No fim de fevereiro, o free surfer e designer Rodolfo Barcellos, conhecido como “Dodo”, levou um grande susto em Pichilemu, Sul do Chile.
Gaúcho residente em Itacaré, Dodo foi ao litoral chileno em busca de boas ondas e encarou o forte tsunami que causou uma grande destruição no Chile.
“Foi a minha terceira surf trip para o Chile e até imaginava que isto poderia um dia rolar comigo, mas não com tanta intensidade. Estava dormindo na casa de uma família local em Punta Lobos no momento do terremoto, que foi exatamente às 3:34 horas da madrugada”, conta Dodo.
“Durou quase três minutos e foi algo inacreditável. Era como se houvesse ondas no solo do lado de fora da casa. Antes de sair da casa, com o pouco que conhecia de sobrevivência em terremotos, fiquei debaixo da porta, achando que estava
sonhando e vendo a casinha bailando pra lá e pra cá, cano estourado, água por todos os lados, sem luz, praticamente tudo quebrado pela casa. Tinha medo de a casa desabar e teto cair sobre nós”, continua o free surfer.
“Até aí, tudo beleza, tremedeira punk, tudo quebrado e tudo ficou tranquilo. Quando saí, vi muitas rachaduras nas ruas, no solo, só aí me toquei de que não estava dormindo, e que isso não era um sonho. A lua estava linda e cheia, creio que era um sinal (com certeza era um sinal) para que todos pudessem ver o que iria ocorrer e tivessem tempo para escapar”, relata Dodo.
“Logo veio um longo silêncio (nesse momento muita gente já havia morrido sob os escombros em cidades maiores e com prédios), subi numa parte alta da casa e lá eu vi algo tremendamente assustador e já nesse momento percebi a merda que iria rolar. Como a lua estava cheia, tudo estava muito claro e nítido de se ver. Era simplesmente todo Oceano Pacífico recuando de maneira muito rápida, até que “Los Morros” ficaram completamente à vista, junto com toda bancada onde rola a famosa esquerda. Eu não tirava o olho, pois ainda não estava acreditando no que estava rolando: espumas brancas de mais de 6 metros com muita força e violência. A ficha caiu quando vi todo oceano novamente indo de Sul a Norte como um rio – rápido, impiedoso e avisando ‘eu vou chegar'”, conta Dodo.
“Desci do muro, peguei o passaporte, água e um monte de porcaria e gritei para a senhora ‘Paulina’, mãe solteira com três crianças (estava hospedado em sua casa) que estava vindo uma onda e que teríamos que sair rápido para uma parte alta da região, pois o bicho ia pegar.. Ela não botou fé e ficou limpando sua casa. Querendo ajudar sua família, peguei todos pelo braço e gritando pressionei todos a entrarem no carro para irmos embora dali”.
“Até aí, tudo beleza, eu “tranquilo” e sabendo o que tinha de ser feito, mas na hora de sair com o carro, a senhora que estava dirigindo, em um ato suicida, desceu de carro até a frente da praia para ver (?!) o que estava ocorrendo e ver como estava sua irmã. Já nesse momento não pude fazer nada. A série entrou com tudo e quando fomos baixando o carro, ela (que não vê direitinho) não viu a água e a primeira série já havia quebrado antes que percebêssemos. Eu falava e gritava que havia água no local. Ela não me escutou. Tudo estava uma piscina e ela simplesmente lançou o carro na água justamente quando a primeira onda estava recuando. Carro afundando, maré vazando, pânico total, gritaria. Todos saindo pela janela do carro antes que o carro afundasse”.
##
“O detalhe foi que antes de tudo isso, o pai da senhora, com outros três membros da família, havia acabado de cometer o mesmo erro e todos foram pegos pela onda e ficaram presos e afundando no carro. A onda explodiu com tudo sobre eles e ficaram muito tempo debaixo da água e afundando aos pouquinhos. A sorte foi que uma janela do carro era elétrica e funcionou. Depois da maior vaca da vida, todos saíram por uma janela que foi aberta pela mão de Deus. Nadamos todos para uma parte mais alta e eu saí (pirado com todos e com toda a merda que foi feita) direto para uma duna, em frente à praia, bem no meio do inferno todo e com uma friaca enorme. Olhei para o mar para ver se vinha outra série – graças a Deus não veio – e nesse período nos salvamos todos, correndo como loucos pra tudo que é lado”.
“Na verdade, o que salvou a todos e toda a propriedade da família foi um pedacinho de duna de mais ou menos 300
metros de largura e 5 de altura que agiu como uma barreira natural e absorveu o impacto das ondas. Também fez com que o mar, quando estava recuando para vir outra bomba, não permitisse que os dois carros voltassem para o oceano, onde com certeza não teríamos chance alguma. Bom, passado esse terror, mais uma vez obriguei a todos para irmos para um ‘cerro’ próximo de onde estávamos, agora já sem nada do que tínhamos separado para a retirada. Lá foi toda a família e mais alguns surfistas que encontramos no caminho. Chegamos à casa de Ramon Navarro, surfista local, e sua mulher Paloma (que está grávida de 9 meses). Eles nos receberam muito bem com fogueira e comida. Lá estavam Diego Medina e sua família, outros surfistas locais, pessoas desesperadas com filhos e outros procurando abrigo”.
“A sorte foi que Alemão de Maresias, que estava com sua família e seu baby nesta mesma casa onde rolou tudo isso, tinha viajado para o Brasil dois ou três dias antes da tragédia. Bom, pelo menos deu tempo de surfar um mar perfeito e com bom tamanho dias antes de vir a bomba no dia 27”, diz Dodo.
“Mais ao Sul, nos picos de Curanipe, Buchupureu, Pujjay e outros secrets, não restou nada. Tudo foi devastado pela onda que nesta região atingiu sua força máxima, e a posição das praias também não ajudou. Muitas pessoas perderam suas vidas, pois estavam acampando ou muito próximas à praia. O que não entendo é como grande parte da população chilena não está preparada para situações como essa, na verdade não estão bem informados. A maioria das pessoas que morreram em decorrência do tsunami foi por ficarem ‘observando’ ou ‘apreciando’ o que estava por vir ou não acreditavam que poderia vir um tsunami. Assim, foram pegos de surpresa, pois quando ela chega não dá mais tempo de correr e viaja a centenas de quilômetros por hora”, diz o free surfer.
“Eu perdi muitas coisas, menos as pranchas, que ficaram ali quietinhas. Permaneci ajudando a comunidade de Punta Lobos, aguardando o momento certo para ir ao Brasil e esperando por um swell grande para ver como vai se comportar o pico de Punta Lobos e descer logo uma boa para tirar a zica. A formação da onda parece que mudou bastante, entrando mais de Norte e quebrando muito mais próxima às pedras. Rezamos para que não tenho deformado muito a bancada, que agora parece estar bem mais alta. Muitas pedras que antes não haviam, agora estão para fora da bancada, prejudicando algumas seções”, comenta.
“Neste momento temos que respeitar a Mãe Natureza, deixá-la fazer a sua parte, aprender com seus movimentos, não construir casas muito próximas ao mar, não destruir as dunas, não ficar apreciando uma coisa que é para sair correndo. Tsunami, terremotos, maremotos, ciclones, ventanias e outros fenômenos sempre existiram e sempre vão existir. Nós, humanos, é que temos que nos adaptar a essas situações e não buscar culpados, ajudar os que perderam tudo, principalmente os pescadore. Agradecermos pela vida, pelo surf, pela família e por fazer parte desse lindo planeta”, fala Dodo.
“Cultivem pensamentos e atitudes saudáveis e ajudem os outros. Rezem por todos e para que a natureza encontre seu equilibrio novamente. Abraço a família do Sul e a família surf da Bahia, família Luisfer, Lawrence, Sra. Paulina, Mama Ruth, Tony`s e cia., e a todos que demonstraram carinho. Aloha”, conclui o gaúcho residente em Itacaré.