Surf seco

A moda dos ciclones

O surf  é um esporte totalmente diferente dos outros. A curtição transcende o simples ato de deslizar sobre as ondas. O fascínio e respeito pelo mar fazem parte da experiência “surf” como um todo. Observando o cenário, além dos que fisicamente praticam o esporte, outros, só de acompanhar, se identificam ao ficar na praia, observando.

 

Quando eu pegava as ondas e passava a maior parte do dia no outside, muitas ondas que quebravam e muitas surfadas pelos outros eu nem via. Hoje, quando estou na praia, viajo em todas as ondas que quebram na minha frente.

 

Analisar é uma outra forma de  participar e minha antiga tarefa de competir e passar as baterias foi trocada pela locução e comentários que faço atualmente. As coisas mudam, mas o show nunca termina. No último swell de ciclone (palavra altamente “fashion”) que rolou em Maresias, aconteceu paulista amador. O swell de sul deixou as ondas de Maresias gigantes, com uns três metros para mais, ainda com vento sul/sudoeste maral, batendo um pouquinho de lado no domingo, para dificultar ainda mais o trabalho dos competidores no dia das finais.

 

Todo mundo sabe que neste mundialmente famoso beach-break não tem canal para varar. Naquela situação do mar enorme e as baterias acontecendo, quem esteve na praia, digo por experiência própria, sentiu uma adrenalina só de estar perto daqueles quebra-côcos poderosos.

 

Eu sentado na minha “cadeira anfíbia”, embaixo de uma barraca na praia, participando da locução, fui lavado duas vezes quando a maré encheu. A água me pegou em cheio, molhou as pernas, calça, meias e almofadinha que fico pisando, além de zoar o fio da extensão do microfone. Isso por duas vezes. Acabaram com  as minhas roupas secas. Fiquei “survival”.

 

O frio do hemisfério sul de inverno estava congelando os ossos de quem se molhou, no caso foram os meus ossos que viraram picolé, até o campeonato terminar, às 15 horas. A violência das ondas ficou registrada na memória de alguns que estavam presentes, como em alguns raros campeonatos que já aconteceram antes e que coincidiram com o dia exato do pico do algum swell ciclônico.

 

Mando meus parabéns aos competidores que desafiaram aquelas morras, em especial Amaro Matos, que pegou as maiores, Adriano “Alemão” Melo, Almir Salazar, Ricardo Toledo e Jahia Bettero, que conseguiram extrair “leite das pedras” e vencer um campeonato em suas categorias naquelas condições difíceis.

 

A fúria do inverno, nessa atual moda “ciclônica”, está chegando. Sempre no mês de maio bombam vários swells e frentes frias intensas para depois acalmar. Neste ano parece que será diferente. Arrisco dizer que o inverno vai ser rigoroso e estes ciclones que viraram a última palavra da moda vão continuar desfilando pelas costas sul/sudeste brasileira.

 

Obs: Eu penso hoje que o Roberto Valério foi um gênio, porque enxergou e criou a marca Ciclone nos anos 80 e hoje este nome veio a explodir. Deixo aqui minhas boas vibrações para o velho amigo. Aloha!

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