer e suavizar as arestas pontiagudas e dolorosas da passagem para o reino dos mortos. Como se faz para aplainar com amor a estreita estrada que leva ao desconhecido. Como se detecta o som de cada um, a voz não-dita de quem sofre. Sonhei que sabia, e que nunca mais iria esquecer. Sonhei que a compaixão oferecida a alguém é o perdão que doamos a nós mesmos. Sonhei e não acordei. O sonho tornou-se o eu que caminha pela realidade. A união dos dois mundos.
Eu iria chegar às montanhas em alguns meses. Elas já existiam dentro de mim, no entanto. Podia ver seus contornos, ouvir o uivar contínuo e cortante dos ventos gelados viajando pelos paredões verticais, os gritos sem começo das aves de rapina ecoando no futuro e penetrando, habitando e criando ninhos na nossa memória. Aquele futuro que eu presenciava ao fechar os olhos já existia na realidade, só me faltava colocar o pé dentro dele.
Existe uma narrativa preciosa dentro de cada um. Uma história que nos acompanha desde sempre. Não importa se é oriunda da luz ou se é mãe da escuridão, se te leva para o céu ou para inferno. É o enredo que traduz uma necessidade premente da alma, o fio condutor que permeia toda a nossa existência. Os rostos em volta me observavam mais do que de costume, como se lessem meus pensamentos., compartilhassem meu desassossego. A narrativa interna não tem começo visível nem fim previsto, segue a lei dos aprendizados, a rota da evolução, à qual nenhum espírito pode escapar. Depois de cada desafio há sempre um desafio maior. Há que enfrentar, resolver e seguir. Cada um deles prepara o espírito para o próximo. Não há rota de fuga para a vida. Nem mesmo a morte tem esse poder.”
Sidney Tenucci Jr é diretor de marketing da OP Ocean Pacific. Escreveu o livro Almaquatica ( FNAC), em parceria com o fotógrafo Klaus Mitteldorf e o designer gráfico David Carson; e O Surfista Peregrino I (Livraria Cultura). Sua próxima publicação, Pontes de Amor”, – 70 poemas ilustrados por 55 artistas plásticos -, será lançado brevemente. Viajou por 52 países, centenas de amizades e por outros tantos sentimentos que não exigiram passaporte.