
Quando pegamos onda, nos deparamos no pico com várias pessoas diferentes. E naquele momento, elas são simplesmente o crowd.
Não passa pela cabeça e nem nos interessa, saber o que cada uma daquelas cabeças faz, se trabalham, estudam ou vagabundeam. Quantos anos têm e se a vida familiar vai bem. Dentro da água, nada disso importa.
Em nossa vida, temos que tomar muitas decisões importantes. Para isto, temos que ter prioridades. Estudo, trabalho e curtição. E, com essas prioridades na cabeça, acabamos deixando muitas outras coisas de lado, coisas de menor relevância.
É natural, mas tem momentos que o esporte toma conta das nossas vidas de tal maneira, que nos perguntamos: Será que fui eu que estipulei as minhas prioridades, ou foram as minhas necessidades que o fizeram? Será que realmente prefiro trabalhar à

estar aqui, pegando onda? Nessa, o que era uma diversão, brincadeira, vira um tormento.
Parece que o tempo não faz mais sentido. O que organiza a semana e até mesmo cada dia, é o mar. Eu estudaria o dia inteiro se o mar ficasse flat, 10 horas seguidas, sem parar.
Mas se o mar sobe e o oceano me chama, as ondas parecem quebrar qualquer compromisso que eu possa ter. O meu tempo sou eu que faço e nada pode ser melhor ou mais importante do que, neste instante, estar aqui dentro da água.
Nos sentimos capazes de deixar qualquer coisa de lado por aqueles momentos infinitos de conexão com a natureza. Lá dentro do mar, nenhum pensamento é capaz de nos atingir, muito menos o arrependimento de estar deixando pra trás alguma prova, um dia

no trabalho novo, almoço na casa da sua avó. Tudo isso fica lá na areia. Preocupação não sabe nadar. E no pico, nada, absolutamente nada consegue te atingir.
Essa religião muitas vezes vira obsessão. Droga, vício. Logo após sair de dentro do mar, exausto, chega-se em casa, e aí sim bate aquela sensação terrível de irresponsabilidade. Jura-se pra si mesmo que vai parar definitivamente com isso.
Pegar onda, só no final de semana. Eu não podia ter faltado tal aula. Mas vício é vício. Nega-se a droga, xinga, diz que nunca mais vai voltar, mas volta. E é só sentir o cheiro do sudoeste pra começar a angústia, a boca seca. Maldita fissura, efeito colateral que para se livrar, igual a dor de cabeça da ressaca, só se drogando é que parece passar.

E daqui, olhando as perfeitas ondulações dessas direitas que quebram perfeitamente sobre o banco de areia, olhando para cada pessoa estratégicamente posicionada no pico. Tentando não pensar na aula, que mais uma vez estou perdendo.
Sinto vontade de afogar a vida inteira, esta sociedade que só pensa em dinheiro, esta neurose de estudar, esta família problemática, este emprego medíocre.
Afogar para viver eternamente nesta loucura de sair correndo atrás da natureza, achando que será possível em algum dia, entrar em um tubo, e, fazendo parte de uma onda, nunca mais voltar.