Dadá Figueiredo

A luz no fim do tubo

Nos últimos 20 anos o surfe brasileiro sofreu uma evolução marcante, não apenas no âmbito técnico, mas também no comportamento dos surfistas diante da cultura do esporte. Alguns tiveram papel importante nessa transição, que representou uma ruptura no padrão até então conhecido.

 

O carioca Dadá Figueiredo foi um daqueles surfistas. No auge da carreira, suas batidas e rasgadas representavam o estado de arte atingido pelo surfe brasileiro no final da década de 80.

 

Dadá foi provavelmente o surfista mais radical de sua geração e figurou em diversas capas de revistas da época. Porém, o comportamento radical dentro da água acabou refletindo também fora dela. Só que negativamente.

 

Dono de forte personalidade, ele trilhou um caminho próprio e construiu uma tendência de comportamento que pode ser considerada como os primórdios do “bad boy”, e acabou virando referência para os rebeldes. Além disso, obteve destaque nacional nas competições e inclusive criou duas promissoras marcas de surfwear, Necrose Social e Antifashion, além de uma banda punk, Os Normais, junto com o skatista Lúcio Flávio e Maurício Bochecha, da atual diretoria da ABRASP (Associação Brasileira de Surf Profissional).

 

Ele virou ícone de uma geração que adotou seu estilo como uma forma de atitude. Mas, às vezes, ele pegava pesado. Em diversas ocasiões, durante premiações de campeonato, ele pegava o microfone para gritar palavras de ordem anarquista e cuspir, literalmente, no público. Por trás, os maiores inimigos desse talentoso atleta: o álcool e as drogas.

 

Deslumbrado pela vida de “surf star”, Dadá deixou-se levar pela onda das drogas e isso acabou afetando sua careira. “Eu virava a noite anterior a uma bateria cheirando e bebendo”, lembra. “Naquela época, os campeonatos duravam de quatro a cinco dias e eu nunca agüentava ficar mais de três dias sem beber”, conta o surfista.

 

“Quando chegava na sexta-feira, momento das baterias decisivas, eu acabava caindo na noite. Na hora da bateria, eu havia dormido um punhado de horas e, obviamente, acabava perdendo”, reconhece Dada, que poderia ter sido um dos maiores nomes do surfe brasileiro e mundial, e jogou tudo fora devido à dependência química.

 

Outros surfistas profissionais, colegas de Dadá naquela época, como Jojó de Olivença e Tadeu Pereira, ambos evangélicos, tentavam tirar o atleta do fundo do poço. “Muitas vezes eles oravam por mim e tentavam me levar para uma igreja evangélica, mas eu sempre resisti. Com o tempo fui tomando contato com a religião evangélica também através dos Surfistas de Cristo e com o pessoal da Superglass, mas ainda assim não havia me identificado muito com esse negócio de religião”, lembra Dadá.

 

Os anos se passavam e Dadá continuava lutando contra a dependência química, tendo feito diversas terapias que não resolveram seu problema. Porém, há cinco anos o surfista encontrou um caminho numa igreja evangélica e passou a freqüentá-la. Lá conseguiu o apoio emocional que precisava para vencer seu pior inimigo.

 

Sua carreira profissional já havia acabado e ele encontrava-se no típico dilema dos atletas em fim de carreira na busca de um futuro melhor. Os brasileiros já haviam tomado de assalto o WCT e uma nova geração reinava no surfe brasileiro.

 

Dadá precisava se estabilizar, encontrar uma garantia de vida maior do que a premiação de circuitos Master de surfe, mas ele não possuía capital, apenas a reputação de ter sido um dos melhores surfistas que o Brasil conheceu. A única coisa que realmente sabia fazer era surfar.

 

Foi quando a igreja que ele freqüentava já havia dois anos lhe deu o tão sonhado capital que precisava. “Decidimos ajudar Dadá Figueiredo a montar sua escolinha de surfe porque percebemos nele uma visível melhoria de comportamento. Percebemos que sua atitude havia melhorado a olhos vistos, não só como pessoa, mas também com relação às outras pessoas”, lembra o Bispo Francisco, autoridade máxima da igreja Sara Nossa Terra no Rio de Janeiro.
 
“O contato com o mar e com as ondas faz do surfista uma pessoal especial. Porém, o surfista vive pela onda, mas esquece do criador da onda. Quando estiver conectado com Deus, terá uma onda além da onda”, ensina o bispo, cuja igreja evangélica, em São Paulo, foi a mesma que tirou Rodolfo, ex-vocalista da banda Raimundos, do inferno das drogas.

 

“O bispo Francisco me deu cinco pranchas e uma placa”, recorda Dadá ao lado de Renata, sua esposa, com quem é casado há cinco anos. Passados 10 meses o bispo daria mais cinco pranchas para a escolinha de surfe de Dadá Figueiredo, na Barra da Tijuca.
 
Esse capital inicial foi o suficiente para o atleta desenvolver um negócio que hoje emprega 12 professores e possui 300 alunos. “Devo esse sucesso à oportunidade que o bispo me deu e à disciplina que a religião evangélica me trouxe. Ela mudou minha vida”, testemunha Dadá, que tem um filho e duas filhas. “Aprendi a ter um relacionamento com Cristo e com os valores que ele prega. Jesus é a luz no fim do tubo”, filosofa.
 
Além de Dadá, diversos surfistas cariocas freqüentam a igreja Sara Nossa Terra. Num culto é possível encontrar o diácono Juca, por exemplo, vice-presidente da Associação de Surfe da Prainha e assíduo freqüentador dos melhores dias no pico.

 

Juca também conheceu de perto o inferno das drogas. “Cheguei a roubar toca fitas para poder cheirar, estava quase me separando da minha mulher e havia pensado até em suicídio. Na época, minha mulher me levou na Sara Nossa Terra e acabei salvando minha vida”, conta Juca, hoje um bem-sucedido representante comercial.

 

Essa ligação com a Prainha possibilitou que Juca tentasse levar a palavra evangélica para a galera do pico. O próprio Bispo Francisco, o mesmo que bancou a fundação da escola de surfe do Dadá, pregou duas vezes para a galera na Prainha e ainda tentou aprender a pegar onda. “Tomei dois caixotes que estou tirando areia do calção até hoje”, brinca o bispo, que reconhece no surfe uma excelente possibilidade de se aproximar da comunidade jovem carioca.

 

Outra figura conhecida que está sempre nos cultos da Sara é o Pedrão, do Quiosque do Barba, na mesma Prainha. É impossível surfar no Rio e não conhecê-lo. Ele foi levado para a Sara através do Juca. “Foi a melhor coisa que ele podia ter feito por mim”, lembra Pedrão, que volta e meia leva algum surfista para assistir a um culto.

 

Psicólogos que trabalham com tratamento de viciados, como foram os casos de Dadá e Juca, estão acostumados a observar conversões completas de pacientes através da fé evangélica.

 

“Dentre os pacientes que se curam de dependência química através da fé, praticamente 100 % se dão pela fé evangélica. Muito provavelmente pela alta ocorrência de uma população jovem, alguns com histórias muito semelhantes. Nesse sentido, a igreja pode funcionar como um grupo de ajuda, uma vez que a troca de experiências referente a problemas do mesmo universo costuma confortar e trazer alívio. A identificação real com um grupo reforça a sensação de ‘ser aceito’. Essa aceitação acaba proporcionando subsídios para a recuperação da fé em si mesmo, viabilizando um ‘resgate’ próprio. Dificilmente você observa isso em outras religiões. Isso é uma questão notória”, comenta Adriana Buonfiglio, psicóloga paulista e bodyboarder, que já testemunhou diversas mudanças comportamentais nesse sentido.

 

Cabe assinalar que ela não é evangélica e que, de forma alguma, menospreza a terapêutica aplicada em algumas clínicas especializadas.

 

O mais interessante é que, ao tornar viável a escolinha de surfe de Dadá Figueiredo, uma igreja evangélica acabou dando um importante empurrão para o desenvolvimento do surfe carioca. Tipo de coisa que só poderia acontecer mesmo no Brasil…

 

Para conhecer mais detalhes sobre a igreja, visite a página Saranossaterrario.com.br .

 

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